Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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FEB – A Tarefa Rotineira de Matar

feb_1Como foi tradição, as narrativas sobre a participação brasileira na campanha da Itália se pautaram por um tom grandiloqüente, de forma geral ressaltando a importância dos grandes comandantes e da liderança em alto escalão. Essa versão da história da FEB acabou provocando um efeito negativo, pois gerou desconfiança semelhante àquela com que os leitores em geral olham as costumeiras e já desgastadas abordagens utilizadas nos demais textos clássicos sobre os episódios militares de nosso país, em geral apologéticos e triunfalistas. Em contraposição a essa vertente, nas últimas décadas foi bastante difundida a opinião de que as tropas brasileiras chegaram às linhas de frente no fim do conflito, tendo enfrentado um inimigo cansado que defendia posições secundárias de forma fraca reticente.

De acordo com tal versão, a participação da FEB na fase final da campanha da Itália teria sido de pouca relevância para o desfecho das operações do V Exército Americano, ao quais os brasileiros estavam subordinados. Por conta dessa visão, certas narrativas da ação brasileira nos campos de batalha eram marcadas por ceticismo ou mesmo zombaria. O resultado foi que não se deu a devida atenção à realidade vivida por dezenas de milhares de jovens brasileiros. Convocados entre 1942 e 1944, foi um país de clima muito diferente enfrentar um inimigo experiente, que às vezes tinha uma vantagem desproporcional em função do terreno montanhoso.

Veteranos da FEB contribuíram para a falta de conhecimento da história da campanha na Itália. Por medo de chocarem as pessoas, eles evitavam contar detalhes da ferocidade dos combates e de vida na frente de batalha. Nas eventuais tentativas de contato com antigos integrantes da FEB sobressaem às narrativas de cunho anedótico como as eventuais aventuras com garotas e situações cômicas  vividas em acampamentos na retaguarda, no lugar das recordações traumáticas que a própria memória procura convenientemente ocultar.

Na verdade o Brasil entrou na guerra num momento em que a balança das vitórias pendia favoravelmente para o lado do Eixo nazi-fascista. A esmagadora maioria dos nossos soldados de infantaria provinha das lavouras, ou dos setores do operariado urbano. Um número significativamente menor era oriundo do setor de serviços e apenas a mais ínfima parte por estudantes. Sua média de idade situava-se em torno dos 23 anos. O braço letal da FEB, que totalizava 25 334 homens e mulheres, era constituído pela 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, composta de cerca de 15 mil combatentes. Uma vez engajado em campanha, o típico soldado de infantaria brasileiro carregava uma ferramenta para escavação de abrigos individuais – característica primordial na Segunda Guerra, pois os soldados passavam longos períodos estacionários entre os ataques, protegidos em pequenos buracos que acomodavam dois ou três homens. Nestes intervalos, eram constantes as tarefas de patrulhamento e segurança das posições mais avançadas, atividades extremamente desgastantes, pois se vivia sob os bombardeios e as intempéries, que, além dos engenhos bélicos, causavam baixas por problemas respiratórios (foram comuns temperaturas abaixo de -15° C no último inverno da guerra) e de circulação nos membros locomotores, que, se não fossem tratados a tempo, resultavam em gangrena e amputação das pernas.

Higiene Precária nas Trincheiras

Nos postos da primeira linha no front, as condições de higiene eram extremamente precárias. Dependendo da exposição ao inimigo, era inviável executar os mais básicos hábitos de asseio pessoal. Em posições como a Torre di Nerone, elevação situada no vale do rio Reno, no norte italiano, foi impossível que os soldados de alguns batalhões da FEB se banhassem por períodos de até três meses. O contato com a terra facilitava o surgimento de parasitas como piolhos, insetos que procriavam por debaixo das várias camadas de uniformes, estes últimos indispensáveis para suportar a intensidade do inverno. Para a satisfação das necessidades fisiológicas, utilizavam-se os invólucros cilíndricos de munição, feitos de papelão, ou as latas das rações de combate, que, uma vez cheias, eram atiradas para fora dos abrigos.

Por vezes, as condições no front eram ainda mais rudes: em algumas circunstâncias, a ocupação de posições-chave obrigou os soldados a escavarem seus abrigos ao longo ou até mesmo por baixo dos cemitérios dos vilarejos italianos. Convivia-se dia e noite ao lado de túmulos, que com freqüência abriam-se, a poder de granadas inimigas, espalhando seu conteúdo por entre os abrigos.

O veterano Leonercio Soares, em seu livro de memórias de guerra, descreveu a situação que os soldados enfrentaram em posições à frente de Monte Castelo: “A terra, pisada e repisada pelos pés dos soldados, tornou-se um lamaçal pastoso e gelado. E fétido, também. Sobretudo ali, naquelas medonhas e encharcadas posições, abertas, em forma de túnel, enrustidas que foram sob o velho cemitério de Bombiana. Ali, naqueles buracos de toupeiras, sentia-se ainda muito frio no decorrer das noites. As mãos gelavam-se ao tocar na terra negra e malcheirosa. Dela, permanentemente emanava-se o odor sepulcral de defuntos centenários, confundindo-se, misturando-se e aderindo ao fedor do feno podre que enchia os galochões – o fedor de chulé, de suor velho e encalacrado – o mau cheiro de toda sorte de sujeira, acumulada nos corpos vivos que conviviam com os mortos. Um bafejo forte escapava-se do fundo da terra do velho cemitério – emanação pegajosa, grudenta, nauseante, impregnava todas as coisas que ali se encontravam”.

O nevoeiro das montanhas, a fumaça das explosões, a poeira levantada pelos deslocamentos de ar, ruídos ensurdecedores, a vegetação calcinada e triturada por estilhaços, a lama misturada com neve derretida, os obstáculos de arame farpado, o aroma nauseante de pólvora queimada e todo tipo de odor causado por matéria orgânica em decomposição, completavam o cenário dos combates.


Combates de Surpresa

metralhadorasEm virtude do campo de visão limitado do combatente e de ele estar ocultado no terreno, era comum que brasileiros e alemães entrassem em choque a distâncias tão curtas como dez ou 15 metros. Para o soldado emaranhado na luta, tornava-se impossível conseguir uma noção aproximada do desenrolar dos eventos. Os exércitos nazistas e italianos dispunham de uma doutrina defensiva elaborada com o propósito de ter o máximo aproveitamento do terreno montanhoso que ocupavam. Era comum que um grupo de 50 soldados alemães, bem entrincheirados nas encostas de uma montanha, conseguisse segurar centenas de soldados aliados por dias ou até semanas. Quando a infantaria dos países Aliados avançava, seu percurso era batido por fogos cruzados disparados por armas dispostas de maneira que qualquer ponto pudesse ser atingido, por projéteis ou granadas. Nos espaços entre os ninhos de metralhadoras e morteiros, pequenos grupos de atiradores de elite alemães, com freqüência armados de fuzis com lunetas, faziam precisos disparos contra os soldados aliados. Em função dos atrozes efeitos físicos causados por tais armas, os soldados que se preparavam o batismo de fogo eram mantidos num estado de alheamento no que se refere aos riscos que muito brevemente viriam a correr, uma vez envolvidos em combates. Quase nenhuma informação era transmitida aos soldados a respeito dos ferimentos mais graves que os estilhaços podiam causar, como castração, evisceração, perda de matéria encefálica ou até a própria desintegração do corpo humano, quando nas proximidades da detonação de uma granada de grosso calibre. Uma vez conscientes da enorme amplitude de agressões físicas que a guerra poderia acarretar, as tropas engajadas no front começavam a apresentar reações psicológicas comuns aos soldados mais experientes.

Como afirmou o fuzileiro Santo Torres, “eu me desenganei da minha saúde. Aquele sofrimento era tão grande que a gente esperava o fim da guerra ou o nosso fim”. O tratamento das baixas da FEB ocasionadas por fadiga de combate, ao menos pela duração da guerra, foi exemplar, graças ao trabalho do capitão médico Mirandolino Caldas, encarregado do Posto Avançado de Neuropsiquiatria. Caldas, seguidor de uma postura cientifica avançada para a época, já reconhecia que os casos mentais vulgarmente conhecidos como “neurose de guerra” se originavam das insuportáveis condições a que eram submetidos os soldados. Para a maioria dos médicos militares da época, esses casos eram provocados por desvios comportamentais. Atualmente, a “estafa de combate” é definida como “síndrome do estresse pós-traumático”, reação observada igualmente em vitimas de assaltos e acidentes automobilísticos. Infelizmente, muitos dos casos da síndrome se manifestaram anos após o final do conflito, quando os veteranos da FEB não mais dispunham de acompanhamento médico conveniente. Outra das conseqüências da permanência em combate era a brutalização, o abandono de reações e comportamentos ditos civilizados. O soldado Ferdinando Palermo, alfaiate convocado para servir numa companhia de fuzileiros, considera o resultado de sua experiência de guerra:

“Todo o sentimento que eu tinha foi perdido na guerra, que destrói tudo. Ela destrói todo o seu sentimento humano, e você passa a ser um bicho. No início, a desgraça que nos cercava impressionava muito, mas com o passar do tempo, comecei a achar tudo aquilo comum. Um colega caia ferido, eu olhava, nem mesmo podia ajudar, pois a minha função não era de padioleiro (carregador de maca), que era quem ajudava o ferido. Fiquei completamente desumano, perdi todo o amor que sentia pelo semelhante”.

Matar inimigos era, por definição, uma função do soldado em guerra. A princípio, as reações a essa matança variavam conforme a índole de cada um, indo da profunda compaixão e relutância em matar até o cinismo. Após longos períodos no front, porém, era comum o surgimento de uma indiferença generalizada em relação às mortes. Os serviços de propaganda procuravam continuamente criar um clima de ódio em relação ao inimigo, mas a tarefa rotineira de matar ainda encontrava sólidas barreiras em fatores culturais. A duração do confronto e a dureza dos combates, porém, lembra os soldados a todo instante da situação irredutível de matar ou ser morto, que, somada à brutalização, dissipava os eventuais obstáculos morais. Aceitar essa realidade durante a campanha cobrou seu preço nos dilemas de consciência que emergiram na solidão do pós-guerra. Infelizmente, alcoolismo e suicídio não foram raros entre os veteranos da FEB, após seu retorno ao Brasil.

Fonte: Revista “Nossa História”, por Cesar Campiani Maximiano (Ano 2, N.15, janeiro 2005)

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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4 comentários

  1. Pantaleão de Souza

    Afinal, quem é o AUTOR desse texto? Cesar ou André Luiz?

    André Luiz teria psicografado esse texto? Acho que não, porque Cesar ainda é bem vivo…

    • Olá, Pantaleão! Obrigado pela visita!
      Bem, não psicografei o texto, pois nunca manifestei essa faculdade mediúnica, quer seja ela consciente, semi-mecânica ou mecânica.
      E como você mesmo já afirmou, o Cesar está vivo.
      Além do mais, mesmo que eu tivesse psicografado, o autor continuaria sendo o Cesar, pois psicografar algo é apenas transmitir a mensagem de algum espírito.

      E nesse caso, como em outros que existem aqui no site, há autores que criaram o texto, e autores que publicaram ele aqui no site. Que adaptaram, que diagramaram, trabalharam as informações para que o texto fosse corretamente exibido. Isso é ser autor do artigo, do Post.
      Quem tem o mínimo de conhecimento sobre como funciona um blog, um fórum de internet, fica bem a par dessas informações.

      E obrigado por suas visitas e comentários! Percebo que independente de saber o ser autor de um Post você tem procurado ler o texto. Volte sempre!

  2. Sua resposta é de um picareta. Isso que você faz se chama PLÁGIO, em português bem claro, e só não te traz problemas por benevolência de terceiros.

    Isso pode mudar se você continuar bancando o espertinho.

    • Sr. Pantaleão tanto o André como eu e como muita gente faz na intenet, lemos alo interessante e postamos em nosso site, nos colocamos a fonte de onde fora tirada o texto, então não é plágio, pode ver que existe uma citação no final do texto.
      O Sr. pode olhar em outros sites sobre o assunto o mesmo procedimento. Nos colocamos o nosso nome assinando o texto para os amigos que gosta do assunto entrar em contato com a gente.
      Agora uma opinião minha, existem tantos sites com a mesmas metodologia, porque o Sr. homem correto e e ameaçador não faz o mesmo com os outros.
      Obrigado por estar visitando o site Ecos da Segunda Guerra.

      Sem mais

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