Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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O Dia D – 2ª a 6ª hora: 1h – 6h

A 01h11min o 84o Corpo alemão, em Saint-Lô, recebe, de Caen, uma comunicação de sua 716a DI:

“Pára-quedistas a leste do Orne, região Ranville-Bréville e orla norte da floresta de Bavent”.

A 01h45min recebe de Valones uma mensagem da 709a DI:

“Pára-quedistas inimigos ao sul do Saint-Germain-de-Varreville e perto de Sainte Marie-du-Mont. Segundo grupo a oeste da grande estrada Carentan-Valognes, dos dois lados do Merderet”.

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General Marcks

As duas regiões indicadas estão nas duas alas do corpo de exército. A operação é, assim, importante. O General Marcks cancela sua viagem a Rennes. A realidade substitui a ficção.

O céu está aterrorizante. Imensos espirais de fumaça avermelhada ensangüentam o horizonte. O barulho de milhares de motores – todos inimigos – domina a noite.

Às 02h00min, novas informações chegam a Caen e de Valognes. Pára-quedistas foram capturados. Pertencem à 3a Brigada Aerotransportada britânica e aos regimentos 501o, 505o e 506o de pára-quedistas estadunidenses.

Três, das quatro divisões de infantaria aérea conhecidas pelo inimigo, estão, pois, comprometidas. Os grandes chefes são despertados: Dollmann no Mans, Salmuth em Tourcoing, Rundstedt em Saint-Germain-en-Laye. Em Roche-Guyon, Speidel ainda espera, antes de alertar Rommel, que está em sua casa de Herrlingen.

No leste do Orne, as principais missões da 6a Airbone procedem. A cabeça-de-ponte de Rainville é concluída. São posta abaixo com dinamites as pontes do Dives, a de Troarn inclusive, destruída quase que unicamente pelo Major Roseveare, na retaguarda de sua guarnição.

O Castelo de Varaville é assaltado. Cai a bateria de Merville. Foi atacada às 02h45min, pelo 9o Batalhão de pára-quedistas, que conhecia sua missão de cor.

Às 03h45min, após forte combate, o Tenente-Coronel Ottway solta o pombo-correio com a mensagem: “bateria tomada”. Descobre-se então que a bateria continha apenas canhões 75 mm quase inofensivos ao invés dos temíveis 150 mm que os invasores queriam calar.

Às 03h30min, chega o General Gale, trazendo o material pesado. Sua divisão toma o Orne, semeia a confusão entre o Orne e o Vire, aprisiona diversos homens pertencentes à 716a DI e à 21a Pz. Suas perdas graves são mínimas, porém mais da metade de seus 4800 homens estão dispersos, devido aos erros da aterrissagem, e não respondem à chamada.

A operação de transporte aéreo estadunidense é demasiadamente complicada. As sebes e a bruma isolaram os pequenos grupos de pára-quedistas e povoaram de fantasmas o campo desconhecido por onde caiam os rapazes vindos do Novo Mundo.

Os brejos e as inundações matavam… Diversos pára-quedistas gastaram quase todas suas forças para sair do lamaçal, e alguns afundaram sob o peso do próprio equipamento. Dos 13000 homens das duas divisões de pára-quedistas, menos de 2500 se reagrupam imediatamente. Como instrumentos de reunião receberam matracas, que encheram a noite normanda com uma espécie de concerto de cigarras. Porém seus ruídos são abafados na espessura dos bosques.

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Muitos pára-quedistas foram lançados em áreas inundadas pelos alemães. Muitos se afogaram.

Na 101a Airbone, o 502o Regimento deveria tomar as saídas norte da Utah Beach, as aldeias de Saint-Germain e Saint-Martin-de-Varreville, Mésières, Audouville-le-Hubert; o 506o deveria apossar-se das saídas de sul, dos povoados de Houdienville, Pouppeville, Sainte-Marie-du-Mont; o 501o se estabeleceria no Dove, ao norte de Carentan. No entanto, o nevoeiro, o vento bagunçou estas combinações vastamente estudadas sobre o mapa. Os homens juntaram-se ao primeiro oficial que encontraram.

As escaramuças acontecem na obscuridade, com fracos grupos inimigos resguardados nas aldeias e também, provavelmente, com grupos amigos, vítimas de equívocos. No amanhecer, poucos são os elementos da 101a que estão nos lugares programados. Mas o súbito surgimento de tantos soldados do ar nas suas retaguardas desorganizou a defesa costeira da Alemanha.

Compõem a 82a Airbone, o 505o, o 507o e o 508o regimentos de pára-quedistas. O 505o deveria apossar-se de Sainte-Mère-Eglise e garantir as passagens do Merdetet até Chef-du-Pont e La Fière. Os dois outros regimentos deveriam constituir a cabeça-de-ponte para oeste, entre o Douve e o Merderet.

Quando a alvorada se aproxima, parte do 507o e do 508o ainda patina nas campinas inundadas. Outra parte pousou num terreno sólido, perto de Amfreville, mas as sebes espessas fazem com que o reagrupamento seja lento.

Nada haveria acontecido se um grupo de pára-quedistas não houvesse entrado no pátio de um pequeno castelo, perto de Picauville. Um carro Mercedes desliza rumo ao campo de exercício de Rennes, o general comandante da 91a Divisão de Fallsschirmjäger, William Falley, resolveu retornar ao seu QG quando o barulho dos bombardeios aéreos o convenceu da seriedade dos acontecimentos que iria marcar o dia que nascia. Um deles foi sua própria morte. Uma rajada atinge seu carro. Ele sai de pistola em punho. Outra rajada o derruba. A divisão que guarda o centro de Contentin perde seu chefe no inicio do combate.

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Campanário onde o soldado Steel ficou preso com seu pára-quedas

Na outra margem do Merderet a sorte sorri ao 505o. A tomada de Sainte-Mère-Eglise é o mais célebre episódio do desembarque. O mundo inteiro assistiu no cinema a casa do Sr. Hairon queimar, os bombeiros de capacete de cobre combater o incêndio, sob a vigilância dos soldados alemães, e o soldado Steel, preso pelas correias de seu pára-quedas, na ponta do campanário.

Ainda que sob o alcance do fogo antiaéreo, o 3o Batalhão do 505o aterrissou com notável exatidão na Zona de Salto 0, 1500 metros a noroeste de Sainte-Mère-Église, no lugar chamado vale da Miséria. O Tenente-Coronel Edward Drause reagrupou rapidamente seu pessoal e, no momento do assalto à localidade, ordenou para utilizar somente granadas e facas. Havia cerca de 30 alemães e mais uma tropa de um comboio de passagem. Foram rapidamente mortos ou presos.

Nessas escaramuças, o alerta se propaga nos escalões do Comando alemão.

  • Em Saint-Lô, Marcks dirige, rumo a Carentan, o único regimento de reserva. Em Mans, Dollmann ordena liquidar, através de uma ação homocênntrica, os pára-quedistas que descerem em torno de Sainte-Mère-Église.
  • Em La Toche-Guyon, Speidel prescreve à 21a Pz, reserva do Grupo B, a limpeza da margem direita do Orne.
  • Em Saint-Germain, Rundstedt alerta a Pz Lehr e a 12a Pz SS, prevenindo-as de que deverão seguir para Caen.
  • Pouco antes das 06h00min, o chefe de estado-maior Blummentritt chama a Berchtesgaden o adjunto de Jodl, Warlimont, informa-o das decisões de seu marechal e assegura-lhe que a invasão está desencadeada.

O sono de Hitler é intocável, mas Warlimont telefona a Jodl. Este desperta o Führer, que cético, diz:

“As descidas de pára-quedas são uma simulação; o verdadeiro desembarque não se acontecerá na baixa Normandia”.

Na Mancha, o vento sopra com força 5. As vagas espumam. O enjôo põe à prova a maioria dos passageiros do Grande Cruzeiro. No horizonte, trovões e relâmpagos indicam o terrível embate que está sofrendo a costa normanda: 1056 Lancaster da RAF contra as dez principais baterias alemãs. Começaram pelas de Merville, Fontenay e Saint-Martin-de-Varreville, sobre as quais o bombardeio devia preceder a intervenção das divisões aerotransportadas; continuam por La Pernelle, Maisy, ponta do Hoc, Longues, Mont-Fleury, Quistreham e Houlgate. Nos navios, calma absoluta. No mar, dilúvio de fogo.

Às 02h29min o LSH Bayfield, conduzindo o General Lawton Collins, comandante do 7o Corpo dos EUA, ancora a 17 braças de profundidade, 11 milhas ao largo de Utah Beach; 20 minutos depois, o LSH Ancon, levando o General Gerow, comandante do 5o Corpo fundeia, nas mesmas condições, diante de Omaha. Em torno dos dois QG flutuantes, todos os navios de imobilizam. Sete minutos depois, os botes de desembarque começam a dançar sobre as vagas. Um ligeiro clarão de lua dilui a escuridão, mas a costa está invisível. É irreal, quase angustiante, proceder aos preparativos para o maior desembarque da História, diante desse litoral que estaria totalmente silencioso, se não fosse o tapete de bombas que, a intervalos regulares, se abatem sobre ele.

Na água agitada, entre os pálidos salpicos de espumas, formam-se os comboios de assalto. À frente, os barcos-pilotos, seguidos pelos lançadores de fumaça. Depois, em colunas, as unidades especializadas, de PC ou patrulheiras, LCT encarregadas de levar os carros anfíbios; outras LCT lotadas de carros comuns; LCA inglesas e LCVP americanas transportam uma seção de infantaria; LCG trazendo a artilharia; LCF conduzindo a DCA; LST entupidas de homens de material; LCR trazendo as baterias de lança-foguetes. Os destróieres, galgos escoltando tartarugas, estabelecem seu posto nos flancos. Uma frota sai de outra frota e mergulha na noite, rumo a uma terra de mistério de perigo.

A distância da costa impõe uma navegação de três horas, sobre vagas de mais de um metro de altura, a esta frota de quilha rasa, dificilmente manobrável, reagindo brutalmente ao balançar das ondas. O enjôo chega mesmo a afetar as tripulações, tão recentemente habituadas ao mar. A Força U, vogando para Utah Beach, protegida pelo posto avançado de Cotentin, entra progressivamente em águas mais calmas. A Força O, ao contrário, continua a sofrer nas vagas como se fosse feito de cortiça – enquanto lentamente, como contra a vontade, o dia nasce.

Nas praias atribuídas aos ingleses, a aproximação foi mais tardia. Os transportes avançaram apenas até 7 milhas da costa. Às 05h05min, no momento em que a noite começa a dissolverem-se, clarões verdes na superfície das águas provam que o X-20 e o X-23 estão no seu posto de balizas. Alguns instantes depois, os navios, entre os quais o Warspite e o Ramillies, ancoram e os aviões da Fleet Air Arm lançam uma cortina de fumaça para esconder a frota das baterias pesadas do Havre. A formação de tropas de assalto começa em seguida.

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HMS Warspite na Normandia em 1944

Mas, no nevoeiro artificial, surgem três flechas. Três vedettes torpedeiras, T-38, Jaguar e Möwe, três mosquitos, uma trintena de homens, uma centena de toneladas, atacam os senhores do mar. Uma artilharia terrível os acolhe. Fazem, pois, meia-volta; retornam à cortina de fumaça – mas depois de ter lançado seus torpedos. Um destes atinge o destróier norueguês Svenney nas suas caldeiras. O barco afunda imediatamente.

Este ataque alemão, insignificante e intrépido, mostra que se conhece a aproximação da frota de invasão. Às 03h09min, um dos últimos radares alemães revelou enfim numerosos navios ao largo do Port-en-Besin. O Almirante Krancke deu ordem de intervenção às flotilhas de Cherburgo e do Havre. A de Cherburgo ficou imobilizada no porto, diante da ação da aviação inimiga. A do Havre fez uma vítima: um navio de guerra entre 1200!

Partem de terra alguns tiros de canhão. No ar, uma carga de 1.630 Liberartors da USAF substitui os Lancaster da RAF. No mar, os couraçados e os cruzadores atingiram as Fire Support Areas, a 10 braças de profundidade. Seus canhões abrem fogo às 5h30, contra Sword, Juno e Gold. Sobre Omaha e Utah o ataque só principia às 05h50min, havendo os estadunidenses preferindo a surpresa à demora de uma preparação. As lanchas de desembarque estão a 3000 metros das praias. A maré é a mais baixa possível. O sol ainda não surgiu.

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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2 comentários

  1. Gostaria de saber se tem um livro que conta toda a história da segunda guerra mundial,qual o nome dele,onde encontro e se vc’s tem qual o preço?quantas paginas tem?e se realmente conta toda a história do começo ao fim

  1. Pingback: O Dia D – 2ª a 6ª hora: 1h – 6h | Projeto Faces da Europa – Colégio Sacramentinas

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