Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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O Dia D – Forças Aliadas – Parte II

BRITÂNICOS

Ao se encerrar a Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha estava esgotada em todos os sentidos: seu potencial humano estava esgotado, sua economia em frangalhos, seu moral arruinado. Gerações inteiras estavam agora sepultadas no Flandres e qualquer menção de desenvolvimento militar na Inglaterra, nas décadas de 20 e a maior parte do de 30, era ignorada ou atacada. A Primeira Guerra havia sido a guerra para acabar com todas as guerras e todo mundo na Inglaterra desejava que isso fosse verdade. Por isso, o exército britânico viveu à míngua nesse período – a ponto do futuro general Slim, conquistador da Birmânia, ter então que escrever crônicas para um jornal, sob pseudônimo, para melhorar a renda. O seu efetivo era tão pequeno que a RAF foi incumbida de fazer a guarnição do Iraque. Suas armas eram as mesmas da guerra anterior e sua organização sofrera reduções. E quando o nazismo chegou ao poder na Alemanha os ingleses foram lentamente acordando para a triste realidade de ter que se preparar para outra guerra.

A organização militar britânica não mudou consideravelmente de uma guerra para outra: a diferença mais marcante foi que a brigada passou a ter 3 batalhões ao invés de 4.

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Soldados britânicos da 50ª Divisão - Nortumbriana - Todos de uniforme padrão P37/40, capacete Mark II, botas e tornozeleiras Mk 37 cinto Mk 37 bolsas Mk II & III, cantis Mk 37 e ferramentas de cavar. As armas: Sten SMG Mk II, o fuzil Lee Enfield Nº 4 Mk I 7,7mm e a metralhadora Bren.

A forma de recrutamento no Exército Britânico é única no mundo: o cidadão se alista no “Regimento” de seu condado. Este regimento, na verdade, não é uma unidade de combate, mas apenas um órgão de recrutamento. Ele forma batalhões que se tornam disponíveis para emprego pelo Exército como batalhões independentes ou, com outros batalhões, formar brigadas e divisões. Apenas como um exemplo, a composição da 231ª Brigada de Infantaria (parte da 50ª Divisão na Normandia):

  • 2º Batalhão do Regimento Devonshire;
  • 1º Batalhão do Regimento Hampshire
  • 1º Batalhão do Regimento Dorsetshire.

Essa organização, por outro lado, não era rígida, fixa e nem mesmo se prendia à nacionalidade. A 3ª Brigada da 6ª Divisão Aeroterrestre continha um batalhão canadense (1º Batalhão Pára-quedista canadense).

A própria 231ª só se incorporou à 50ª DI nos preparativos para a invasão da Normandia, pois a divisão perdera uma brigada em combate na África do Norte. As divisões britânicas, além disso, tinham “títulos” honoríficos.

O Exército Britânico lutou a Segunda Guerra Mundial com seis tipos de divisões:

  • Infantaria,
  • Aeroterrestre,
  • Blindada,
  • Cavalaria,
  • Mista
  • Motorizada.

Contudo, apenas as três primeiras realmente combateram. A única divisão de cavalaria (1ª) foi formada em 31/10/1939 e serviu na Grã-Bretanha e Oriente Médio, apenas em tarefas de guarnição. Foi reorganizada em 01/08/1941 na Síria e tornou-se a 10ª Divisão Blindada.

A Divisão “Mista” era uma divisão composta por duas brigadas de infantaria e uma blindada, mas isso foram apenas uma experiência realizada na Inglaterra em 1942/1943 e então as divisões voltaram a ter três brigadas de infantaria (embora a 2ª Divisão Neozelandesa tivesse uma organização parecida com essa na campanha italiana).

A Divisão “Motorizada” (entre aspas, pois, na realidade, praticamente todas as divisões de infantaria britânicas eram plenamente motorizadas) compunha-se somente de duas brigadas (o equivalente à divisão “ligeira” alemã), mas nunca foram usadas “pra valer”.

As formações canadenses seguiam o padrão britânico.

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Soldado Canadense na campanha da Itália em 1943

Divisão de Infantaria

a Divisão de Infantaria variou muito pouco em organização durante a guerra, embora tivesse consideráveis alterações em efetivo e composição. Em setembro de 1939, ela era composta por:

  • 1 regimento de cavalaria,
  • 3 brigadas de infantaria,
  • 3 regimentos de artilharia
  • 1 regimento anti-tanque,

O que lhe dava um efetivo de 13.863 homens.

Em 1941, o regimento de cavalaria foi extinto e foi acrescentado um regimento de artilharia AA. Em 1944, ela tinha um regimento de reconhecimento equipado com carros blindados e contava 18.347 homens. Contudo, com a escassez de material humano cada vez mais aguda no transcorrer da guerra, isso significava que menos divisões poderiam ser empenhadas e várias acabaram dissolvidas antes mesmo de dar um tiro.

Títulos Honoríficos das Divisões de Infantaria Britânicas

As divisões do Exército regular não possuíam esses títulos. Eles se destinavam às divisões do Exército Territorial (o equivalente à Guarda Nacional nos EUA) e se referiam às regiões do recrutamento.

  • 12ª DI – Eastern
  • 15ª DI – Scottish
  • 18ª DI – Não teve
  • 23ª DI – Northumbrian
  • 38ª DI – Welsh
  • 42ª DI – East Lancashire
  • 43ª DI – Wessex
  • 44ª DI – Home Counties
  • 45ª DI – Não teve
  • 46ª DI – Não teve
  • 47ª DI – London
  • 48ª DI – South Midland
  • 49ª DI – West Riding
  • 50ª DI – Northumbrian
  • 51ª DI – Highland
  • 52ª DI – Lowland
  • 53ª DI – Welsh
  • 54ª DI – East Anglian
  • 55ª DI – West Lancashire
  • 56ª DI – London
  • 59ª DI – Staffordshire
  • 61ª DI – Não teve
  • 66ª DI – Não teve

Divisões Blindadas

Uma divisão blindada britânica, no transcorrer da Segunda Guerra Mundial, variou de tal maneira que não se pode definir nenhuma composição como “padrão” antes do “Dia-D”. Apesar de terem inventado o tanque, os britânicos simplesmente abandonaram o seu desenvolvimento em função da crônica falta de recursos nos anos 20 e 30. Além disso, as “profecias” de homens como Fuller e Lidell-Hart a respeito da futura guerra mecanizada não eram levadas a sério e a tradicional arma da cavalaria (como em todos os exércitos do mundo) se opunha à mecanização em larga  escala.

Quando a Alemanha invadiu a Polônia com 6 divisões blindadas, a Grã-Bretanha mal tinha duas (e uma estava no Egito). Em 1939, a Divisão Blindada britânica era composta por:

  • 1 brigada blindada “leve”,
  • 1 brigada blindada “pesada” (ambos a 3 regimentos)
  • 1 “grupo de apoio” – composto por 1 regimento de artilharia, 1 regimento de artilharia AA/AT e 2 batalhões de infantaria motorizada.

No papel, ela teria 349 tanques, sendo 54 tanques “pesados” (Matilda).

Em 1940, alguém se finalmente percebeu que era muito tanque para pouca infantaria e alterou a sua composição: a Divisão Blindada agora tinha:

  • 1 batalhão de infantaria motorizada em cada brigada blindada (extinguiu-se os termos “leve” e “pesada”)
  • A artilharia foi reforçada com o desmembramento dos regimentos de artilharia AA e AT.

Em compensação, o “grupo de apoio” perdeu um batalhão de infantaria. Essa composição só entrou em vigor em outubro de 1940, ou seja, a 1ª Divisão Blindada já tinha sido destruída na França.

Em 1942, em função das consecutivas derrotas que as divisões blindadas britânicas estavam tendo contra o Afrika Korps, a sua organização variou nada menos que três vezes. No início do ano surgiu o “grupo de brigada”:

  • 1 brigada blindada com infantaria,
  • Artilharia de campanha,
  • Artilharia AA e AT.

Ao terminar o ano, uma Divisão Blindada britânica deveria ser composta por:

  • 1 brigada blindada (a 3 regimentos, agora equipados com Shermans),
  • 1 brigada de infantaria motorizada (o grupo de apoio foi abolido),
  • 2 regimentos de artilharia,
  • 1 regimento de artilharia AA e outro AT.

O seu efetivo era de 186 tanques.

Em abril de 1943, a Divisão Blindada recebeu de volta o seu regimento de reconhecimento blindado e um dos regimentos de artilharia passou a ser autopropulsado (e, ironicamente, passou para o comando da brigada de infantaria). A brigada blindada contava com:

  • 3 regimentos de tanques,
  • 1 batalhão de infantaria motorizada,
  • 1 regimento AT
  • 1 regimento AA (ao todo, 278 tanques).

Uma formação que, literalmente (e sem trocadilhos), “para inglês ver”.

Na batalha de El Alamein (23/10/1942), a 10ª Divisão Blindada possuía duas brigadas blindadas (8ª e 24ª) e a 7ª Divisão Blindada chegou a ter 3 em certa ocasião (4ª, 7ª e 22ª), além de ter uma brigada motorizada indiana!

A verdade é que as divisões blindadas britânicas engajadas em combate entre 1941 e 1943 só o foram na África do Norte, onde todo tipo de improvisação tinha de ser feito e os meios existentes quase nunca correspondiam ao que estava escrito no papel.

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Sherman Mk Vc Firefly na Normandia

Mas essa bagunça acaba com os preparativos para o “Dia-D”. Em março de 1944, as três divisões blindadas britânicas (7ª, 11ª e de Guardas), a 4ª canadense e a 1ª polonesa seguiam o mesmo modelo:

  • 1 regimento de reconhecimento blindado,
  • 1 brigada blindada (a 3 regimentos de tanques e 1 batalhão de infantaria motorizada),
  • 1 brigada de infantaria (a 3 batalhões),
  • 2 regimentos de artilharia (1 rebocado e outro autopropulsado),
  • 1 regimento AT e outro AA, além de uma companhia independente de metralhadores.

A divisão agora contava com 343 tanques (incluindo tanques AA).

As divisões blindadas que permaneceram no Mediterrâneo (6ª britânica, 6ª sul-africana, 5ª canadense e 2ª polonesa) eventualmente adotaram a mesma organização.

Ironicamente, a veterana 1ª Divisão Blindada, que lutou na França em 1940, África do Norte e Tunísia não foi mais empenhada em combate e acabou dissolvida em 11/01/1945. Realmente, um fim inglório.

Commandos

Embora nunca chegassem próximos ao efetivo de uma divisão, não obstante causaram mais danos ao inimigo. Os “commandos” surgiram após o desastre de Dunquerque e se destinavam a mostrar aos alemães (e ao mundo) que a Grã-Bretanha continuaria a lutar.

Eram pequenos destacamentos de tropa especialmente treinada para efetuar incursões ao longo da imensa costa defendida pelos alemães. Os seus efeitos foram incomensuráveis, pois divisões inteiras tiveram que ser estacionadas nas costas para evitar os ataques de algumas dezenas de homens.

O caso mais famoso foi na Noruega, pois durante anos um considerável exército foi mantido lá na expectativa de uma invasão aliada que nunca aconteceria, graças, em parte, à ação dos “commandos”.

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Unidades dos Commandos na Noruega em 1944

Já com a maré da vitória virando para o lado aliado, essas tropas super-treinadas foram utilizadas em missões especiais, particularmente no “Dia-D”.

Observação: Nas armas da cavalaria, blindados e artilharia, o termo “regimento” não se refere ao que foi dito sobre os órgãos de recrutamento da infantaria. Nessas armas, o regimento é uma unidade tática de combate de tamanho equivalente ao batalhão na infantaria.

Outras Formações BRITÂNICAS

79ª Divisão Blindada

Criada no Reino Unido a 14/08/1942. Em abril de 1943, foi reestruturada para ser uma divisão de blindados especiais (“Funnies”), sem contar com nenhuma infantaria nem artilharia. Embora seus elementos participassem do “Dia-D”, a divisão só desembarcou efetivamente a 12/08/1944.

Lutou no Noroeste Europeu, participando da conquista de Walcheren, da batalha de Reichswald e da travessia do Reno. Foi dissolvida a 31/08/1945. A sua composição variou muito durante a campanha do Noroeste Europeu. As seguintes brigadas fizeram parte da divisão nesse período:

  • 1ª Brigada de Tanques (07/05/1944 a 16/10/1944),
  • 31ª Brigada de Tanques – depois Brigada Blindada (04/09/1944 a 28/08/1945),
  • 30ª Brigada Blindada (17/10/1943 a 19/06/1945),
  • 1ª Brigada de Assalto da Real Engenharia (10/05/1944 a 16/01/1945),
  • 1ª Brigada de Engenharia Blindada (26/11/1943 a 26/06/1945)
  • 33ª Brigada Blindada (18/01/1945 a 21/08/1945).

Os “Funnies” de Hobart

Duplex Drive-DD Sherman

A função desse tanque modificado, vestido com uma espécie de bóia, era dar suporte as tropas de infantaria que iniciassem o desembarque. A opção por fazer um “tanque flutuante”, em vez de desembarcar veículos via lancha, tinha um motivo simples: qualquer embarcação que carregasse 4 tanques em seu bojo ficaria lenta o suficiente para ser alvo fácil da artilharia inimiga. Com o tanque podendo flutuar e seguir por si só até a praia, as lanchas de desembarque podiam liberá-los a 1 km da costa.

Os DD foram apoios vitais para a conquista das praias. Basicamente aonde eles conseguiram chegar, a resistência foi significativamente erradicada, mesmo na praia Juno, aonde dos 29 veículos lançados, 8 não conseguiram chegar até a praia. Já aonde poucos ou nenhum conseguiu chegar, como em Omaha  – praticamente todos os tanques afundaram antes de atingir a praia, devido as ondas revoltas – as perdas da infantaria foram elevadíssimas.

AVRE – Armoured Vehicle Royal Engineers

A sigla significa Armoured Vehicle Royal Engineers, ou Veiculo Blindado dos Engenheiros Reais. O carro podia ser utilizado para diversas tarefas.

O Churchill modificado levava no lugar do canhão um morteiro que, graças a trajetória elíptica de seu projétil, era muito mais eficiente na destruição de bunkers e estruturas de concreto. A única tarefa inusitada era recarregar a peca: o morteiro tinha de ser recarregado pela boca, obrigando o tripulante a se expor.

A versão equipada com morteiro era devastadora quando posta em ação, sua única limitação – Comparando com o alcance de um tanque normal – Era seu raio de ação relativamente curto, não ultrapassando 200 metros.

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Churchill Crocodile

A função desse blindado era desentocar os defensores das casamatas. Para isso ele possuía o canhão de 75 mm na torre, mas, em vez da metralhadora, ele possuía como arma secundaria: um bico de lança-chamas que incendiava que estivesse nos bunkers. O combustível era transportado numa carreta blindada de 6,5 toneladas, acopladas ao carro de combate. No total, 400 galões de liquido inflamável permitiam cerca de 80 “cuspidas” de fogo.

Os 800 veículos produzidos mostraram-se valiosos no campo de batalha, forçando o inimigo a se render ou recuar. A preocupação dos britânicos com esse “segredo Militar” era tanta que bastava uma unidade tornar-se incapacitada para que fosse completamente destruída – Incluindo ataques aéreos se necessários.

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CRAB

Sob expectativa da invasão da Normandia, Rommel ordenou que os alemães implantassem mais de 4 milhões de minas terrestres ao longo das mais prováveis praias de desembarque. Para detoná-las os britânicos desenvolveram uma versão modificada dos tanques Sherman chamada Crab (caranguejo), especializado na limpeza dessas minas.

O método utilizado pelo Crab não era convencional. Basicamente, o veiculo possuía uma serie de correntes acopladas em uma barra de metal. Ao acionar as correntes e fazê-las girar o peso delas acionava e explodia as minas.

BOBBIN

Da família AVRE, o Bobbin era um Churchill modificado, que tinha um enorme rolo compressor na frente do veiculo. O sugestivo nome bobbin significa bobina em português.

O bobbin foi concebido para uma tarefa não ligada diretamente ao combate, mas ainda assim vital. Ele era responsável por aplanar e deixar sólida a areia da praia, para que os demais veículos que desembarcassem não atolassem no terreno.

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Veja também:

O Dia D – Forças Aliadas – Parte I
O Dia D – Forças Aliadas – Parte II
O Dia D – Forças Aliadas – Parte III
O Dia D – Forças Aliadas – Parte IV
O Dia D – Forças Aliadas – Parte V

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial.

Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, – antigo Segunda Guerra.org – escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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