Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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Injustiças contra os Ex-combatentes da FEB – Parte III

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Recepção calorosa... apenas uma efêmera passagem, assim como os desfiles pelas avenidas...

Os pedidos de reforma dos incapacitados encalhavam nas repartições militares ano após ano. Na maioria das vezes a reforma era negada: consideravam-no capaz de prover sua subsistência. E em outros casos em que a reforma era concedida, o requerente já havia falecido na miséria extrema – na indigência. Foram-se muitos. Foram-se milhares. Calcula-se em mais de três mil os que morreram caídos nas calçadas, ruas, praças e terrenos baldios de todas as cidades do Brasil. Impossível seria citar tantas ocorrências, mas apanhando-se ao acaso uma notícia publicada em jornais e resumindo-se os fatos, por si só basta para substanciar esta vergonha nacional:

“Na cidade de Olímpia, no Estado de São Paulo, alguém encontrou, num terreno baldio, em adiantado estado de putrefação, o corpo de um indigente. Dentro de um saco plástico, o corpo baixou à sepultura nº 4 382, da quadra 19, destinada, exclusivamente, a indigentes. Na guia de sepultamento não constou nome nem outros dados que o identificassem, constando apenas a palavra brasileiro. Ser brasileiro era tudo que se sabia do infortunado cadáver. Meses depois a polícia encontrou os pertences do morto e os relacionou: Um saco de farrapos, dentro do qual, envolvidos em jornais velhos e amarrados com barbante, estavam as coisas que o identificavam:
1. Uma foto da pessoa em tela;
2. Uma foto da embarcação SS Mariposa;
3. Uma medalha de combatente da FEB;
4. Uma plaqueta de identificação de combatente da II Guerra Mundial;
5. Um emblema de condecoração;
6. Dois emblemas da FEB; e
7. Dois certificados de nº 08612 e 2916161…”

E o nome? Não! Respeitemos, pelo menos, o nome. Porque, para morrer assim, tão desgraçadamente, é preferível permanecer no anonimato. Foram-se muitos. Em condições semelhantes, morreram milhares. A maior incidência, desse tipo de óbitos, verificou-se nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre… Somente em Curitiba, onde os ex-combatentes tiveram acolhidos das melhores, foram sepultados cerca de duzentos. E, esclareça-se: duzentos identificados pelo secretário de assistência da Legião Paranaense do Expedicionário. Pode parecer estranho, mas o melhor período para os veteranos de guerra, quando encontraram maior facilidade de trabalho e leis de amparo mais efetivas e práticas, foi durante os governos civis de Nereu Ramos (embora de curto período), Juscelino e Jânio Quadros.

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Na guerra ainda havia momentos de descontração, ao retonar para a Pátria despreso e humilhações

E, o pior, quando as coisas mais sórdidas, infames e canalhas passaram a ser cometidas contra os veteranos de guerra, veio a partir de 1964, com os militares de “espada virgem” no poder. Com o advento dessa calamitosa situação que ai está, os órgãos públicos, as empresas de economia mista, as fundações e estatais, caíram nas mãos de militares que não participaram da guerra.

O simples fato de ser oficial da reserva e não veterano de guerra, passou o cidadão a ter direito – credenciais e habilitações – de ocupar altos cargos em entidades públicas, mesmo em se tratando de corruptos, ineptos ou meros aproveitadores, alguns até com registros negativos em fichas dos órgãos de informação do próprio governo. As delegacias dos Ministérios, nos Estados – do trabalho, da agricultura, da educação – várias delas, passaram a ser ocupadas por coronéis e generais, de” espada virgem”, como se fossem eles “técnicos” e “especialistas” em tudo, em todos os setores da inteligência humana, menos nas suas verdadeiras profissões, naquilo para que se prepararam: nas questões de guerra. E à proporção que o Brasil empobrece, o patrimônio dos patriotas cresce. É espantoso de onde saiu tanta gente para ocupar tantos e polpudos cargos? Consta que, somente na Petrobrás, têm milhares deles. Onde estavam esses favoritos e favorecidos filhos da Pátria, durante a guerra? Eram jovens, profissionais das armas, e sendo, como se dizem – patriotas – por que não foram à guerra?… O oficial da reserva é um cidadão como outro qualquer; tem todo o direito de competir aos cargos de função civil. De competir e não de açambarcar todas as posições, preterindo o direito dos que se prepararam nas faculdades; preterindo o direito de outras camadas sociais. Ora, justamente nas empresas do governo, nas quais as exigências de idade e outras são dispensadas, onde os veteranos de guerra poderiam ser aproveitados, tiveram (mesmo nas modestas funções) seus ingressos barrados por militares que não participaram da guerra e que, nessas empresas, ocupam altos cargos. E o pior são os métodos e meios infames engendrados para alijar as pretensões dos ex-combatentes, mesmo quando de comprovada competência e preenchendo os requisitos para a vaga existente: submetiam-nos a exames prolongados e cansativos, trancados em salas mal iluminadas, com psicólogos suspeitos e pré-orientados.

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O que deveria ser o simbolo de vitória e orgulho dos brasileiros tornou-se apenas mais um simbolo sem importância... Uma marca de um passado que já não interessava aos detentores do poder...

Infâmias e safadezas sem tamanho foram cometidas contra muitos veteranos de guerra, desorientando-os. Para agravar ainda mais a situação dos ex-combatentes, em 1967, um general-deputado, pretextando “regulamentar a situação dos ex-combatentes”, elaborou um projeto de lei que tomou o número 5 315/67, através da qual, num golpe de astúcia, considerou, os militares que permaneceram no Brasil, durante a guerra, como ex-combatentes!, com todos os direitos e vantagens, como se, efetivamente, tivessem ido à guerra. Uma coisa calamitosa, na velada intenção de desprestigiar, diminuir e achatar o mérito dos que se sacrificaram pela Pátria. O próprio autor da lei transformou-se, de um dia para o outro, em ex-combatente. E, seguindo-se à publicação da tal lei, bandos de reservistas que não foram ao Teatro de Operações na Itália, acorreram ás Instituições de Ex-Combatentes, pretendendo se filiar a elas, pois assim a lei os amparava. Um ato absurdo e altamente oneroso aos cofres do País, como se virá adiante. Se a Nação já não tinha condições de acomodar a situação de um punhado de sacrificados veteranos de guerra, que mereciam ser atendidos, como iria resolver os problemas dos cento e cinquenta mil que, de um momento para outro, passaram a existir?! Obra escabrosa de militar político.

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O que aconteceu aos nossos pracinhas: um capitão americano acompanha o soldado brasileiro Yacovo, o maior mutilado da FEB. Perdeu parte de uma perna, três dedos da mão direita e teve o corpo cheio de estilhaços. Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção.

Continua: Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte IV

Artigo composto de 7 partes:

Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte I
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte II
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte III
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte IV
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte V
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VI
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VII

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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5 comentários

  1. Leonice Pati gonzalez

    Muito interessante este assunto, principalmente para quem teve um pai que participou desta guerra. É saber um pouco mais da história de vida do meu querido e saudoso pai.
    Mas também gostaria de saber mais sobre ele. pois ele me contava que esteve na guerra e que levou tiro e queimadura. Como fiquei sabendo que todos os ex combatentes tem um dinheiro a receber, e se o mesmo não tiver os filhos teriam este direito. Como ter certeza ou como investigar. Por favor me ajude pois preciso muito deste dinheiro , pois estou com problemas sérios de saúde.
    Nome do meu pai Leonidio Pati .
    grata pela atenção.

  2. Álvaro Grego Junior

    Muito interessante a matéria.
    Tenho um avô que foi artilheiro da Força Aérea Brasileira, à bordo de um Consolidated PBY Catalina, que fazia patrulhamento da Costa do Pará, em busca de submarinos alemães.
    É certo que ele não esteve presente no Teatro de Batalha, pois a Guerra acabara poucos meses antes de seu embarque previsto. Porém, nem por isso ele recorreu à tal Lei e tampouco tirou vantagens financeiras de tal.
    Acredito que os que mais fizeram uso dessa Lei, foram aqueles que estavam em patentes mais altas. Soldados, Cabos e Sargentos, creio que poucos destes se beneficiaram dessa Lei.

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