Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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O Lado “C” da Segunda Guerra Mundial – John Henry “Johnny” Smythe, de Serra Leoa para a RAF

Por: Anderson Subtil / Ricardo Lavecchia

John Henry “Johnny” Smythe nasceu em 30 de junho de 1915 na antiga colônia britânica de Freetown, hoje capital de Serra Leoa, na África Ocidental, onde obteve o diploma secundário na chamada Grammar School, instituição de ensino local mantida por missionários anglicanos e, mesmo por isso, conseguiu um bom emprego no departamento de agricultura da administração colonial. Em 1939, Smythe se alistou no batalhão local da chamada Royal West African Frontier Force (RWAFF), chegando nessa força ao posto de sargento. Dois anos depois, enquanto os companheiros se preparavam para lutar contra os japoneses na Índia, ele se ofereceu para o treinamento como aviador na Royal Air Force (RAF), sendo um dos únicos quatro candidatos, de um grupo de noventa homens, a completar o treinamento como Oficial Navegador.

Após mais de um ano de preparação e ter passado ileso por um bombardeio da aviação alemã em Hastings, já como Pilot Officer (Segundo Tenente), Johnny Smythe foi alistado no efetivo do 623 Squadron, onde completou vinte e sete missões como tripulante de um quadrimotor  Short Stirling Mk. III. Segundo o que conta, todos os dias eles saiam do alojamento para contar os aviões que retornavam e ver se algum estava faltando. Ele e seus companheiros sabiam o que lhes esperava sobre território inimigo e que havia boa chance de não retornar de uma missão.

A primeira missão em que eles realmente sentiram os perigos de voar sobre a Alemanha foi durante uma incursão sobre a cidade de Mainz, quando seu aparelho foi atingido várias vezes pela Flak (artilharia antiaérea). Porém, apesar de estar em muito mal estado e com um dos motores parados, continuou voando e, mesmo com todos os problemas, conseguiram pousar na Inglaterra com segurança.

Em outra ocasião, enquanto retornavam para sua base, foram perseguidos por um caça noturno alemão, os temidos Intruders, que espreitavam os arredores dos campos da RAF para derrubar os bombardeiros justo quando já esperavam estar em segurança sobre solo pátrio. Johnny recorda que estavam voando baixo quando viu o caça e avisou o resto da tripulação, principalmente o artilheiro traseiro, que imediatamente começou a atirar para tentar afugentar o atacante. Mais uma vez tiveram sorte, pois o ruído de ambas as aeronaves chamou a atenção da antiaérea britânica e o piloto alemão, não querendo se arriscar sobre terras hostis desistiu da perseguição.

Em fins de 1943, Johnny Smythe foi promovido ao posto de Flying Officer (Primeiro Tenente), mas sua sorte, que o acompanhara até então, estava por terminar. Naquela que foi a 28ª operação em que tomou parte, durante um dos primeiros ataques da chamada Batalha de Berlim, em 18 de novembro de 1943, seu avião foi aacado repentinamente por caças noturnos da Luftwaffe. Essas são suas palavras:

“…Voávamos a uns 16 mil pés quando caças inimigos saíram do nada. Recebemos disparos ao longo da fuselagem e havia chamas por todo o lado. Então os holofotes nos pegaram e disparos nos atingiram por debaixo. Estilhaços perfuraram meu abdômen, saindo pela lateral do tronco, enquanto outro transpassou meu assento e se alojou em minha virilha. Ouvi o piloto gritar para saltar-nos. Nós havíamos passados por situações mais difíceis antes, mas essa parecia ser o fim.”

Ele achou que iria morrer, mas conseguiu saltar, caindo em uma região rural e rapidamente procurando abrigo em um celeiro. Logo em seguida dois soldados alemães irromperam pela porta, abrindo fogo com suas armas automáticas. Johnny então decidiu se entregar. Os alemães ficaram estarrecidos com o que estava a sua frente, um homem negro metido em uniforme de oficial aviador e esse momento de surpresa possivelmente o salvou de ser morto ali mesmo. Vale lembrar que, com as cidades alemãs sofrendo dia e noite com as bombas aliadas, os militares alemães não nutriam grande respeito pelos tripulantes de bombardeiros capturados, chamados pela propaganda nazista de Terrorflieger.

Arrestado, logo foi enviado a um campo de prisioneiros para oficiais da aviação mantido pela Luftwaffe, o StalagLuft I, nas cercanias de Barth, na Pomerânia. Ali, se voluntariou como enfermeiro e auxiliou em vários planos de fuga, embora nunca tenha pensado ele mesmo em escapar. Segundo o que dizia, um homem negro, com mais de um e noventa, não teria muitas chances de chegar muito longe no interior da Alemanha. Em 30 de abril de 1945, após a recusa dos prisioneiros de evacuarem o campo, os guardas alemães abandonaram seus postos e, logo depois, todos foram libertados por tropas russas. Como único negro lá internado, Smythe chamou muita atenção de seus libertadores, que o trataram muito bem, inclusive dando-lhe abraços efusivos e generosas porções de Vodka.

John Henry “Johnny” Smythe permaneceu na RAF depois do conflito mundial e também se formou em direito. Em 1951, casou-se na Inglaterra e passou para a reserva como Flight Lieutenant. Retornou depois a Serra Leoa, onde tornou-se uma figura proeminente no campo jurídico, chegando inclusive a exercer o cargo de Procurador Geral do país. Mais tarde, já aposentado, estabeleceu-se em Thame, no condado de Oxfordshare, sudeste da ilha britânica, onde veio a falecer em 1996.

Sobre Ricardo Lavecchia

Ricardo Lavecchia tem 35 anos, nascido no dia 22/01/1982. Natural de Santo André – SP

Trabalha como vedendor, desenhista nas horas vagas, sempre procurou novas idéias em imagens de livros e jornais, e foi numa dessas buscas que descobriu outra paixão: A Segunda Guerra Mundial. Tinha, então, 18 anos e se deparou com o livro: “Crônicas de Guerra – Com a FEB na Itália” de Rubens Braga. Ao invés de apenas escolher uma imagem para desenhá-la, resolveu ler o livro. O fascínio pelo assunto o tomou por completo.

Em suas pesquisas sobre o tema, descobriu não só relatos de guerra, mas amizades sinceras de veteranos, como o Sr. Antônio Cruchaki, veterano do 9º BEC e o falecido Capitão Rocha da Senta a Pua.

E-mail: ricardo @ segundaguerra.net

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