Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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FEB – Palavras de um Correspondente de Guerra

Palavras do Correspondente de Guerra Joel Silveira

Netuno no Transporte de Guerra

Qualquer correspondente de guerra, além da monotonia rotineira, encontrará aqui a bordo um problema de difícil solução: lugar para escrever. Impossível ficar no camarote onde 17 pessoas se acumulam e se permutam em jogos, discussões e recordações da vida profissional. O calor lá embaixo e a proibição de ficar no convés depois das nove horas, transforma as cadeiras acolchoadas do salão dos oficiais em lugares disputadíssimos. Ando com minha máquina de um lado para outro, vou até o convés de cima, onde é possível, enquanto existe sombra, escrever com a Underwood sobre as pernas, mas de repente a ventania torna impossível qualquer movimento.

Aproveito uma trégua no 107 para bater ,estas linhas. Mas o calor me encharca, e pela primeira vez em minha vida sinto que o jornalismo pode se transformar num trabalho físico dos mais cansativos.

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Cerimônia de batismo, realizada pelo "padre" na presença de Netuno, o Rei dos Mares.

À noite, quando me estiro na estreita cama do beliche 146, é impossível destilar e selecionar as centenas de conversas que escutei durante o dia: pracinhas me perguntam se é possível mandar notícias urgentes aos seus, e um deles me entrega, já pronto, um telegrama que deseja mandar à sua mãe, no interior de Minas; os oficiais me convidam para visitar seus alojamentos, e amanhã terei que enfrentar, na hora do almoço para o que estão de serviço, o incrível calor (38 ou 39 graus, à sombra) do refeitório dos praças – é um convite antigo que vou deixando passar, mas que não pode ser mais adiado. Há também que ficar atento às ordens e avisos dos amplificadores; que não sofrem um único intervalo das sete da manhã às 10 da noite.

Hoje, novamente, no princípio da tarde, as “pom-pom” voltaram a gaguejar. O alvo desta vez foi lançado ao ar por um dos aviões do cruzador norte americano que nos acompanha, um pequeno aparelho cinzento, que foi lançado de sua catapulta. E, mais tarde, quando uma amostra de sono já me enrolava o corpo, os 105 recomeçaram a atirar.

Havíamos passado há horas a ilha de Fernando Noronha, e o ribombar saudava agora a chegada a bordo do Imperador Netuno, que nos visitará amanhã, quando da passagem da linha do Equador. “Regionais”, coros e instrumentalistas, além do cerimonial de praxe, se preparam para o clássico festejo. Fantasias, barcas e toucas brancas são distribuídas entre oficiais e praças, e à tarde houve um ensaio geral.

Sou informado de que o coronel Arquiminio, veterano no cruzamento da linha equatorial, será o Netuno todo-poderoso de amanhã, e no começo da noite encontro-o no deck central a experimentar sua fantasia e suas barbas. Hoje, a ilha Fernando Noronha nos surgiu, apenas como uma mancha cinzenta claro na linha do horizonte, e muitas lembranças me assaltam. Lembranças de amigos, de fatos, de coisas que parecem de ontem.

Relembrar fatos e pessoas é coisas que podemos fazer aqui, durante horas, estirados no convés ou afundados numa poltrona do salão, ou mesmo estirados nos ardentes beliches. Armo-me também, do meu safa-onça, e escondido em qualquer canto do navio, começo a decorar frases e palavras em italiano que me permitam perguntar ou pedir coisas nos lugares para onde vou. O mormaço equatorial toma conta de todos nós: os marinheiros estadunidenses se estendem, vermelhos e úmidos de suor, no tombadilho largo.

O suor atravessa os uniformes dos pracinhas, e chega a empapar seus próprios salva-vidas azuis. E o meu amigo Major Henrique Oest, com seu fardamento alagado parece ter saído de um chuveiro. É uma das boas palestras de bordo, com sua coragem bem humorada e seus sólidos pontos de vista antifascistas. Para ele, essa viagem ao campo de luta representa muita coisa. Representa, particularmente, um desfecho digno e magnífico para uma existência de convicções democráticas. Ele me leva ao seu camarote, me enche de revistas técnicas, e passamos longas horas do dia a falar de assuntos e amigos comuns que ficaram no Brasil. E aqui podemos falar da guerra. Não é um assunto de todas as horas a bordo.

Os pracinhas cantam emboladas, suam e dormem. Os oficiais fazem planos para o futuro, e recordam o que deixaram em suas casas e seus quartéis, como se estivessem se referindo a um passo muito distante.

O Major Oest é um apaixonado da guerra antifascista. Todos os dias ele consulta seus mapas, ouve com atenção o minguado noticiário telegráfico que nos dão todas as tardes, protestando sempre quando o speaker militar esquece qualquer informação sobre o avanço das decisões soviéticas ou as manobras de Patton.

Ontem à noite cruzamos a linha do Equador. Em qualquer transatlântico civil e luxuoso, o fato seria motivo para uma esplendente festa noturna, com champagne, casacas e senhoras bastante linda, como a gente vê nos filmes. Nossas noites porém são noites de guerra, e dentro delas a escuridão representa uma arma tão potente quanto à “pom-pom”, os aviões e os 105.

As festividades de Netuno, portanto, foram todas adiadas para hoje, e pela manhã já houve um show para os oficiais no deck central, uma espécie de hora do calouro, com distribuição de prêmios, sabonetes e talco, seguida de um filme colorido de Betty Grabble e de um jornal cívico do DIP. Não preciso dizer que Miss Grabble com suas formas de torta de chocolate, deixou a melhor impressão entre todos, manifestada por silvos e gritos, como é possível presenciar nos cinemas de Cascadura.

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Generais Mascarenhas de Moraes e Zenóbio da Costa posam cercados dos oficiais da FAB e pracinhas

À  tarde, com o tempo ameaçando chuva grossa (uma nuvem cinzenta e pesada, na linha do horizonte, crescia de minuto a minuto) Netuno foi recebido a bordo. Um dos coronéis do navio desempenhou o papel de monarca, que apareceu no tombadilho da proa acompanhado de todo o seu séquito: a rainha, prepostos, executor-mor, padres, advogados e promotores. Quatorze homens, entre praças e oficiais, foi escolhido para responderem a júri, por crimes praticados durante a viagem e entre os mesmos se encontrava esse correspondente. Acusavam-me de, com a bisbilhotice profissional, andar por lugares proibidos do navio, mexendo aqui e ali, abrindo portas interditadas por avisos categóricos e de ter sido apanhado por um PM, certo tarde na sala de máquinas. Sentença: corte de uma mecha de cabelo, tinta de escrever na testa, goma grossa nos cabelos, além de um banho de água fria sobre o uniforme de campanha. O Coronel Batista, um major, três capitães, tenentes, sargentos e praças foram outros acusados e justiçados. O Capitão Praxedes (ele me conta que é amigo do Isaias do Diário da Noite), sofreu algo que naturalmente lhe deixou com o moral meio abatido: rasparam-lhe o bigode, um bigode de quinze anos de existência, conforme ele declarou diante dos inquisidores.

A certa hora porém, parece que Netuno, mas o Netuno propriamente dito, resolveu vir em pessoa à festa de bordo: o trovão ribombou no céu escuro, como o ronco dos 105, as águas se encresparam, a chuva caiu forte sobre réus e juízes, e o transporte começou a balançar como uma jangada cearense. Ouve uma debandada geral, e um coletivo escorregar nas chapas de ferro molhadas e besuntadas de goma. Volto para o meu camarote envolvido num cheiro acre, e dentro de minutos estou no banheiro dos oficiais, a lavar o grosso Zé Carioca – Zé Carioca é o nome que puseram no uniforme de campanha.

No começo da noite, um navio foi avistado longe e o cruzador lançou-se rápido ao seu encontro. A ordem de combate espalhou-se por todos os navios, mas se trata apenas de um mercante grego, que descia do Norte. Ele desce e nós subimos. Um homem da tripulação estadunidense me garantiu hoje que não chegaremos a Gibraltar antes de quatro ou cinco dias. Olho o mar na distancia, mas o mar não tem fim: azul, verde ou escuro, ele segue sempre, sem principio nem fim.

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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