Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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FEB – A Engenharia da FEB

Quem observasse o panorama da frente de batalha e zona vizinha, teria logo sua atenção despertada pela extraordinária atividade de certos grupos de soldados, dirigidos por oficiais calmos e pacientes, construindo pontes, reparando estradas ou retirando minas. Eram os soldados e oficiais do 9º Batalhão de Engenharia, cuja enorme soma de trabalhos e sacrifícios constitui verdadeira glória para a Engenharia Militar Brasileira.

Arma e serviço, formada de operários que também eram combatentes, foi a Engenharia um dos fatores preponderantes de nossa vitória. O Serviço de Engenharia se compunha de Chefia, que foi exercida pelo competente engenheiro militar Coronel José Machado Lopes, cumulativamente com o comando do Batalhão de Engenharia; Seção de Engenharia da Divisão, dirigida pelo Adjunto do Serviço, Major Aristóbulo Codevilha Rocha; órgão de Execução – o 9º BE. Esta organização é das mais simples e eficientes.

O fato de ser o Chefe do Serviço também Comandante do órgão de execução trouxe reais proveitos, tornando mais rápidas as decisões e a transmissão de ordens. O 9º BE se achava em Aquidauana, Estado de Mato Grosso, quando foi designado para integrar a FEB. Deslocou-se daquela guarnição longínqua para Três Rios e depois para a Capital Federal, onde completou seu efetivo e instrução.

Grandes dificuldades houve para se conseguir uma instrução adequada, pela falta de material sobretudo no que se referia a minas, “booby-traps”, explosivos, etc. Uma parte dos ensinamentos teve de ser ministrada na Itália. O BE embarcou no segundo escalão, a 22 de setembro de 1944, com exceção da 1ª Companhia, que seguira com o primeiro e iniciou seus trabalhos a 6 de setembro. Esta Companhia fez parte do “1st. Combat Team”, ou seja o Destacamento da FEB, que atuou no setor de Camaiore e Vale do Serchio. Ela foi a primeira fração da força brasileira a entrar em atividades bélicas, quando a 6 de setembro passou à disposição do IV Corpo e foi empregada no “front”.

Este é um fato curioso na história da FEB – a Arma de Engenharia teve o privilégio de iniciar a campanha, tomando uma dianteira de dez dias sobre as demais armas. Fazia parte da 1ª Companhia o 1º Tenente Paulo Nunes Leal, cuja figura merece um destaque especial, pelas altas qualidades que revelou no decorrer dos acontecimentos. Comedido e sóbrio, de mentalidade calma e metódica, dedicado e intrépido, o Tenente Paulo desde o início ao fim da campanha se mostrou fora do comum. Quando da tomada de Camaiore, entre os primeiros elementos a atingir aquela localidade, lá estava ele, à frente de um pugilo de seus decididos mineiros. Foi ele o primeiro oficial de engenharia a subir o Monte Castelo e, na rendição da 148ª Divisão Alemã, encontrava-se com seu Pelotão junto ao Esquadrão de Reconhecimento, na vanguarda de nossas tropas.

A 1ª Companhia trabalhou muito em setembro e outubro:

  • Construindo 9 pontes tipo Bailey e 1 de madeira;
  • Reparou e conservou 20 Km de estrada;
  • Movimentou 1320m³ de terra;
  • Empedrou 500m³ e desobstruiu um túnel.

Além dessa enorme produção, levantaram, em outubro:

  • 277 minas anti-tanques,
  • 790 minas anti-pessoal e retirou 19 cargas de destruição.

Todo esse serviço para uma companhia apenas, durante menos de dois meses, demonstra que os soldados da Engenharia dormiram pouco e aproveitaram bem seu tempo.

Durante os outros meses da campanha essa formidável capacidade de trabalho não decresceu, permitindo ao 9º BE apresentar ao fim da luta a seguinte folha de serviços:

  • 17436 metros de estrada construídos;
  • 130150 metros reparados;
  • 36480 metros conservados;
  • 6950m³ de terra movimentados;
  • 3001 metros de empedramento;
  • 1 túnel desobstruído;
  • 95 bueiros construídos;
  • 12 pontes Bailey e 6 de outros tipos construídas;
  • 12 pontes diversas reparadas;
  • 6 muros de arrimo construídos;
  • 1 “Treadway” operado;
  • 3198 minas AT (Anti- tanques) retiradas;
  • 615 minas AT colocadas;
  • 1709 minas AP (Anti-pessoal) retiradas;
  • 39 minas AP colocadas;
  • 196 “booby-traps” retirados;
  • 102 “booby-traps” colocados;
  • 209 cargas de destruição retiradas;
  • Executou 1 destruição, projetou e preparou 15;
  • Construiu 3 abrigos para Posto de Observação e 7 obstáculos anti-carros;
  • Instalou 13 pontos de abastecimento de água, distribuindo 14746m³ de água;
  • Instalou 7 unidades de banho, fornecendo 44294m³ de água para os mesmos;
  • Fez 49 reconhecimentos de Engenharia.

Em suas missões táticas o 9º BE:

  • Fez 14 acompanhamentos de Infantaria e 7 de carros;
  • Praticou 2 travessias do Rio Pó, em botes de assalto;

Distribuiu:

  • 31532 mapas,
  • 2080 metros de rede extensível,
  • 300 rolos de arame farpado,
  • 176500 sacos de areia,
  • Quase 1T de pregos,
  • 300 galões de tinta para “camouflagem”,
  • 13720 metros de madeira esquadriada,
  • 9200 estacas de ferro,
  • 1290 seções de ferro corrugado, para abrigos e bueiros.

No período do inverno os engenheiros muito trabalharam na remoção da neve, por meio dos “bull-dozzers” e arados de neve, adaptados às viaturas comuns.

Levando em conta que a maior parte desses trabalhos foi executada em pleno “front”‘, muitas vezes sob o fogo inimigo em terreno montanhoso, sob a chuvarada do outono e a neve do Inverno, podemos avaliar o dispêndio de energia e o sacrifício dos homens do 9º BE, no desempenho de suas múltiplas missões. O Batalhão era composto de cerca de 700 homens, divididos em 3 companhias de engenharia, 1 de comando e serviço e 1 Destacamento de Saúde, dirigido pelo notável clínico Dr. Benjamim Rodrigues. O BE se multiplicou para dar cumprimento aos encargos tão variados, nas comunicações, minas e destruições, abastecimento de água, instalação de banheiros, serviços e instalações gerais, suprimento de material de engenharia e mapas.

A Engenharia acompanhou o ritmo da Engenharia Estadunidense e no âmbito da Divisão satisfez plenamente a tudo que lhe foi exigido, indo além de suas possibilidades normais, para dar cumprimento às solicitações que lhe eram feitas. Imbuídos de grande espírito patriótico, os engenheiros deixavam transparecer seu amor ao Brasil em todos seus atos, como por exemplo ao dar os nomes às pontes que construíram: 7 de setembro, Entre Rios, Carioca, Lages, Lagoa Vermelha, Itajubá, Aquidauana, Cachoeira, Curitiba e outros, foram os nomes com que batizaram suas pontes, por onde nossas tropas transitavam em contínua avançada. Perderam apenas 6% do seu efetivo, sendo 34 feridos e 8 mortos, o que representa um pesado tributo. O Boletim Interno da 1ª DIE, no dia 4 de fevereiro de 1945, publicou o seguinte elogio do Gen. Mascarenhas de Moraes à Engenharia da FEB:

“A Engenharia da FEB não descansa. São múltiplas suas missões. A construção ou reparação de estradas, muita vez sob o fogo inimigo, que tem cobrado o tributo do generoso sangue brasileiro no soldado da arma das comunicações; na organização de zonas minadas, precedendo as posições da Infantaria, portanto sob eficaz alcance das armas inimigas; na limpeza dos eixos de progressão de carros de assalto; na construção de instalações para a tropa ou na organização dos meios de defesa das Armas e do Comando, a Engenharia Brasileira se tem distinguido como essencialmente combatente.

E no seu trabalho diuturno, silencioso e produtivo, sem o menor temor às reações do adversário, por isso que sabe ser indispensável ao desempenho das missões das outras armas, tem uma grande e única preocupação: fazê-lo rápido e perfeito.

Sabe a Engenharia que a rapidez e perfeição se completam, como inseparáveis, para o bom êxito das missões de combate. Sabe a Engenharia que esse bom êxito, que a tem acompanhado desde o início de sua atuação neste Continente e que a acompanhará até o fim, é o resultado da vontade de ser eficiente no conjunto da FEB. É o resultado da feliz atuação de seus comandantes.

Sabe, finalmente, que a vontade, só a vontade, servida por um material moderno e bem manejado, é o elemento essencial à consecução da Vitória do Brasil sobre os usurpadores da Liberdade, cujos clarões alvissareiros já se anunciam ao Mundo, para apontar-lhe o reto caminho da Paz dignificante, da Paz igualitária, da Paz tão ansiosamente aguardada. Soldados da magnífica Engenharia do Brasil, que bem trilhais os belos exemplos de vosso valoroso Patrono – o Gen. Villagran Cabrita! Continuai a produzir como o tendes feito até hoje e a vossa Pátria vos recompensará, com os agradecimentos pela vossa ação!”

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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3 comentários

  1. Parabéns excelente iniciativa é pena que os brasileiros não tenham tanto amor pelo Brasil.
    Gostaria de saber se o autor do site já teve a oportunidade de ler o livro a Guerra que eu vivi de Paulo Nunes Leal
    Eu só li uma vez – o livro era particular e sumiu – se o autor souber quem possui um exemplar por favor me informe
    grato.
    wallas

  2. gostaria de saber se você tem arquivo de fotos dos caminhões utilizados pelo 9 BE, pois eu estou restaurando o meu GMC e gostaria de identifica-lo como um 9 BE.
    grato, Paulo Olaia.

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