Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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FEB – A Execução do Embarque

embarque
Pracinha embarcando para a Italia

Ao entrar o 1º comboio no Cais do Porto, detendo-se diante do navio-transporte General Mann, verificava-se uma chocante comparação. Enquanto o navio, que chegara ao Rio no dia 27 de junho, se apresentava feericamente iluminado, o comboio ingressava na plataforma em black out e de venezianas arriadas.

Era o 1º Batalhão do 6º RI, juntamente com o EM do Regimento chefiado pelo Coronel Segadas Viana. O bravo soldado, experiente de tantas guerrinhas internas, estava sereno, encarando aquela dura realidade com calma e resignação. Estivera gravemente enfermo e ainda não estava restabelecido. Mas, em hipótese alguma admitia a sua substituição. Aliás, o próprio Comando Divisionário também pensava assim. Os valores que caracterizavam sua personalidade suplementavam a deficiência física momentânea.

A tropa desceu dos carros em silêncio absoluto, aparentemente esmagada pela surpresa. Ao invés da pequena estação suburbana de Nova Iguaçu, estavam defrontando-se, como num conto de fadas, com um imponente navio de guerra, arfante e pletórico de luz, com três escotilhas de entrada, correspondentes às três pontes de embarque. Por uma delas embarcariam os soldados e graduados; pela outra, os oficiais. A terceira se destinava ao uso exclusivo da guarnição americana do navio.

Transmitidas as instruções à tropa pela equipe da Área de Embarque, foi dado o início à operação propriamente dita. Os homens que haviam desembarcado do trem com os seus sacos A e se encontravam formados em rigorosa disciplina em coluna por um, penetravam no navio guiado pelos elementos do Destacamento Precursor ao labirinto interno e conduzido até os leitos (macas) que lhes eram destinados, superpostos, até dez.

Nenhuma reação, nenhum ato de desespero, nenhuma lamúria, nenhuma demonstração de medo. Em todas as fisionomias estava estampado um sentimento de resignação e de solidariedade, na marcha para o desconhecido, naquela imensa urna metálica, de mais de 36000 toneladas de deslocamento. Quantos voltariam dessa aventura? Só Deus sabia.

Ao iniciar-se a operação estavam presentes, na Área de embarque, os Generais Mascarenhas de Moraes, Zenóbio da Costa, Cordeiro de Farias e o General Walsh, do Exército dos Estados Unidos, que viera especialmente para assistir àquele embarque. Nenhum outro General brasileiro. Nem o Chefe do EM do Exército, nem o Ministro da Guerra.

O sigilo do embarque não poderia ser o pretexto para essa ausência, mormente se considerarmos que partiam dois generais, inclusive o Comandante da Divisão e seus auxiliares imediatos. Quanto às autoridades civis, absoluta ausência. O ambiente geral era melancólico, triste mesmo. Nenhum sinal de entusiasmo, talvez devido à surpresa que assaltou a todos e à severidade do segredo que dominava os mínimos atos ligados ao embarque.

Antes de chegar ao fim dessa terrível jornada, tão significativa para os destinos do Brasil, do Exército e de cada um dos soldados, uma última emoção ficara reservada, quando toda a tropa já estava embarcada, restando no Cais somente os Oficiais Generais e o Comando da Área de Embarque.

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Getúlio Vargas visita os soldados que partirão rumo ao Teatro de Operações da Italia

Anunciava-se a próxima chegada do Chefe do Governo, Sr. Getúlio Vargas, que traria sua visita de despedida aos chefes e soldados que partiam. A notícia, retendo-os fora do navio, serviu como um derivativo para a nova avalancha de preocupações que nos assaltariam, desde o momento da partida.

Que partido procuraria tirar daquele acontecimento o sexagenário Vargas, o homem que há 14 anos se apossara do Poder e o exercia como bem entendia, chegando à temeridade de se comprometer a enviar ao Teatro europeu uma Força Expedicionária, que deveria alcançar um efetivo da ordem de cem mil homens, por sua única e exclusiva decisão?

A verdade é que, no íntimo, todos se sentiam como que abandonados, lançados à própria sorte, sem aperceber-se do juízo que os aliados realmente faziam do sacrifício e da colaboração. A impressão era de que Getúlio Vargas, calculista impenitente, pretendia com aquela despedida desfechar um duplo golpe psicológico em benefício de sua permanência no poder. Avistando-se com oficiais e soldados que partiam, deixava-lhes n’alma a impressão de um interesse invulgar pelos seus destinos. Da mesma forma, face à Nação e, em particular, ao Exército, a repercussão da visita e das suas palavras valeria como um atestado de sua dedicação, tanto mais valiosa quanto era certo que outros contingentes deveriam partir com o mesmo destino. Mas Getúlio era sincero. Sem dúvida, ele amava o Brasil. Por outro lado, presentes ao embarque estavam os generais estadunidenses Kröner, adido militar no Brasil, e Walsh, este representante da Comissão Militar Mista Brasil-Estados Unidos, com sede em Washington, além de outros oficiais da mesma origem, e toda a guarnição do imponente barco da Marinha dos Estados Unidos.

Nenhumas cooperações prestaram – nem lhes era solicitada – nos atos de embarque propriamente. Mas seriam testemunhas de um ato isolado, de aparente comunhão de idéias, entre o Ditador e o Exército que mantinha a Ditadura. Chegou o Chefe do Governo ao Cais cerca da meia-noite do dia 30. E foi imediatamente levado ao interior do navio. No salão de honra, onde estavam concentrados todos os oficiais, houve a apresentação rápida e sumária. Levado à Ponte de Comando, enquanto os oficiais se recolhiam aos seus camarotes, lá o colocaram face ao microfone do comando. Aí, então, Getúlio Vargas apareceu na plenitude de sua personalidade jamais decifrada.

Os estadunidenses apelidaram seu governo de “A Ditadura paternalista de Getúlio Vargas”. E um dos seus chefes da Casa Militar, que com ele conviveu longos anos, principalmente no período da guerra, assim o apreciava: “Nem o chapéu sabe o que Getúlio tem na cabeça”. Sua voz, cadenciada, traindo uma grande emoção, ecoou forte no silencio da madrugada, invadindo os mínimos recantos do navio, onde cada homem, ocupando seu leito (beliche), fora advertido de que iria ouvir a palavra do Chefe do Governo do Brasil:

“Soldados da Força Expedicionária! O Chefe do Governo veio trazer-vos uma palavra de despedida, em nome de toda a Nação Brasileira. Sei quanto nos custa, a todos, este momento transcendente em que vos separais dos vossos lares, do calor e do carinho dos entes amados. O destino vos escolheu para a missão histórica de fazer tremular, nos campos da luta,  o pavilhão auriverde e responder com a presença do Brasil às ofensas e humilhações que nos tentaram impor”.

E depois de outras considerações patrióticas:

“Dedicai-vos de corpo e alma à vossa gloriosa missão. A Nação vos seguirá com o pensamento ungido pelas mais fervorosas preces a Deus, certa de que a vitória será o apanágio das vossas armas. 0 Governo não se descuidará um instante, no desvelo pelas vossas famílias. Estejais tranqüilos. É com emoção que aqui vos deixo os meus votos de pleno êxito. Não é um adeus, é antes, um até breve, quando ouvireis a palavra da Pátria agradecida”.

Durante toda a sua alocução, que aí está em síntese, pois foi de improviso, Getúlio manteve a mesma fria serenidade, que sabia conservar nos momentos mais críticos. Ao deixar o microfone, apresentou suas despedidas ao Comando do navio. E a sua voz já não transparecia a mínima emoção. Pilheriou com o General Zenóbio, cuja personalidade reunia dois aspectos interessantes: homem dos desportos na tropa e combatente ardoroso de famosa bravura na realidade da guerra. No portaló, despediu-se do General Mascarenhas, desejando-lhe todo o sucesso na sua árdua missão e recordando que o Governo queria ser constantemente informado, para que pudesse estar sempre atento, no apoio devido à FEB.

Mascarenhas, que já se investira na Delegação de Comando, na forma da lei, recebia naquele momento o voto de confiança do Governo; estava sereníssimo, tão frio e indiferente quanto o seu interlocutor. Descendo a escada de bordo, a pequena comitiva se afastou lentamente, não sem olhar, de relance, o imponente transporte estadunidense, magicamente iluminado, enquanto o resto do Cais permanecia imerso na penumbra e no silêncio da madrugada.

Todo o 1º Escalão da 1ª Divisão Expedicionária estava embarcado, inclusive os generais e o Estado-Maior. Deixara de existir o Comando da Área de Embarque. E daquele momento em diante ficava estabelecida a proibição formal, sem exceção, de descer a terra, a qualquer brasileiro embarcado. A grande nave metálica estava pronta, com a sua carga humana, para zarpar. Nada mais dependia de deles; estavam nas mãos dos estadunidenses. Sentia-se que dos ombros de todos que compunham o Governo se retirava, desde aquele instante, a incômoda sobrecarga.

Mesmo que não seguisse mais ninguém, que o esforço do Brasil se resumisse naquele modesto Combat Team reforçado, toda a carga de responsabilidade se transferia ao General Mascarenhas de Moraes que, por isso mesmo, embarcara com aquele 1º Escalão, para se converter em “bode expiatório”, eventualmente, no caso de algum contratempo, ou “insucesso”, surpreender as inexperientes formações da FEB.

O grosso da Divisão, com os dois Grupamentos táticos, as unidades Divisionárias, todos os órgãos dos serviços, além do Quartel-General da Divisão, excetuados o Chefe do EMD, e os quatro Chefes de Seção, todos ficavam no Brasil sob o Comando do General Cordeiro de Farias, “espiando a maré”, como diz o homem do povo.

Não houve o menor empenho, da parte dos estadunidenses, para que a Divisão seguisse toda, em conjunto, como seria de desejar. Nessas condições, o que estava sendo enviado ao Teatro da luta era uma verdadeira “ponta de lança”, mais do que um grupamento tático, uma miniatura de Divisão, sob o comando do General Zenóbio da Costa, chefe dotado de extrema combatividade e legendária bravura. A presença do General Mascarenhas e de um grupo de assessores, todos pertencentes ao EM Divisionário, deixando no Brasil o grosso da Divisão, para cujo transporte futuro não havia qualquer notícia ou compromisso firmado, era evidentemente mal explicado.

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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2 comentários

  1. Boa tarde! na busca por informações sobre meu pai, encontrei este site, embora não tenha encontrado o que busco; fiquei maravilhada na riqueza de detalhes e gostaria se possivel de entrar em contato com o “Autor” pois creio que ele poderia me orietar nesta busca… isto podera ajudar a modificar a historia de uma familia…
    Abraços e muito obrigada!

  1. Pingback: FEB – Para quem quer saber da Participação do Brasil na Segunda Guerra | Blog +

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