Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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FEB – O Inverno

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Oficiais da FEB na neve, com seus casacos brancos: no centro o Gen. Cordeiro de Farias, tendo à sua esquerda o Cel. Emílio Ribas e à direita o Ten. Cel. Miranda Correia, na frente de Porreta.

O calendário diz que o inverno no hemisfério norte principia a 22 de dezembro. Não se sabe se em todos os anos é assim mas, em 1944, na tarde de 22 de dezembro, um vento norte, gelado, fez cair bruscamente a temperatura. O céu adquiriu uma tonalidade cinzento-azulada, para o lado das montanhas, cujos picos se cobriram de branco.

Sentia-se nitidamente a mudança de estação e a natureza foi de uma rigorosa pontualidade. No dia seguinte caiu a primeira neve em Pistóia. Uma neve fininha, em flocos leves, que esvoaçavam no ar e lentamente pousavam sobre as árvores, as casas, no chão, tornando tudo de uma brancura virginal. Aquilo para os brasileiros era um espetáculo inédito e admirável. Os soldados esqueciam do frio – que aliás diminui quando neva – e saiam pelas ruas, para ver e sentir a neve, estendendo as mãos para apanhá-la. Ali estava a neve, cristalizando em sua alvura imaculada o frio que nos acompanharia por três meses. Os arbustos recobertos de neve adquiriam uma extraordinária beleza. Na estrada de Porreta havia diversas cascatas geladas, que o frio transformara em estalactites de gelo, de um efeito maravilhoso.

Era véspera do Natal e eles compreendiam então a tradicional árvore, enfeitada de flocos de algodão e o Papai Noel todo agasalhado. Tradições que a velha Europa legou aos brasileiros que não conheciam aquele manto branco com que a Natureza se cobre em seu sono hibernal. Os soldados iam ver de perto o inverno europeu, ainda mais em zona montanhosa e, ainda mais, em guerra. Juntavam-se todos os fatores contra eles, como que para provar ao máximo a fibra desses soldados.

Os homens brasileiros estavam preparados para enfrentar o frio. As roupas de lã saíram do saco C. As peças de brim foram recolhidas. Meias, camisas, ceroulas, “sweters”, blusas, luvas, gorros, carapuças, tudo de lã. Todos engrossaram e ficaram parecidos com aquele boneco do reclame do Michelim. Da simples blusa de brim do “Zé Carioca”, passaram a vestir pelo menos cinco peças – uma camisa de brim, por baixo, uma de lã, um ou dois “pullovers”, a blusa de lã e a japona ou o capote. Era uma verdadeira cebola, com várias cascas. Nos pés, dois pares de meias, a botina e o galochão de borracha.

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Sapadores em ação em pleno inverno.

Assim o pracinha fez uma descoberta de higiene militar. Ele descobriu que o pé de trincheira é conseqüência do frio mais a pressão das botinas, que se tornam apertadas pelo uso de vários pares de meias. Ora, como o galochão era uma excelente botina, inteiramente impermeável, o pracinha suprimiu o calçado de couro, acolchoando o galochão com papel, capim, feno, etc. Seus pés ficaram agasalhados pelas meias e pelo acolchoado, quentes e livres, com boa circulação, dentro do galochão que isolava o frio e a umidade. Graças a esse simples e econômico expediente, as tropas da FEB tiveram um reduzido número de casos de pé de trincheira, muito menor do que as tropas estadunidenses, embora estas fossem mais aclimatadas ao frio.

Além dos agasalhos de uso pessoal, foram distribuídas estufas de metal, portáteis, aquecidas a carvão ou lenha. Havia também estufas a óleo, que eram as melhores, porém reservadas para hospitais, quartéis generais e organizações mais importantes. Com os ambientes internos aquecidos se neutraliza qualquer frio. Ao sair para o exterior, estando eles bem protegidos pelas peças de lã, com a reserva de calor que se trás e mais as calorias geradas pelo exercício, suportava-se o rigor das temperaturas abaixo de zero.

Muitos hábitos foram alterados e à noite ninguém se despia completamente para vestir o pijama de flanela. Só se tiravam as duas cascas de fora, o capote e a blusa – às vezes nem isso. O calçado era substituído por sapatos de tricô ou outro par de meias. A carapuça de lã não saia da cabeça e alguns até de luvas dormiam.

O banho, naturalmente, deixou de ser diário para se tornar evento de dois dias por semana ou mesmo semanal. Foi outra revelação para os pracinhas a razão por que os povos europeus não gostam tanto de banho quanto nós brasileiros. No primeiro inverno que lá passaram, ainda sob influência do hábito, contrariavam o frio e tomavam banhos freqüentes. Para continuação de seus hábitos de higiene muito contribuíram as instalações de chuveiros, nas sedes das unidades, com água aquecida e, em alguns pontos, dos “american showers”. No QG de Porreta o problema do banho foi de antemão resolvido pelos banheiros de águas termais naturais, no próprio hotel das Termas, que serviu de sede ao QG.

As rações alimentares foram aumentadas, sobretudo em calorias e vitaminas, especialmente para a tropa no “front”, de modo a que os soldados mais expostos às intempéries tivessem uma boa fonte de energia, para enfrentar aquelas novas condições de vida.

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Transporte de feridos pelo Batalhão de Saúde. Os jipes buscavam os feridos próximo à linha de frente, em lugares inacessíveis às ambulâncias.

O frio não atingiu apenas ao elemento humano. Também sofriam os motores dos caminhões e jipes, que receberam a ração de anticoagulante, misturada à água dos radiadores. Antes de por os carros em movimento era preciso aquecer bem os motores. Nas estradas das montanhas, cobertas de gelo, o tráfego se tornou difícil e perigoso. Apesar de serem colocadas correntes nas quatro rodas e ligados os dois diferenciais, as derrapagens eram freqüentes. Com qualquer descuido lá se ia o carro deslizando, como se estivera sobre uma superfície de vidro, até encontrar o barranco ou o carro da frente, quando não ia parar nalgum despenhadeiro.

Nota curiosa do inverno foram os capotes brancos, distribuídos aos elementos das patrulhas avançadas e a aprendizagem de “ski” pelas tropas brasileiras. Os homens das patrulhas vestiam um capote branco, com capuz, que os confundia com a brancura da neve, num mimetismo perfeito. Não se pode imaginar outra missão mais árdua do que uma patrulha em morros com os acidentes do solo e os perigos das minas e “booby-traps”, escondidos por uma enorme camada de neve, onde os homens atolavam até acima dos joelhos. A aspereza da subida, a luta contra a neve fofa, onde os pés não encontravam apoio, o frio que enrijecia os músculos, o vento cortante fustigando o rosto e, além de tudo, o inimigo entocado lá por cima, também camuflado pela mesma neve. As patrulhas brancas iam, lentamente, porém seguras, cumprir sua arriscada e penosa tarefa, sondando a resistência inimiga, colhendo informações sobre sua localização, fazendo prisioneiros em golpes de mão.

Esquiadores estadunidenses organizaram grupos de oficiais e soldados brasileiros para aprender a esquiar, esporte novo para eles e de tanta aplicação naquelas paragens geladas.

Problema complicadíssimo era o abastecimento dos postos avançados, onde as viaturas não podiam chegar. As rações alimentares e água deviam ir em trenós improvisados, puxados por animais, até certo ponto, e depois pelo esforço dos próprios homens.

As condições da guerra no inverno inegavelmente eram péssimas, exigindo um grande sacrifício de nossos soldados, que além do mais era a primeira vez que estavam metidos naquela geladeira, que se prolongaria por três meses. Enquanto isso, no Brasil, em pleno verão, os brasileiros tomavam banho de sol nas praias e se deliciavam com sorvetes e refrescos, metidos em folgadas roupas de brim.

inverno004Quando, às noves horas da noite, a tropa se reunia, encorujada em torno de uma estufa, procurando um pouco de calor, antes de se meter na cama-rolo, pensávam que no Rio de Janeiro seriam quatro horas da tarde e seus amigos e parentes estariam por certo tomando um gostoso “chopp” ou um refresco de coco. Esses pensamentos causavam inveja e ao mesmo tempo eram um consolo e um estímulo. O sacrifício estava sendo útil a todos e precisavam vencer o inverno e o alemão, para regressarem ao Brasil querido e saudoso, terra privilegiada, que das cores da natureza só conhece o azul e o verde. Queriam e haviam de voltar vitoriosos. Antes porém tinham de amargar aquele friozinho e amassar muita neve.

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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