Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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05 - Major Ruy de Oliveira Fonseca - Os Velhos Soldados Não Morrem

Major Ruy de Oliveira Fonseca – Os Velhos Soldados Não Morrem

Amigos em homenagem ao nosso querido Major Ruy de Oliveira Fonseca falecido hoje aos 96 anos, esse texto foi extraído do livro “Vivências de Guerra e de Paz”

Que DEUS o tenha em em bom lugar.

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Titulo de livros, de filmes e ate de novelas, é mais do que uma simples frase que afirma, negando. . E esta negação que, paradoxalmente, afirma, pode ser constatada quando os veteranos, ex-combatentes da Il Grande Guerra, se reúnem para comemorar os feitos brasileiros, nos Campos de batalha da Itália. O que narramos a seguir demonstra essa vivência que extrapola os limites físicos, o tempo e o espaço, para fixar-se na alma e no coração de cada velho soldado.

Não! Ele não faltaria, como nunca faltou, a festa que todos os anos se realizavam no Velho Regimento, agora transformado em Batalhão, em comemoração a mais um aniversario da mais importante vitória obtida por sua Unidade, na Campanha da Itália.

Na cidade grande, hospedou-se na casa de um antigo companheiro de farda e compadre, depois de seis horas de ônibus, desde a pequena Vila onde se fixara depois da guerra e constituirá família. Pediu à comadre que lhe passasse a ferro o terno, a Camisa e a gravata que tirou amarfanhada da usada bolsa de plástico e depois de se por a par das novidades locais e.

Contar as suas, saiu a bater pernas pelas ruas, com a esperança de encontrar outros antigos companheiros que, tal como ele, também viriam para as solenidades. Passou num engraxate para um lustro nos sapatos e aproveitou o resto do tempo para visitar as igrejas onde muitas vezes, rezava tanto, antes de seguir para a guerra.

Sentia-se excitado e ansioso pelo dia seguinte quando, no meio dos outros veteranos, haveria de destilar como antigamente, ao som das canções militares que nunca esqueceu: “Avante, camaradas”, “Bandeira do Brasil” e “Deus Salve a América”, e prestar continência aos novos e antigos chefes, reunidos no palanque, sob a Bandeira Nacional, lá no Monumento erguido.

Em memoria dos expedicionários, vivos e mortos.

Pedia a Deus que não lhe desse um “treco”, que impedisse sua participação, nem que suas pernas fraquejassem na hora do destile. Não, ele tinha que desfilar, de cabeça erguida e peito saliente, como lhe ensinou os instrutores, quando era recruta.

O dia amanheceu lindo; um sol avermelhado já se levantava por detrás dos morros da cidade, prometendo uma jornada clara e calorenta. Nosso veterano levantou-se cedo e começou os preparativos; vestiu a fatiota escovada pela diligente comadre, caleou os lustrosos sapatos, que ate lhe apertavam um pouco – mas ele nem ligou -, completando a indumentária com uma flamante gravata vermelha e preta. Em seguida, pescou no fundo da bolsa uma antiga caixa de sabonetes, cuidadosamente forrada com uma camada de algodão e, de dentro dela, com a ponta dos dedos retirou as três medalhas com que fora agraciado por sua conduta nos Campos de batalha; a medalha de campanha e a Cruz de Combate. Estendeu-as na palma da mão e alisou-as com carinho, antes de prega-las na lapela, do lado do coração…

Apos uma ultima olhada no espelho, deu uma ajeitada no topete ralo, de poucos cabelos grisalhos e saiu para a rua, feliz da vida, com as medalhas tilintando a cada passo.

Chegou cedo ao quartel, onde já encontrou outros veteranos que se cumprimentavam ruidosa e alegremente.

Olá, Ferreira! Tudo bem? Velho, V. esta bonitão!

Tudo legal! Mas V. é que este garotão!

Eu? _ Eu, não: o Lopes aqui, é que esta com tudo!

É eu sei que ele conseguiu a reforma e isso é bom!

Eu ainda ando as voltas com os exames médicos… Já fiz mais exames do que mulher gravida e ate agora nada…

É isso ai, meu camarada: pra gente “irmos”, bastou uma _ simples “escutada”… Agora, para melhorar um pouco a nossa velhice é uma encrenca toda…

Deixa pra lá, velhinho, o bom mesmo é a gente estar vivo e junto no nosso Regimento…

E por ai foi, aquela conversa de amigos que confiam uns aos outros suas conquistas, suas magoas e suas frustrações.

Terminada a missa gratulatória, celebrada no pátio do quartel, houve a formatura da tropa que, apos receber a Bandeira Nacional, deslocou-se para o local da solenidade. Ao redor do monumento, já se encontravam as autoridades e defronte, em forma, em fileiras, os ex-combatentes. Entre estes e as autoridades postou-se o Batalhão para o hasteamento das

bandeiras, como estava previsto no programa. Hasteadas as bandeiras, começaram as homenagens e os discursos.

A manha continuava radiosa e o sol, como prometera na madrugada, castigava os circunstantes; o suor já banhava os rostos dos soldados, que embora acostumados, já davam sinais de desconforto. Foi quando de repente, bem na frente do nosso veterano, vencido pelo calor, o oficial porta-bandeira do Pavilhão Nacional tombou desmaiado. Atento a tudo, o velho

Soldado, com uma das mãos amparou-lhe a queda e com a outra, tomou-lhe a Bandeira, antes que escorregasse para o chão e plantou-se – é bem o termo – no lugar vago, imponente, na mais rigorosa posição de “descansar”, até ser substituído por outro oficial. Voltou o veterano para o seu lugar em forma, dizendo lá com seus botões, sem atentar na grandeza da ação que

praticara: “é, .. não é que um dia fui, embora por alguns momentos, o “Porta- Bandeira” do meu Regimento!”…

Sobre Ricardo Lavecchia

Ricardo Lavecchia tem 35 anos, nascido no dia 22/01/1982. Natural de Santo André – SP Trabalha como vedendor, desenhista nas horas vagas, sempre procurou novas idéias em imagens de livros e jornais, e foi numa dessas buscas que descobriu outra paixão: A Segunda Guerra Mundial. Tinha, então, 18 anos e se deparou com o livro: "Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália" de Rubens Braga. Ao invés de apenas escolher uma imagem para desenhá-la, resolveu ler o livro. O fascínio pelo assunto o tomou por completo. Em suas pesquisas sobre o tema, descobriu não só relatos de guerra, mas amizades sinceras de veteranos, como o Sr. Antônio Cruchaki, veterano do 9º BEC e o falecido Capitão Rocha da Senta a Pua. E-mail: ricardo @ segundaguerra.net

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4 comentários

  1. Agradecemos o carinho com nosso pai e avô Ruy.

  2. Fabio Marcio V. Fonseca

    Prezado Sr. Lavecchia, ‘e sempre emocionante para um filho ,encontrar palavras tao nobres referindo-se ao seu pai .
    Parabens pelo trabalho de pesquisa e pela sua sensibilidade nos relatos sobre os veteranos da FEB.
    grande abraço
    Fabio Marcio

  3. GLADIMIR P LUCHINA

    Pessoa digníssima o Major Ruy, que tive o prazer de conhecer no lançamento de seu livro que comprei com grande satisfação e autografado por ele, onde após a entrega desejei-lhe longa vida, a quem dedico a minha mais alta estima a este verdadeiro herói da nossa Pátria Brasil, que bravamente lutou com dignidade para a paz mundial.

  4. jairo Braga Machado

    Sr. Lavecchia,

    Apesar de ter passado quase um ano do falecimento dessa grande figura,
    hoje relembrando os bravos do 11RI, Regimento de São João, deparei-me
    com o seu blog.
    Tive a honra,o privilégio de participar com o Major Rui de várias come-
    morações sobre Montese.Ajudei a montar o museu da FEB em São João del-Rei
    e aprendi que nós brasileiros devemos muito a essa geração de soldados cidadãos.
    O livro do maj. Rui, antes de uma história de guerra é um exemplo do homem simples, culto e cumpridor dos seus deveres.

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