Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
Home / Brasil / Injustiças contra os Ex-combatentes da FEB – Parte II
FEB logo - Injustiças contra os Ex-combatentes da FEB – Parte II

Injustiças contra os Ex-combatentes da FEB – Parte II

FEB-logoOs chamados praças (soldados, cabos e sargentos) foram, tremendamente, injustiçados, tanto na questão das condecorações quanto das promoções. O critério adotado para a concessão de condecorações aos praças, foi o mais falho e injusto que se possa imaginar: após cada combate, era atribuído um reduzido número de medalhas às unidades participantes. E a distribuição se fazia de acordo com o arbítrio dos comandantes de companhias e batalhões, sem sequer, muitas vezes, apurar e comprovar as ocorrências. Um processo era montado. Inventavam-se histórias, criavam-se circunstâncias e deturpavam-se os fatos, para que as condecorações fossem atribuídas conforme fora pré-estabelecido pelo comando, prevalecendo, não poucas vezes, a simpatia ou preferência pessoal.

Se, para o sacrificado combatente, a obtenção de condecorações era penosa, difícil e imprevisível, já, por outro lado, houve distribuição de medalhas de guerra a pessoas que nunca saíram do Brasil, dentre estas secretárias de autoridades, comerciantes, industriais e até os “testas-de-ferro” das negociatas realizadas por ocasião da compra e fornecimento de materiais ordinários à FEB, como se as atividades de relapsos e corruptos representassem “esforço de guerra”.

Independentemente de todas essas coisas absurdas e inacreditáveis, houve ainda fraude, desvios, má fé e deturpação até na moldagem e aquisição das medalhas. As condecorações da FEB foram criadas pelo Decreto-Lei nº 6 795, de 17 de agosto de 1944 e, regulamentadas pelo Decreto nº 16 821, de 12 de outubro do mesmo ano, o qual estabeleceu que a medalha “Cruz de Combate”, seria de prata dourada, ou seja, prata banhada a ouro. Do mesmo material seria a “Medalha de Guerra”. Ocorre que, por um incrível descaramento de quem as fabricou e de quem as adquiriu para a FEB, as condecorações conferidas aos veteranos de guerra foram moldadas em metal barato, latão, sem nenhum valor. Até nisto os expedicionários e o Brasil foram lesados.

med001a
Cruz de Combate - Nenhum valor comercial devida a canalhice do governo

Aqueles que, premidos pela necessidade, pretenderam trocar suas condecorações por uma hospedagem, por um prato de comida ou por uma simples média de café com pão, viram-se surpreendidos e decepcionados com a informação de que as suas medalhas douradas nada valiam! Assim, os praças foram logrados e espoliados quanto às condecorações. E mais logrados e espoliados foram naquilo que poderia proporcionar-lhes compensação pecuniária, pelos sacrifícios feitos, nas promoções.

Os regulamentos militares são extremamente parcimoniosos, sovinas e não poucas vezes mesquinhos, na questão de promoção dos praças. Um sem número de soldados, cabos e sargentos, destacaram-se na guerra, atuando, no front, em posições superiores; foram citados e condecorados, por ação em combate, entretanto, retornaram às suas casas na mesmíssima mixuruca posição que embarcaram para a Itália. Uma injustiça desanimadora.

São tantos e tantos os casos de sonegação de promoção dos praças, que nem comportaria citar nenhum nome, mas é impossível silenciar diante da incúria e da flagrante ofensa de direitos cometida contra o brioso e festejado herói da FEB – sargento Max Wolff Filho. O tempo todo Wolff exercera as funções de tenente (e, frise-se bem: de um tenente especial comandante de um pelotão especial, destinado às missões mais arriscadas e difíceis) e só o promoveram a 2ª tenente, após a sua morte, em ação. Se já exercia, de fato, as funções de tenente, a promoção que o País lhe devia e que ainda deve aos seus descendentes é, no mínimo, a de capitão. Incontáveis e gritantes foram as injustiças quanto ao direito de promoção dos praças.

sgt-max-wolff-filho
Sargento Max Wolff Filho - Um heróis injustiçado

O extraordinário soldado Wagner, várias vezes citado e condecorado, havendo substituído sargentos, em combate, promoveram-no, simplesmente, a cabo, no final da guerra. Wagner rejeitou as divisas, dizendo: “Não preciso disso”. Já os oficiais, todos eles, indistintamente, mesmo os que não participaram de operações no front, tiveram as promoções asseguradas, tanto os que continuaram nos quadros militares como os que foram transferidos para a reserva, receberam dois a três postos, imediatamente, superiores. Quem foi tenente, voltou major; quem foi major, voltou general. Raríssimas foram as promoções de praças. Quem foi soldado, voltou soldado; quem foi cabo, voltou cabo; quem foi sargento, voltou sargento. E assim foram transferidos para a reserva. Cometeu-se, com isto, uma violação dos direitos e dos méritos dos mais humildes, justamente os que mais lutaram; justamente os que mais se sacrificaram; justamente os que mais se expuseram nos combates!

feb_1
Lutaram pela pátria e por ela mesma foram rejeitados...

Como os ex-combatentes explicariam essa injusta posição aos seus familiares? Eram fatos inadmissíveis e inexplicáveis a lhes causar um mundo de embaraços e constrangimentos, ao retornar à sua terra. Nas cidades do interior eram vistos e seguidos por toda parte. Os antigos colegas, os parentes, os amigos e os conhecidos corriam alvoroçados, a cercá-los, onde quer que os encontrassem. E as conversas, as perguntas, eram sempre as mesmas, sobre os mesmos assuntos – assuntos que os enchiam de aborrecimentos e tristezas, os quais necessitavam esquecer. Haviam sido envergonhados muitas vezes e muitas vezes espoliados de direitos que supunham haver conquistado, mas não ousavam confessar. Daí a razão porque, muitos deles, não suportando aquela espécie de assédio, abandonaram suas famílias, suas cidades, passando a vagar de um canto a outro, na esperança de que em lugares estranhos encontrassem tranquilidade. Não demorou a que os óbitos de veteranos de guerra, em estado de indigência, começassem a aparecer.

Continua: Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte III

Artigo composto de 7 partes:

Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte I
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte II
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte III
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte IV
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte V
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VI
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VII

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

Veja Também

foto 3 - Georges Schteinberg - O Herói judeu da França Livre que viveu entre nós.

Georges Schteinberg – O Herói judeu da França Livre que viveu entre nós.

O Holocausto, a perseguição e o posterior assassinato sistemático e em escala industrial, perpetrado pelos …

11202873 455284331340213 6279428159685743052 n e1510068711717 - De Cangaceiro a Soldado da Borracha

De Cangaceiro a Soldado da Borracha

Muitos foram os brasileiros lutando pelo esforço de guerra durante a Segunda Guerra Mundial, mas …

Deixe sua Opinião (Facebook - Twitter - Google+)