Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

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chafariz 15 abr 45 - FEB - Conquista de Montese Vista por um Comandante de Pelotão de Ataque - Parte II
Chafariz em Montese - 15 abril de 1945.

FEB – Conquista de Montese Vista por um Comandante de Pelotão de Ataque – Parte II

CONQUISTA DE MONTESE

1 – Escolha do flanco – “Cara ou Coroa”

Preliminarmente, vamos recordar o episódio que serviu para definir o flanco, que o 3° Pelotão ocuparia, no dia do ataque a Montese. Até as 15hs do dia 11 de abril, sabíamos, tão somente, que a nossa subunidade atacaria Montese com dois Pelotões em primeiro escalão, o segundo e o terceiro, mas não se haviam definido quais os flancos que ocupariam estes Pelotões. Por isso os Tenentes Ary e Iporan, após realizarem um reconhecimento no terreno onde iriam atacar, utilizando uma carta de Montese, num Posto de Observação da Companhia, resolveram disputar na “cara ou coroa” qual seria o flanco dos Pelotões no dia do ataque.

O Tenente Ary ganhou e escolheu o direito, que julgávamos ser o mais favorável ao ataque. O resultado da disputa foi levado ao conhecimento do Capitão Sidney, que a homologou. Mais tarde, ficou comprovado que o direito não era tão favorável como parecia, pois se encontrava extremamente minado.

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Blindado e coluna de marcha da 1ª DIE na região de Montese

 

2 – Preparativos para o ataque a Montese.

Antes do alvorecer do dia 14 de abril de 1945, a tropa atacante se movimentou para ocupar o dispositivo. Nosso Pelotão deixou a posição que ocupava na LPR – Linha Principal de Resistência -, em Biccochi, e alcançou Montaurígula, seguido do 1° Pelotão de Fuzileiros da 2ª Companhia, do 1º Pelotão de Morteiro 81 mm da Companhia de Petrechos Pesados do 1° Batalhão do 11° Regimento de Infantaria e uma seção de Metralhadora Pesada da 2ª Companhia.

Para ocupar seus dispositivos, este grupamento ultrapassou a zona minada, utilizando-se da brecha aberta dois dias antes, no campo localizado e neutralizado parcialmente. Ao romper da aurora, os alemães, pressentindo a movimentação da tropa, procuraram dificultar suas ações, bombardeando com tiros de inquietação o campo minado, o que nos obrigou a transpor a zona batida em pequenos grupos de homens, aproveitando-se dos intervalos entre um bombardeio e outro.

Naquela ocasião, como oficial mais conhecedor da situação local, procurei orientar a transposição da zona minada, o que foi realizada sem baixas e com sucesso. Os alemães, com certeza, não sabiam da brecha no campo minado, porque, se soubessem, não realizariam os tiros de inquietação, que são um ou dois tiros de artilharia ou morteiro, dados num determinado local, com pequenos intervalos de tempo, com o objetivo de dificultar uma ação do inimigo, que no caso em questão, seria a retirada das minas.

 

3 – Fases do Ataque a Montese

A conquista da Cidade de Montese, que era a missão principal da 2ª Companhia, foi planejada para ser realizada em duas fases bem distintas:
1ª fase: missão secundária, às 9hs – ataque com dois Pelotões a dois Postos Avançados do inimigo. O 1° Pelotão, sob o comando do 2° Sargento Leôncio Soares, no ponto cotado 759, a oeste da Montaurigula, e o 2° Pelotão (Tenente Ary Rauen) a sudeste de Montese.
2ª fase: Missão principal, às 13:30hs – ataque à Cidade de Montese, com dois Pelotões. O 3° Pelotão (Tenente Iporan) à esquerda e o 2° Pelotão (Tenente Ary) à direita.

3.1. Desenrolar da 1º Fase de Combate

Na hora prevista, os dois Pelotões atacaram seus objetivos. O primeiro teve, inicialmente, o seu avanço prejudicado pela ação do inimigo que, possivelmente ressabiado pela ação da patrulha 2 dias antes, manteve os nossos à distância, pelos fogos.

O Tenente Iporan, encontrando-se em Montaurigula, acompanhava a atuação do 1° Pelotão e procurou orientar, por telefone, o Sargento Leôncio na conquista do seu objetivo, ficando 100 metros à sua retaguarda, quando, então, ficou exposto aos tiros das armas tensas do inimigo, que passavam nas suas proximidades.

O Pelotão Leôncio não conseguiu atingir seu objetivo na hora prevista. Só o conquistou algumas horas após ser desencadeada a ação, na 2ª Fase do Combate. O 2° Pelotão ficou detido em frente de um campo minado, batido por fogos de Infantaria, e o seu bravo Comandante, Tenente Ary, acaba mortalmente ferido, com um tiro na cabeça. O Pelotão sofre outras baixas e não atinge seu objetivo.

3.2. Desenrolar da 2ª Fase de Combate

Às 13h00min., fomos informados pelo Comandante da Companhia que a “Hora H” do ataque principal seria na hora prevista, às 13h30min. Ponderamos, então, que era, praticamente impossível atacar Montese, partindo-se de Montaurígula, antes da queda do Posto Avançado deste morro, porque senão receberíamos tiros inimigos pela retaguarda, oriundos deste Posto. O Capitão Sidney respondeu-nos que iria mandar intensificar o ataque sobre o Posto Avançado, mas que o Pelotão deveria partir para o ataque na hora prevista, juntamente com os demais elementos do regimento.

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Montese em Ruínas

Havíamos planejado atacar Montese partindo do Posto Avançado de Montaurígula, mas, em face da impossibilidade da sua utilização, decidimos, baseados nos estudos do terreno efetuados naquela manhã, que desembocaríamos para o ataque, como realmente, o fizemos, partindo de uma ravina, bastante íngreme e coberta de vegetação, existente logo após o campo minado. Às 13h30min., bastante preocupados com a possibilidade de recebermos tiros pela retaguarda, oriundos do Posto Avançado de Montaurígula, saímos para o ataque.

Mal o Pelotão transpôs, em linha, a crista, partiram de Montese foguetes de sinalização, com estrelas vermelhas, possivelmente denunciando nosso ataque. A tropa ultrapassou os pontos mais elevados com grande rapidez, facilitada, em muito, pelo terreno íngreme. Após o Pelotão ter vencido um terço das elevações, sua retaguarda foi batida por uma densa e compacta barragem de artilharia, que cortou o fio telefônico em vários pontos e colocou fora de combate um soldado da equipe de minas e outro de saúde.

No terço inferior da elevação, aproveitando-se de uma estrada carroçável, que oferecia boa proteção, o Pelotão reajustou o seu dispositivo e lança à frente, incontinenti, o 3° Grupo de Combate (Sargento Celco Racioppi). Os dois outros Grupos de Combate apóiam o seu avanço, trocando tiros esparsos com as primeiras resistências inimigas, mal definidas no terreno. O Grupo ponta, após um pequeno deslocamento, para e assinala a existência de minas. O Comandante do Pelotão, ao chegar ao ponto assinalado pelo Sargento, constatou com satisfação que não se tratava de um campo minado e sim de “booby-traps”, armadilhas colocadas na estrada, feitas com cinco fios de arame fino, atravessando a estrada, tendo em cada extremidade uma mina terrestre. Com o fim de ganhar tempo, neutralizamos pessoalmente as minas, pois conhecíamos, tecnicamente, o manuseio dos artefatos, por havermos tirado, anteriormente, um curso de minas. A seguir, mandamos o 3° Grupo de Combate continuar a progressão, ao mesmo tempo em que determinamos o avanço do 2° Grupo de Combate (Sargento José Mathias Júnior), passando a marchar com este.

O Grupo mais avançado começou a galgar as elevações de Montese, favorecido pelo terreno, que, preparado para a agricultura, assemelhava-se a grandes escadas. Ao chegar ao topo das mesmas, o Grupo foi detido por fogos oriundos das resistências colocadas na frente de uma casa de grande porte. Juntamo-nos ao Grupo para estudarmos a situação, quando constatamos que as posições inimigas distavam cerca de 150 metros e que o espaço que nos separava era formado por uma espécie de bacia, com encostas suaves e vegetação rasteira.

Determinamos, então, ao Comandante do Grupo manter a posição, apoiar o avanço do 2° Grupo de Combate, que seria empregado á esquerda, o que se processou, enquanto o 1° Grupo de Combate (Sargento Rubens de Miranda) foi puxado para frente. Naquela oportunidade, o Pelotão tinha perdido toda a ligação com a Companhia: o telefone não funcionava, por terem os cabos sido rompidos pelos tiros da artilharia inimiga; o rádio deixou de captar e transmitir as mensagens por causa da distância e ondulações do terreno; e não havíamos ainda conseguido estabelecer ligação alguma com o Pelotão Ary Rauen, que deveria estar atuando à direita. Preocupados com a falta de comunicação, enviamos um mensageiro ao Comandante da Companhia, dando ciência da nossa posição e da situação.

Texto enviado por:  IPORAN Nunes de Oliveira (Tenente, combateu com a FEB na Segunda Guerra Mundial, destacando-se em diversas patrulhas de combate e em 3 batalhas – Monte Castelo, Castelnuovo e Montese, com o 11º RI)

Continua… FEB – Conquista de Montese Vista por um Comandante de Pelotão de Ataque – Parte III

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Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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