Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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Injustiças contra os Ex-combatentes da FEB – Parte I

A recepção dos expedicionários, de volta ao Brasil, foi um acontecimento estrondoso, empolgante e colossal. Apoderou-se, irresistivelmente, das atenções de todos os brasileiros. Sobretudo, na cidade do Rio de Janeiro – então Capital da República -, onde essas coisas acontecem com maior entusiasmo e ênfase, a festa da chegada varou dias, bulindo com todo mundo e parecia não ter mais fim.

O retorno Festejado - Foto www.exercito.gov.br

O Exército, que permaneceu no Brasil, alinhou-se, formando cordões de isolamento, ao longo das avenidas, para conter o povo, em suas manifestações, diante dos heróis que desfilavam ao desembarcar. Através de todos os meios de comunicação da época, os feitos dos soldados brasileiros, em terras da Itália, eram descritos e exaltados.

Juntando-se a essas exaltações patrióticas, ainda sob o calor das recepções, começou a aparecer um amontoado de vantagens a serem atribuídas aos ex-combatentes: iam ter direito a coisas que jamais sonharam – aos melhores empregos e vida boa, tranquila. Todas as portas estariam abertas para eles… Mas tudo vago. Nada definido e claro.

Nem todos voltaram fazendo festa: um capitão americano acompanha o soldado brasileiro Yacovo, o maior mutilado da FEB. Perdeu parte de uma perna, três dedos da mão direita e teve o corpo cheio de estilhaços. Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção.

Promessas vãs, hipotéticas. E, não raro, meros engodos. Todos estes fatos – o estardalhaço das recepções e o anúncio das vantagens a serem concedidas – contribuíram para que fosse estabelecida uma ideia precipitada, momentânea e leviana, em torno dos feitos dos soldados e da importância da diminuta participação do Brasil, na guerra. Com isto, a maioria dos expedicionários, sobretudo os de espírito mais simples, convenceu-se, acreditando mais do que deveriam, em tudo que lhes acenavam e prometiam. Daí descuidarem-se da estabilidade do presente e da segurança do futuro, como se nada houvesse para se preocupar: eram heróis e estavam de retorno ao seio da Pátria.

Em contrapartida, em certas áreas, os ex-combatentes passaram a serem olhadas como superprivilegiados, criando-se, em torno deles, um clima de má vontade, precauções e até antipatias, pois no terreno das competições representariam uma ameaça, a preterir direitos e posições pretendidas ou conquistadas por outrem.

Agravando ainda mais a situação dos jovens que deveriam reingressar às atividades da paz, as autoridades civis e militares, incorreram em muitos descasos ou lapsos, altamente nocivos e lesivos aos interesses daqueles. Tanto assim é que não lhes concederam as férias (aliás, em dobro) a que teriam direito, antes da desmobilização; e, não procederam a um novo exame de saúde, também antes de desmobilizá-los.

Os nossos soldados foram irresponsavelmente abandonados à própria sorte... Foto www.exercito.gov.br

Se para serem mandados à guerra foram submetidos a rigorosos exames físicos, como nunca se vira, anteriormente, no Brasil, através dos quais só eram selecionados os de categoria especial, como e por que não os examinar de novo, no retorno?!

A guerra havia exigido daqueles rapazes despreparados e desinformados, sacrifícios enormes tanto de aspecto físico como emocional: foram atingidos por males e infecções; contraíram traumas e lesões os mais variados.

Passadas as festas da vitória, os expedicionários permaneceram uns poucos dias, retidos nos quartéis. E, de súbito, viram-se espremidos na parede, diante de uma instrução do então Ministério da Guerra: “Pede reengajamento agora ou será desmobilizado”. Uma resolução que não poderia ser tomada naquelas circunstâncias.

A Força Expedicionária, constituída, como fora, em sua imensa maioria, de convocados do interior, fácil seria deduzir que estavam todos ansiosos para retornar aos seus lares. E, da mesma forma, deveriam estar sendo aguardados, ansiosamente, pelos seus familiares. Além do mais, sentiam-se desiludidos e amargurados; na guerra, sofreram mais que quaisquer outros soldados; foram submetidos a vexames e decepções que os indignaram, refletindo, esse sentimento de indignação, contra o próprio Exército. Em tais condições, não se sentiam animados a continuar na farda. Tinham isto sim, muita pressa de retornar aos seus lares, rever a terra natal e a família. Estavam mortos de saudades de tantas, infinitas e pequeninas coisas, que só existem ou são melhores que em todos os outros locais do mundo, no torrão em que se nasceu. Queriam voltar para casa. E, como não lhes foram concedidas as férias, quando então teriam oportunidade de descansar e meditar sobre o que lhes convinha, permaneceram, indecisos, num curto período de ociosidade. A seguir, cumprindo-se a instrução do então Ministério da Guerra, deu-se a desmobilização em massa, de todos os expedicionários que deixaram de pedir reengajamento. A desmobilização atingiu não apenas os soldados, mas a quase totalidade dos graduados e dos oficiais de procedência civil.

Milhares de veteranos de guerra, muitos enfermos, com ferimentos ainda mal cicatrizados, incapacitados física ou mentalmente para exercer quaisquer atividades, desorientados, zonzos e aturdidos, portando mazelas e sequelas da guerra, viram-se, de um momento para outro, postos nas ruas, praças e estradas do Brasil. Em vez de serem tratados, instruídos e reabilitados, recebeu de supetão, a baixa. Até mesmo a passagem de regresso ao lar, deixou de ser fornecida a muitos deles.

Retornando da guerra, os pracinhas recebiam os cumprimentos da população brasileira. Brevemente seriam esquecidos, humilhados e tristemente abandonados à própria sorte. Foto escaneada do livro "Trinta Anos depois da Volta" - Octávio Costa

No lar, o ex-combatente sentiu-se deslocado e acanhado, como um estranho, entre os seus próprios familiares. Estes não estavam preparados para recebê-lo, sobretudo as famílias mais humildes e pobres. Perturbavam-no, bombardeando-o com tantas e estúpidas perguntas, boquiabertos e impertinentes, cheios de curiosidade: queriam saber tudo sobre a guerra; queriam saber tudo sobre o País estrangeiro, onde estivera; queriam saber por que embarcou como soldado e por que voltou como soldado; queriam saber se guerreou, se matou muita gente, se foi herói e por que não foi promovido nem trouxe medalhas? Enchiam-lhe os ouvidos de perguntas estonteantes, às quais não havia como explicar…

No final da guerra, muitos feridos foram transferidos dos hospitais da Itália para o Hospital Militar do Recife. Aí permaneceram algum tempo sem receberem as atenções e os tratamentos que necessitavam. Tão precária chegou a ser a situação deles, que insistiram em ter alta e serem mandados para casa. Daí a direção do hospital fez com que assinassem um termo de responsabilidade, pela atitude que haviam tomado. E os mandou embora. A concessão de condecorações dependia da conclusão de processo a tramitar na lenta burocracia militar. Quando, finalmente, a medalha era concedida, o agraciado já havia sido desmobilizado. E, embora os respectivos atos governamentais fossem publicados nos boletins das Armas e no DOU, nem sempre deles se tomava conhecimento. Quem lê DOU? Assim, até hoje, ainda permanecem retidas nas associações de ex-combatentes e no próprio Ministério do Exército, medalhas que jamais foram reclamadas ou chegaram às mãos dos agraciados – anônimos veteranos de guerra ou cadáveres deles.

Continua: Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte II

Artigo composto de 7 partes:

Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte I
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte II
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte III
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte IV
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte V
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VI
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VII

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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11 comentários

  1. Eu ja servi o Exercito Brasileiro e vi que la vc não tem o devido valor que um soldado merece fico chocado com a condição que nossos soldados da 2 guerra foram tratados é vergonhoso são HEROIS e arriscaram suas vidas pela Patria e depois chutados é lamentavel!

  2. Nada mudou…e pior, as forças estaduais (PM) cometem o mesmo erro hoje quando enviam militares para trabalhar na Força Nacional de Segurança Pública…quando retornam, ficam no prejuízo…porque temos sempre que aprender as coisas erradas…nada mudou

  3. Interessante e instrutivo artigo. Nosso país não sabe – e nunca soube – tratar com dignidade os seus heróis.

  4. E revoltante o que foi feito a esses homens, esses heróis que renunciaram a tudo para Evitar que a guerra escolhesse como palco as terras do nosso Brasil, verdadeiros heróis, homes dignos das mais altas condecorações, soldados valiosos hoje tão pouco lembrados.

  5. CANDIDO ARTHUR MELLO

    POLITICO CORRUPTOS; Criem vergonha na Cara, e paguem decentemente teus filhos que se sacrificaram na luta pelo teu País e deixaram Viuvas. Filhos e Netos a própria sorte, deixem de criar leis fajutas e demagogas e paguem pelo menos os direitos reais destes Bravos Guerreiros. Os Corruptos. só comem e não pagam ninguém. Mais DEUS está assistindo a esta VERGONHA toda que um dia vocês governantes, irão pagar.
    Meu tio, GASPAR FRANÇA, FOI TIRADO DOS CORREIOS PARA SERVIR A ESTE PAÍS,
    até hoje, a minha tia não recebeu o dinheiro da receita federal pela isenção de pagamento.
    Até plano de saúde, foi tirado de seus dependentes. V E R G O N H O S O .

  6. Boa tarde! adorei o texto sobre os Ex-combatentes. Este foi o meu tema de TCC no Curso de História pela qual me formei.
    Acrescento ainda que a Força Expedicionária Brasileira foi extinta alguns meses depois do final da Segunda Guerra, início de 1946, aos poucos…primeiro a Infantaria, depois outros comandos….abandonando-os a prória sorte, como disse o autor.
    Pude fazer uma entrevista com um deles, estava com 89 anos na época, ele voltou a cidade natal, tinha 22 anos, e seu antigo emprego o ajustou novamente. Ele se aposentou neste emprego e somente em 1986 recebeu uma aposentadoria do então governo, pelos serviços prestados ao país.
    Tem muita história suja e triste, até mesmo com os oficiais do maior escalão da FEB e FAB.
    Gostaria de deixar aqui uma reflexão: o Presidente do Brasil era Getúlio Vargas, (um fascista reprimido), tem momentos que é preciso analisar os fatos históricos com olhos de lince, este senhor não foi tudo aquilo que se fala até hoje!
    Abraços a todos.

  7. Um país que sempre esquece seus verdadeiros heróis.

    Infelizmente isso não aconteceu só no Brasil, os regimes totalitários nunca querem que seus soldados recebam as glórias pelas suas vitórias, a glória é do regime. Isso foi o que o governo Vargas fez com os pracinhas e o que Stalin fez com muitos de seus comandantes mais Famosos ( Jukov é um exemplo).

    O Soldado que luta por sua pátria deve receber todo o cuidado do estado, a nação precisa conservar a memória de quem da a vida por ela.

  8. Matéria interessantíssima, contudo, senti falta das fontes. De onde foram extraídas tais informações? Relatos orais?

    Agradeço a atenção!

  9. r. a. rocha martinez fernandez R

    Francamente, isto deixa os brasileiros sensíveis, com vergonha dos nossos dirigentes. Meu pai combateu na guerra da Espanha, infelizmente ao lado do ditador Franco, que
    segundo ele não gostava e, preferiria que o outro lado ganhasse. Mas, até hoje os seus patrícios o respeitam como herói de guerra. Tem 93 anos e conta as aventuras da guerra com uma nitidez, como se estivesse vendo um filme atual. Agora vejam bem’
    lutou do lado errado, mas tem os benefícios do país, inclusive aposentadoria, que não é contestada por ninguém. As diversas pátrias, União Soviética, Rússia, ou como queiram denominar, Inglaterra, Estados Unidos, França e outros países que participaram da guerra, respeitaram e respeitam os seus heróis, concedendo-lhes as devidas honrarias. Afinal, as novas geraçãoes sempre terão espelho em que se mirar
    e orgulharem-se do seu passado. Enquanto isto, aquí no Brasil os expedicionários foram relegados ao ostra. É uma vergonha…

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