Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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FEB – Um Dia com o Esquadrão de Reconhecimento

*Por Joel Silveira

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Corpo Expedicionário 1

Até poucos dias, era neve, neve branca e espessa, Agora é lama preta e mole. Amanhã, quando surgir o primeiro sol da primavera, será a poeira. Assim vivem, nesta guerra, os caminhos que serpenteiam através dos Apeninos.

O pracinha que me leva no jipe até o Esquadrão de Reconhecimento, na manhã nublada, agarra-se ao volante como se estivesse lutando corpo a corpo com um inimigo mais forte. O carro dá pinotes, as rodas chapinham na lama, espremem-se nas curvas estreitas, perde aqui e ali o rumo certo, como um animal cego.

Quando chegamos no “PC” do Esquadrão, somos dois fantasmas escuros. O primeiro-tenente Solon Rodrigues D’Avila me consegue um pouco de água quente e o sargento me entrega uma toalha estadunidense. Mas não será hoje nem amanhã, tenho certeza, que conseguirei desgrudar de mim a lama que trouxe dos caminhos encharcados.

Eu havia prometido ao capitão Plínio Pitalluga – ele foi promovido recentemente – uma visita ao seu Esquadrão, mas não venho encontrá-lo. O 1º tenente Teodolfo Benso Tavolucci, subcomandante da unidade, me informa que o capitão foi gozar em Roma umas curtíssimas férias de quatro dias, e que só estará de volta amanhã à tarde. Mas está às minhas ordens. Quero um pouco da história do Esquadrão e um resumo de suas atividades, explico, e o tenente Tavolucci me diz: – Vou mandar chamar nosso fichário. O “fichário” é o segundo-tenente Odenath Damásio, de Santos, São Paulo, Secretário do Esquadrão. “este homem sabe tudo a nosso respeito”. E eis aqui os dados que o “fichário” me ofereceu:

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Corpo Expedicionário 4

O Esquadrão de Reconhecimento da 1ª DE foi criado no dia 2 de fevereiro de 1945. Antes ele já existia, no Brasil, mas não com vida autônoma. Era uma unidade do 2º Regimento Moto-Mecanizado, sediado em Porto Alegre. A incorporação do Esquadrão à Primeira Divisão Expedicionária se deu no dia 9 de fevereiro do ano passado. Embarcou no primeiro escalão e chegou a Nápoles no dia 15 de julho de 1944. No dia 30 seguiu para Tarquínia, e no dia 18 de agosto transportou-se para Vada. Em setembro do ano passado o Esquadrão estava em Pisa, em cuja frente de batalha iniciou suas atividades.

O batismo de fogo do Esquadrão teve lugar no dia 16 de setembro do ano passado. A unidade foi, naquele dia, dividida em duas patrulhas, uma comandada pelo 1º tenente Belarmino Jaime de Mendonça e a outra pelo segundo-tenente Odenath Damásio, o “fichário” que me entrega estes dados. A patrulha do tenente Damásio foi incumbida de reconhecer a frente brasileira, situada no eixo Ponte S. Pietro, S. Macario in Piano e S. Macario in Monte. E as ordens para o tenente Belarmino consistiram em reconhecer a zona compreendida entre Chiesa, Massarosa, Pieve, Monte Manho, operação esta que foi realizada debaixo de um intenso fogo de morteiros nazistas.

Pelo que ficou aí em cima, o leitor terá mais ou menos uma idéia do que seja a função de um Esquadrão de Reconhecimento: cabe aos seus homens tatear e vasculhar os terrenos que o inimigo vai deixando no seu recuo. Isto significa dizer que o Esquadrão de Reconhecimento é a primeira unidade de um Exército a pisar numa área recém-conquistada. Seus homens não são soldados das calmarias e pasmaceiras que, como esta de agora, costumam cair sobre o “front”. São homens das ofensivas e dos ataques. Eles ficam de “reserva” quando a frente está calma, e a “reserva” consiste, como dizemos, em carregar pedra: exercícios de artilharia e morteiros todos os dias, lições de patrulha, etc.

O Esquadrão de Reconhecimento brasileiro já tem a seu favor algumas proezas de vulto. Foi ele, por exemplo, quem primeiro entrou em Massarosa, quando do avanço do capitão Airosa sobre Camaiore. Foi ele também quem ocupou Gaggio Montano, no dia 20 de novembro do ano passado. Poderíamos citar também perto de uma dúzia de “retomadas de contato”, uma das tarefas mais perigosas desta guerra. O trabalho tem sido duro, mas a estrela do Esquadrão é muito boa, me diz o primeiro-tenente Tavolucci, até hoje a unidade só perdeu um homem, o segundo-tenente Amaro Felicíssimo da Silva, do Distrito Federal, que foi morto pelos nazistas no dia 20 de novembro último, quando comandava uma patrulha. Os feridos também têm sido poucos: o primeiro-tenente Braz Teixeira Filho, do Rio, que foi atingido na perna por um estilhaço, e que já se encontra de volta depois de alguns dias de hospital. O tenente Braz foi ferido quando tentava socorrer, no dia 5 de dezembro último, na frente do 11º Regimento de Infantaria, o 2º sargento Erasmo Aquino de Oliveira, atingido pelo fogo  de morteiros dos nazistas. Um dos pelotões do Esquadrão já foi comandado pelo capitão Belarmino Jaime Ribeiro Mendonça, que dirigiu o ataque a Massarosa, e que, vítima de um acidente, foi evacuado para o Brasil. E o primeiro comandante da unidade foi o capitão Franco Ferreira, um bom soldado que deixou gratas recordações entre seus subalternos e que hoje também se encontra no Brasil.

MORTOS DO 1º ESQUADRÃO DE RECONHECIMENTO NA ITÁLIA

sgtkrinski2º Sargento PEDRO KRINSKI –
1º ESCALÃO

Falecido em 24 de Setembro de 1944 –
Vítima de Estilhaço de uma Granada –
REGIÃO DE CAMAIOR

cbbenedito Cabo BENEDITIO ALVES –
1º ESCALÃO

Falecido em 17 de Novembro de 1944;
VÍTIMA DE ACIDENTE COM ARMA DE FOGO.
REGIÃO DE CASA FRANCO – ITÁLIA

tenamaro 2º Tenente AMARO FELICÍSSIMO DA SILVEIRA –
2º ESCALÃO

Morto em Combate em 20 de Novembro de 1944 –
REGIÃO DE MONTILLOCO (GAGGIO MONTAN)

soldadobelarmindo Soldado BERNADINO DA SILVA –
2º ESCALÃO

Morto em Combate em 22 de Abril de 1945 –
REGIÃO DE GRANALI (PANARO)

O atual comandante do Esquadrão é o meu amigo capitão Plínio Pitalluga, “o idealista”, como o chamam aqui. O tenente Tavolucci, de São Paulo, é o subcomandante, e há também ainda os seguintes oficiais: primeiro-tenente Braz Teixeira Filho, comandante de pelotão; primeiro-tenente Solon Rodrigues D’Avila, do Rio Grande do Sul, Oficial das Transmissões; primeiro-tenente Sílvio da Costa Reis, do Distrito Federal segundo-tenente Mário Ernesto de Souza Júnior, também do Rio, tesoureiro, aprovisionador e almoxarife; segundo-tenente Heitor de Carvalho França, do Rio, comandante de pelotão, o nosso já conhecido segundo-tenente Damásio, “o fichário”, e o tenente-médico Rubens de Aquino. A maioria dos homens do Esquadrão é composta de cariocas, pois a unidade foi organizada no Rio. Mas há também gaúchos, paulistas, paranaenses e pernambucanos. Há também um sergipano de São Cristóvão, e quero realçar aqui a onipresença sergipana na Força Expedicionária Brasileira.

O armamento do Esquadrão é composto de carros blindados armados de canhões e metralhadoras muito potentes, morteiros e armas individuais. Um detalhe: cada carro blindado – não confundir com tanques – dispõe de um excelente rádio, o que vale dizer que o “PC” do Esquadrão, em matéria de música e noticiário, é o melhor servido de toda a FEB. Finalmente, o Esquadrão de Reconhecimento é, na frente brasileira, a única tropa de cavalaria organizada. “Representamos a imortal cavalaria de Osório e de Andrade Neves”, como me disse o tenente Tavolucci.

Imagens do 1° Esquadrão de Reconhecimento

Sd BERNADINO DA SILVA (2º ESCALÃO)
FALECIDO EM 22 ABR 1945 – REGIÃO DE GRANALI (PANARO)

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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2 comentários

  1. ERASMO AQUINO DE OLIVEIRA JUNIOR

    Sou filho do 2º Sgt Erasmo Aquino de Oliveira, e gostaria de obter mais comentário a respeito daquele momento no qual meu pai foi ferido em combate.
    Exemplo:
    “Os feridos também têm sido poucos: o primeiro-tenente Braz Teixeira Filho, do Rio, que foi atingido na perna por um estilhaço, e que já se encontra de volta depois de alguns dias de hospital. O tenente Braz foi ferido quando tentava socorrer, no dia 5 de dezembro último, na frente do 11º Regimento de Infantaria, o 2º sargento Erasmo Aquino de Oliveira, atingido pelo fogo de morteiros dos nazistas”.
    Ass: Erasmo Aquino de Oliveira Junior.

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