Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

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Segunda Guerra Mundial
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febiano09 - Injustiças contra os Ex-combatentes da FEB – Parte IV

Injustiças contra os Ex-combatentes da FEB – Parte IV

Procurando rebater as insídias do ato governamental e no intuito de separar o joio do trigo, foi fundada a “Associação dos Veteranos de Guerra do Brasil”, distinguindo-se, dessa forma, dos que, por obra da malfadada lei, passaram a ser apelidados de ex-combatentes. A nova instituição, embora séria, embora congregando os verdadeiros ex-combatentes, pouco ou quase nada tem conseguido alcançar em benefício dos camaradas mais necessitados, face às dificuldades criadas pela má vontade dos que hoje mandam.

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Eles estiveram em ação, mas o reconhecimento da própria pátria não existiu...

Em 1975, um ex-sargento expedicionário trabalhava como vendedor de livros da Enciclopédia Britânica. E vendendo livros, chegou à Foz do Iguaçu. Lá percebeu que a camada obreira mais bem remunerada constituía-se de funcionários da empresa do governo, Itaipu, e das empresas particulares empreiteiras das obras da barragem.

Ocorre que, para ingressar nos acampamentos, seria necessária uma autorização do chefe de segurança da Itaipu – um capitão da Brigada Gaúcha. Ao entrar na sala do capitão da guarda, o ex-sargento deparou, espalhados sobre a mesa, documentos de caráter sigiloso, inclusive as INs(Informações necessárias da Presidência da República). Identificados os documentos, embora afastado da mesa, o ex-sargento falou: “Vejo algumas INs sobre sua mesa”. O capitão espantou-se com a observação do ex-sargento: “Você entende disso?!”, perguntou. “Sim. Sei alguma coisa sobre informação. Aqui é um órgão setorial, deve ter a obrigação de umas cento e cinquenta INs…” Mais espantado se mostrou o capitão, confirmando: “Cento e quarenta e cinco, para ser exato!” Prosseguindo, tentou justificar a desordem de documentos em sua mesa, lamentando-se: “Não disponho de gente habilitada! Isto e um fim de mundo!” E, propôs: “Você quer trabalhar comigo? Há uma vaga no setor de informação… se aceitar começará com um bom salário e, após os três primeiros meses, receberá em dobro…”

Aquela proposta de um emprego razoável vinha a calhar. O ex-sargento atravessava um período difícil; os resultados das vendas de livros desapareciam com as despesas de viagem. Face à anuência do ex-sargento em aceitar o emprego, o capitão esclareceu alguns detalhes: “A sua admissão depende de autorização do nosso diretor administrativo, o general, mas não haverá problema: a vaga existe e ele atende todos os meus pedidos. Vou me comunicar com ele e você o procurará, em Curitiba. Leve o meu cartão; nele está o endereço. Outra coisa: não se esqueça de levar o seu currículo.”

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A Cobra deixou de fumar e o sorriso no rosto também ninguém mais viu...

Diante da alvissareira perspectiva de trabalhar na Itaipu, o ex-sargento esqueceu todos os outros compromissos e encerrou as suas atividades de vendedor de livros da Britânica. Em Curitiba, o general (tratava-se, sem dúvida, de um general de “espada-virgem”, irmão do governador também general de “espada-virgem”), diretor administrativo da empresa da União, com quem o capitão da guarda já havia se comunicado, recebeu o ex-sargento de braços abertos, como se fossem velhos e bons amigos. Uma pessoa fina, educadíssima e maneirosa, apresentava-se toda vestida de branco e de cabeça raspada. Depois dos abraços e das saudações, foi entregue o currículo. Feita uma rápida leitura, vieram os “volte amanhã”…

Aí é que está a canalhice: as protelações, acarretando perda de tempo e despesas inúteis; a falta de franqueza, de considerações e de respeito para com os outros. Esses aproveitadores que ora detêm o poder, tem todo o direito de escolher os seus auxiliares, como bem entenderem, mas não têm o direito de embromar, abusar da paciência e nem achincalhar ninguém, sobretudo um veterano de guerra, necessitando trabalhar. Seria preferível que lhe dissessem: “Não queremos ex-combatentes aqui!…” As protelações oneraram o ex-sargento com viagens dispendiosas à Foz do Iguaçu, sempre a chamado, por telegrama, pelo capitão da guarda; preenchidas todas as formalidades e habilitado nas provas que o submeteram, “inventaram”, como recurso final, um exame psicológico escabroso e fantasioso; falso, primaríssimo e infantil, sob todos os aspectos.

O ex-sargento foi trancado numa sala, por um tempo enorme, em companhia de uma senhora que se dizia psicóloga. E por mais de quatro horas a mulher passou a mostrar figurinhas embaralhadas ou embaços mal delineados, fazendo sempre a mesma pergunta: “Com que se parece isto…” O pseudo-exame resumiu-se apenas na apresentação de figurinhas. À tarde, o capitão avisou o ex-sargento: “O senhor pode viajar… Nós lhe comunicaremos o resultado, oportunamente…”

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A imponência dos tanques, da farda ficaram distantes, nos campos e vilas da Itália... O vazio e o descaso ocuparam o lugar sobre os ombros dos febianos

O ex-sargento ficou tão indignado, com a sujeira que o pessoal da Itaipu lhe aprontou, que, não sendo político, tomou uma decisão de aspecto político: viajar para o exterior, onde pudesse aperfeiçoar os seus conhecimentos em explosivos: “Vou dar a essa gente, a resposta que merece!” – disse, despedindo-se de um amigo. Habilidade e coragem, não lhe faltariam. Desfez-se do que possuía e viajou.

Em Belém, fez uma parada. Precisaria ganhar um pouco mais para prosseguir a viagem que arquitetara. Iniciou, modestamente, trabalhando como motorista de veículos de carga de uma empresa de importante grupo de estrangeiros. E veio o inesperado: em poucos meses, o ex-sargento destacou-se, passando a exercer, com extraordinária atividade, segurança e desembaraço.

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Enquanto que na Itália as familias italianas vibravam com nossos heróis que não só repeliam os alemães, mas ajudavam aos necessitados; no Brasil estes mesmo heróis foram tratados como loucos e inúteis.

Funções mais elevadas, que foram se escalonando até alcançar o cargo de procurador junto aos bancos, repartições públicas e órgãos do Poder Judiciário, representando ainda a empresa nas reuniões das associações empresariais, clube dos exportadores, sindicatos e toda uma gama de atribuições que exigem capacidade intelectual, equilíbrio emocional, raciocínio rápido e inteligência bem desenvolvida, além da indispensável honestidade.

Essas qualidades do ex-sargento, foram sempre reconhecidas e exaltadas pelos estrangeiros, donos da empresa. Progrediu tanto que esqueceu a necessidade de vingança. Mas, para ocupar um modesto empreguinho de auxiliar de segurança da Itaipu, onde tantos incompetentes, inúteis e safados gravitam; familiares dos diretores percebendo altos salários sem nada fazer, o ex-sargento veterano de guerra e conceituado procurador de empresa, não tinha condições psicológicas para trabalhar!

Continua: Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte V

Artigo composto de 7 partes:

Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte I
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte II
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte III
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte IV
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte V
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VI
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VII

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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3 comentários

  1. Estes brasileiros, que não louva seus verdadeiros herois, a honra conquistada em campo de batalha, são todos malditos. Os herois da FEB, que sacricaram sua juventude e suas vidas, travaram a maior batalha na sua própria terra e não na Itália. Enfrentaram aqui homens desonrados e covardes que não merecem nem o inferno para habitarem. Infelizmente somente agora a memória de meus queridos pracinhas esta sendo lembrada e louvada, depois de anos de uma guerra covarde que quase exterminou a tropa. O Brasil tem mais uma maculada, mas percebo que ela esta sendo combatida por gerreiros que louvam a bravura dos soldados do passado que demonstraram com sangue que o filho desta terra não foge a luta. Louvados sejam todos vocês que não deixa o cachimbo da cobra apagar. Obrigado.

  2. Álvaro Grego Junior

    Fiquei muito curioso acerca deste Ex-Sargento.
    Acontece que sou de Belém-PA e, se não estiver enganado, este importante grupo talvez seja de propriedade de família japonesa, muito importante e conhecida aqui em Belém.
    Meu avô (esse mesmo que já citei nos comentários dos outros capítulos dessa história), também trabalhou para esse grupo japonês e, talvez, possa ter conhecido esse senhor.
    Vou procurar com ele informações acerca desta pessoa.

    Álvaro Grego Junior

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