Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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Injustiças contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VII

FEB-logoOs antigos tenentes da Força Expedicionária Brasileira descendiam quase todos, de famílias abastadas; eram jovens, sadios, viviam bem e frequentavam universidades, quando a guerra os apanhou, convocando-os como aspirantes e tenentes.

Na Itália, a atuação deles foi de uma importância incontestável. De formação civil e de espírito liberal, constituíram-se no elo entre as camadas de soldados e graduados com os escalões de comando. Durante a campanha, convivendo e combatendo em meio aos praças, estabeleceram entre eles círculos de amizades muito sólidos, passando a considerar seus comandados como irmãos de sofrimento. De volta ao Brasil, de imediato, deixaram a farda, reingressando nas atividades civis. Procuravam, através do trabalho e da conclusão de seus estudos, superar os danos psíquicos, emocionais e físicos que lhes causou a guerra. Enganaram-se, contudo. Não conseguiram dedicar-se, inteiramente, às novas atividades. Onde quer que trabalhassem eram, continuamente, procurados e molestados por antigos camaradas, que lhes tomavam o tempo, levando a eles as dificuldades e penúria em que viviam.

As bancas de advogados, os consultórios médicos e odontológicos, laboratórios, escritórios de contabilidade ou de representações, as indústria e casas comerciais de antigos tenentes febianos, passaram a se encher de veteranos de guerra, mal vestidos e desorientados, que lá buscavam uma ajuda, uma consulta, um tratamento, sem nada lhes pagar, tomando ainda o tempo da clientela pagante. Penalizados com o que assistiam e não podendo virar as costas aos seus antigos comandados, imbuídos do sentimento de lealdade que os conduziu nos combates, passaram a se dedicar, com os poucos recursos que dispunham, aos trabalhos assistenciais junto às associações de ex-combatentes.

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Assim, assistindo seus camaradas, tratando de uns, internando-os em hospitais ou ainda recolhendo os corpos de outros que pereciam em terrenos baldios, para sepultá-los, condignamente, os anos se passaram… E, abrindo os olhos, viram-se velhos, doentes e de mãos vazias! É triste vê-los encerrar as portas de seus estabelecimentos, à beira da falência, encaminhando-se para uma das juntas médicas militares… Há ainda a terrível situação dos “mortos-vivos”. Aqueles aos quais a ditadura militar pretendeu infringir-lhes a morte moral, banindo-os de tudo. É uma situação inenarrável, pior, mais deprimente e desgastante que a dos cassados políticos e a dos loucos de guerra, porque nem o direito de receber a pensão correspondente aos seus postos, eles têm. A pensão é paga apenas aos seus familiares. Não se sabe quantos são os “mortos-vivos”. Um advogado, veterano de guerra, afirmou que são muitos. Trata-se de antigos sargentos, tenentes, capitães e majores da Força Expedicionária Brasileira, que permaneceram nos quadros das Forças Armadas e em 1964, ocupavam postos, hierarquicamente, mais elevados. E qual o crime que cometeram? Foi o crime de assumir posição consentânea aos seus princípios democráticos, declarando-se contrários ao golpe armado.

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A construção do monumento aos mortos da Segunda Guerra | Foto www.exercito.gov.vr

Se, a pretexto ou em nome de democracia, viram tombar antigos camaradas e comandados, outra não poderia ser a atitude deles. Entre os mortos-vivos figura um nome ilustre, uma das mais expressivas inteligências e um dos mais hábeis estrategistas que o Brasil mandou à guerra. E se o ex-presidente Jango não tivesse cometido a tolice e imprudência de convocá-lo para uma reunião no Rio, na noite de 29 de março de 1964, o ausentando da tropa que comandava no Sul, os rumos da história do Brasil seriam outros.

Hoje, o velho general, ex-comandante de um dos gloriosos batalhões da FEB, vive ou vegeta isolado de tudo e de todos, trancado num apartamento, no Rio. Ele e os demais, que estão na mesma situação, precisam ser, urgentemente, reabilitados perante a consciência nacional; trazidos de volta ao convívio dos vivos e às prerrogativas a que têm direito esses heróis. Tudo que se refere aos veteranos da Segunda Guerra Mundial, no Brasil, assume velada e maliciosamente uma significação depreciativa; sofre deturpações.

Pracinha – Termo medíocre e estúpido para designar nossos Heróis

A começar por essa denominação idiota, inventada para designá-los: “Pracinha“. Haverá tratamento mais estúpido e cretino que esse?! Um diminutivo infame, como se os veteranos de guerra fossem uns coitadinhos: “uma expressão carinhosa. própria dos sentimentos do povo brasileiro” procurou argumentar uma ingênua e bondosa senhora do Tribunal de Contas da União, em Brasília. Manifestação carinhosa para os trouxas. É um diminutivo e, como todo diminutivo, estabelece uma situação de dependência e de inferioridade do designado. É uma designação torpe e canalha que, alguém, mal intencionado, inventou e os simplórios, sem se darem conta, aceitaram. A partir daí o deboche vem prevalecendo até ao ponto de considerá-los loucos de guerra. O próprio Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no aterro do Flamengo, com aquela extravagante aparência de guarda-sol quadricular de duas hastes – representando mais um símbolo do comodismo e do temor às intempéries – assume uma imagem depreciativa. Longe está de ser o monumento que representaria a grandeza e o arrojo do ato dos que tombaram, em campo de batalha, em nome da Pátria!

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Vista do Monumento aos Mortos

Encerrando

Foi, visitando um veterano de guerra, antigo subcomandante de companhia de fuzileiros, que tomei a resolução de escrever este livro de verdades e vergonhas. Encontrei-o morando numa casinhola de madeira, acanhada, mal construída, na periferia distante do centro urbano, velho e acabrunhado, mancando, com as juntas inchadas, atacado de reumatismo. Na saleta de entrada, viam-se os vestígios de riqueza e de cultura decadentes, empobrecidos, antigos e pesados móveis de guarda-louças, abarrotados de raras edições da centenária biblioteca da família…

Pouco falamos… Pouco havia para ser falado. Os fatos, ao redor, falavam mais alto. Vendo-o, triste e acabado, lembrei-me do jovem que fora – altivo, ágil e incansável – num distante entardecer sobre um pedaço de montanha da Itália, juncado de mortos e feridos. Não havia o que se falar. E eu já conhecia a sua história: a olaria, que herdara do pai, que possibilitara a conclusão de seus estudos e até certo tempo um padrão de vida de cidadão abastado, teve de desativá-la; cuidando da assistência de ex-combatentes, seus negócios fracassaram. Daí fez ingentes tentativas para obter um cargo condizente numa fundação e numa estatal, deparando sempre com empecilhos inexplicáveis.

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O Vigor e a juventude de outrora deu lugar aos anos de abandono e esquecimento…

Assim foi até que toda renda da casa passou a se resumir nos salários de professora suburbana principiante, da esposa, também idosa. Fui ao encontro dela, quando chegava andando a pé pela rua – estrada, poeirenta e ensolarada, ao meio-dia. Vinha vagarosa, com braçadas de livros didáticos e cadernos… Insistiram para que eu participasse da singela refeição que dispunham. E, enquanto a esposa concluía o almoço, confessou-me, amargurado:
“Não posso mais viver desta maneira… deixar que minha mulher suporte os encargos da família com os minguados salários que recebe. Por isso amanhã, sem falta, vou procurar uma junta médica militar; preciso do atestado que me dará direito a uma pensão de major”.

Tratava-se da desgraçada “pensão de major louco de guerra”!…

“Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira”
Leonércio Soares – Obra do autor, editada em 1984.

Documentário FEB – Heróis Esquecidos
A história do descaso e humilhações contada pelos próprios ex-combatentes da FEB

Parte 1

 

Parte 2

 

Parte 3

 

Parte 4

 

Artigo composto de 7 partes:

Continua: Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte I
Continua: Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte II
Continua: Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte III
Continua: Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte IV
Continua: Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte V
Continua: Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VI
Continua: Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VII

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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12 comentários

  1. Também gosto das histórias da Segunda Guerra e por isso cheguei ao site, o último post no meu blog é sobre um episódio da batalha de Stalingrado.

    Li os sete artigos e é uma vergonha ver como o país trata os veteranos sem que haja uma explicação, irracional que seja, para isso. Se nem no regime militar os veteranos tiveram tratamento digno, o que dirá agora em que se tratam as forças armadas com revanchismo e soldados são vistos como pelotões de come-dorme. Um soldado enviado em missão ao exterior é visto como um intervencionista, assassino, matador, instrumento do imperialismo norte-americano. Nessas horas envergonha ser brasileiro.

  2. Olá…durate uma aula, fizemos um trabalho de tradução cujo texto mencionava os “pracinhas”. Entrou-se em consenso que “pracinhas” eram apenas aqueles militares brasileiros que serviram na 2ª guerra, mas ninguém descobriu o porquê deles terem sidos denominados assim. Será que vocês poderiam explicar melhor a escolha desse nome? Grata…

    • Olá, Aline. Obrigado pela visita!

      Na verdade o termo “Praça” aqui no Brasil e em outros exércitos serve para denominar os militares que não são Oficiais. Ou seja, posto abaixo de aspirante a oficial é considerado “praça”.
      Em alguns exércitos como nos Estados Unidos, por exemplo, utiliza-se “praça” para designar apenas Cabos e Soldados temporários, que não tem carreira militar, uma vez que Sargentos fazem carreira nas armadas.

      Especula-se que “pracinha” foi um termo criado para degradar os Soldados, Cabos e Sargentos que combateram pela FEB, considerando que a própria população da época acreditava que o Brasil não teria condições de enviar tropas para a Europa. E em todo o tempo a FEB foi observada sob grande desconfiança de sua capacidade de combate.
      Porém mesmo com as péssimas condições que o governo proveu aos militares brasileiros, estes foram para a guerra e saíram vitoriosos, Mas o termo “pracinha” acabou se fixando. Infelizmente, enquanto a própria Itália e outros países criaram uma boa imagem do Brasil nos combates da Segunda Guerra Mundial, aqui em nosso país o governo fez questão de não dar-lhe o devido valor, uma vez que Getúlio Vargas mantinha um regime muito parecido com o Fascismo Italiano.

      Resumindo: Praça = Soldados, Cabos, sargentos e Subtenentes.
      Pracinha= Um diminutivo de Praça, um apelido que “pegou”, mas que no funfo tem uma intenção degradante.

      O Próprio artigo acima discorre bem sobre esse tema.

      Esperamos ter ajudado!

      • ola Andre Luis eu me interessei muito belo seu site,tambe sou ex- militar e gostaria de saber como fazer para deixar comentários, pois já tentei posta e não obtive êxito.tentei ver o meu comentario que havia postado mais não consequi ver.

  3. EU COM FILHO DE EX, SEI O QUE PASSAMOS QUANDO CRIANÇA, MEU PAI SOFRIA MUITO DOS DESCASOS DAS AUTORIDADES, TENTOU VOLTA A VIDA NORMAL, TRABALHA E COM ISSO TENTA NOS DAR UM CONFORTO MAIOR, ELE QUASSE NÃO FALAVA DA GUERRA,MAIS NÓS (FILHOS). SENTIAM QUE ELE SOFRIA COM ISSO, O RECONHECIMENTO VEIO TARDE SÓ COM A CONSTITUIÇÃO DE 88, MAIS ELE JA ESTAVA VELHO PRA APROVEITAR DESTA. POIS SUA JUVENTUDE FICOU NA ITALIA. PELO MESMOS VEIO MESMO QUE TARDE.

  4. José Roberto Crivelaro

    Sou filho do ex-combatente Henrique Crivelaro (falecido em 11.01.2010). como professor de hstória prometi ao meu saudoso pai falar mais sobre o soldado brasileiro nas aulas de história, o que aparece muito pouco nos livros didáticos. Achei este site muito interessante e aproveito para parabenizar os seus idealizadores.

  5. Márcia Lamas Ribeiro

    Também sou filha de um ex-combatente, Rinaldy Ribeiro do Nascimento, da Cidade de Ubá. Meu pai perdeu a juventude na Itália. Ele sempre comentava que seu sofrimento começava quando adormecia e continuava quando acordava.
    Meu pai sofreu muito o trauma pós-guerra e junto com ele minha mãe e minhas irmãs.
    Meu pai falava pouco da guerra, mais para mim ele é um verdadeiro HEROI, esquecido e injustiçado pelo Brasil que tanto defendeu.

  6. Maria Antonia Mazzeo

    Sou filha de um “pracinha” do Exército Brasileiro, da 5a R.M. e 5a. D. I. CONT. III/15 R.C.I. em Palmas, PR, durante o período da Segunda Guerra. Seu nome é Geraldo Mazzeo e o registro é: 35228, cabo de número 110. Gostaria de obter mais informações sobre este período da vida dele e como obter o seu certificado de reservista de primeira categoria. também gostaria de saber se foi agraciado com algum tipo de benefício pelos serviços prestados.

    Atenciosamente,

    Maria Antonia Mazzeo

  7. Maria das dores azevedo da rocha

    Sou filha de um ex combatente da Guerra de 1945, da FEB da Italia. O NOME DO MEU PAI: GERALDO ANTONIO DE AZEVEDO. Ele ficou 2 anos e 2 meses lá.

  8. celso roberto rodrigues

    gostaria de saber o tratamento que foi dado aos norte americanos ex combatente no pós guerra

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