Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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FEB – O Serviço Especial

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Uma das novidades na organização do moderno exército estadunidense foi o Serviço Especial, incumbido de proporcionar diversões, alegria e bom humor aos soldados. A FEB adotou a inovação e criou também seu Serviço Especial, que foi chefiado pelo Major Reinaldo Ramos Saldanha da Gama, auxiliado pelos Capitães Alcides Boiteux Piaza e Álvaro de La Roque Couto.

O Serviço Especial da FEB teve as seguintes missões:

  • Organizar espetáculos, para divertimento da tropa;
  • Distribuir presentes, brindes, objetos de toilete, etc., que vinham do Brasil ou eram fornecidos pelos estadunidenses;
  • Cooperar com o Serviço de Assistência Religiosa, no conforto moral e material dos soldados baixados aos hospitais;
  • Publicar órgãos de divulgação cultural e noticiosa;
  • Dirigir o Hotel de Praças de Florence, etc.

Dois jornais foram publicados pelo Serviço Especial, o “Zé Carioca” e “O Cruzeiro do Sul”, com a colaboração do pessoal das unidades e noticiário telegráfico e radiofônico.

Com elementos “descobertos” na tropa, cantores, músicos, contadores de anedotas, acrobatas, etc., organizavam seus shows.

A Banda de Música do 1º RI, que ficou anexada ao Quartel General Recuado, fornecia os conjuntos de “jazz-band”, que abrilhantavam os espetáculos. O Hotel das Praças em Florença, além da hospedagem proporcionava aos pracinhas diversões, excursões, etc.

Grande animador dos “shows” era o conhecido acrobata, Adio Novak, convocado no posto de Sargento. Novak pertencera ao elenco do Cassino da Urca e estava bem familiarizado com o palco. Além de seu excelente número de acrobacias, ginástica e poses plásticas, ele era uma espécie de diretor de cena, “speaker” e organizador de programas.

Com os aparelhos e filmes sonoros fornecidos pelo V Exército, o Serviço Especial dava freqüentes sessões nas sedes das unidades e Quartéis Generais.

A Banda de Música, regida pelo Maestro Tenente Franklin de Carvalho Júnior, era a alma das diversões. Através de seu repertório de peças brasileiras, mitigávamos as saudades da Pátria. Poucos imaginavam que a Banda representasse tão importante papel, junto a uma tropa em guerra. Houve mesmo oficiais que reprovassem sua inclusão na Força Expedicionária, achando ser ela um órgão supérfluo. A verdade porém, é que a Banda foi de um valor inestimável na vida dos acampamentos e dos quartéis, dando a nota ao mesmo tempo marcial e pitoresca nas formaturas, nas recepções das altas autoridades brasileiras e aliadas. Era necessária a música nacional, que para a tropa tinha uma significação toda peculiar.

Longe do Brasil como estavam, num ambiente estranho que os absorvia, falando e ouvindo inglês e italiano, usando alimentação e peças de fardamento estadunidense, a música brasileira era como que a voz da Pátria a reuni-los, num toque de brasilidade a exaltar o sentimento de nacionalismo. Uma das músicas prediletas da coleção do Mestre Franklin era a “Cidade Maravilhosa”. Quando suas notas ritmadas e alegres soavam no ar fino das montanhas, ecoando pelas encostas, os soldados snetiam transportados nas ondas sonoras, para muito longe e o pensamento vagava pelas praias e morros do Rio de Janeiro, como se estivessem apreciando, do alto do Corcovado, os “encantos mil do coração do meu Brasil”. Após uma tocata se sentiam reanimados e confiantes. Nada pagaria aqueles momentos de puro prazer espiritual que a música os proporcionava.

É claro que a Banda enriqueceu o repertório com algumas peças italianas, especialmente “Firenze sogna”, a internacional “Lili Marlene” etc. Surgiram também os compositores, tais como o Sargento Antonio Gomes, apelidado “Caroço”, que baseado no “leit-motiv” das queixas dos italianos, compôs a interessante marchinha “Tedeschi hanno portato via”.

Além das tocatas oficiais, organizadas pelo Serviço Especial, os músicos faziam suas reuniões particulares, em festas que se arranjavam nas casas de famílias conhecidas. Mas tudo isso não deixava de ser um prolongamento do Serviço Especial, embora clandestino.

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Banda de Música da Companhia do Quartel General em Alessandria

Um aspecto importante da presença de uma Banda brasileira na Itália foi a propaganda cultural de nosso país, na terra da música. Em muitas cidades houve concertos públicos, em que eram executadas, além das peças populares, trechos de óperas de compositores nossos, especialmente Carlos Gomes, muito aplaudidos pelos italianos. E tínhamos orgulho de explicar-lhes que se tratava de autor “brasiliano” que havia estreado suas óperas no Scala de Milão. Eles ficavam sabendo que afinal das contas “questi brasiliani” não eram tão selvagens assim. Por várias vezes correu o boato de que iriam artistas de nosso teatro fazer excursões pelo “front”, para alegrar os pracinhas. Se isso tivesse acontecido seria um grande sucesso e uma enorme alegria para eles.

Um bom “show” tem um efeito moral extraordinário numa tropa em guerra. Descansa o espírito, suprime a tensão nervosa e ao mesmo tempo, desperta novo ânimo, deixa entrever as belezas da vida, pelas quais devem lutar. São na paz que se cultivam as artes, mas é preciso ganhar a guerra, para desfrutarmos as delícias da paz. É justamente esse o fundamento psicológico do Serviço Especial. “Nem só de pão vive o homem”.

O Serviço Especial, além de contribuir para manter o equilíbrio mental dos soldados, foi um importante fator de estímulo de suas qualidades guerreiras. Os dirigentes do Serviço Especial lutaram bastante com a escassez de recursos para o desempenho de sua missão, que exigia grande riqueza de pessoal e material. A FEB estava muito espalhada no território italiano e em cada lugar de estacionamento ou concentração de soldados havia necessidade de um passatempo, de uma distração para amenizar as agruras da campanha. Em Florença, Stafoli, Pistóia, Montecatini, Livorno, Pávana, Porreta, nas sedes dos Regimentos de Infantaria e dos Grupos de Artilharia, nos diversos hospitais, em todos esses lugares o Serviço Especial era reclamado. Seu pessoal se desdobrava, se locomovia daqui para ali, num esforço para contentar a todos, conseguindo um resultado bem compensador, que seria mais perfeito se contasse com maior fartura de meios. Como síntese da atuação do Serviço Especial, pode ser observado o elogio que o General Mascarenhas de Moraes lhe fez no Boletim Interno de 1º de maio de 1945:

À tropa brasileira não tem faltado meios que lhe permitam amenizar as durezas da guerra. Os bem organizados hotéis de repouso em Florença, dotados de conforto que faz esquecer os dias das más instalações da frente; os já indispensáveis “Cruzeiro do Sul” e “Zé Carioca”, interessando vivamente todos os componentes da FEB e a eles entregues com regularidade e presteza; a distribuição de artigos úteis, cigarros, agasalhos e presentes vários, até aos soldados dos escalões mais avançados; o funcionamento de conjuntos musicais em várias partes do setor da Divisão; a exibição de fitas cinematográficas em locais onde podem ser vistas pela tropa; a visita aos doentes e feridos nos hospitais; tudo isso executado com a alta compreensão da resultante de tais atos, trás reflexos sensíveis na conservação do valor combativo de nossa gente. Os resultados da atuação do Serviço são verificados.

O homem que termina um período de repouso, volta alegre para a continuação de sua honrosa tarefa em qualquer parte. Aquele que lê um dos nossos jornais, fica sabendo que seu esforço é bem compreendido por todo mundo e principalmente pelos Brasileiros e que o inimigo está sendo derrotado onde apareça. O que recebe um presente que lhe enviam do Brasil, volve para nossa terra querida o pensamento de saudade e cria ânimo para a continuação da luta que apressa a vitória. O Serviço Especial, confortando o físico e o espírito, pelo conjunto de suas atividades, é fator importante na guerra e faz jus ao conceito de órgão útil e auxiliar valioso da eficiência da tropa. Os agradecimentos do Comando e de toda a FEB pela sua atuação.

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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