Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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Diário de Guerra de Ex-Combatente da Força Expedicionária Brasileira

  • ARGEMIRO PAVELOSK
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Imagem arquivo Marcia Pavelosk

Nascimento: 27/06/1921
Falecimento: 10/02/1998
Cidade: Pederneiras
Estado: SP
Regimento: 6º Regimento de Infantaria
Companhia: 6ª Cia 2º Batalhão
Posto: Cabo
Embarque: 02/07/1944
Retorno: 18/07/1945

 

 

 

Gentilmente enviado por sua filha Marcia Pavelosk

Dia 30/6/1944 – sexta-feira – Quartel – impedido dia todo. 9:30 hs da noite pegamos o trem e fomos até o cais onde se achava ancorado um navio norte-americano – 11:45hs da noite embarquei no navio….

Dia 01/7/1944 – sábado – passei o dia todo no navio sem poder sair para comprar nada, e assim passou-se também a noite.

Dia 2/7/1944 – domingo – 5:30hs da manhã quando tocava a alvorada já o navio deixava a Bahia de Guanabara onde só aparecia o Corcovado e o Pão de Açúcar e assim momentos mais tarde via-se no lado direito somente uma faixa de terra que momentos depois desaparecia. E afinal é água e céu somente.

Dia 3/7/1944 – segunda-feira – quando levantei sentia-me muito mal, tudo para mim parecia girar. Passei sem almoço até o momento de jantar onde fui até o rancho com muita dificuldade, com as pernas bambas, mas logo depois do jantar já me sentia melhor passando assim a noite.

Dia 4/7/1944 – terça-feira – passei o dia sem novidades para contar a não ser o imenso calor que fazia de dia e de noite apesar do mar muito calmo.

Dia 5/7/1944 – quarta-feira – até as 12:00hs sem novidades – 13:30hs  fomos avisados de que iríamos passar a linha do Equador. 2:40hs da tarde passamos a linha do Equador. Um calor tremendo fazia. 4:30hs tarde, hora do jantar, onde comi muito bem 12:00hs da noite éramos avisados para adiantar 1 hora nos nossos relógios.

Dia 6/7/1944 – quinta-feira – sem novidades

Dia 7/7/1944 – sexta-feira – também sem novidades

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Imagem arquivo Marcia Pavelosk

Dia 8/7/1944 – sábado – passava  o dia sem se ver nem um sinal de terra a não ser o que se via ao nosso lado direito como no esquerdo 2  destroyers  americanos e na retaguarda um cruzador que transportava 2 grandes porta-aviões que também faziam o patrulhamento em redor do comboio.14:30hs da tarde aparece um avião, nossas metralhadoras e canhão entraram em ação. Todos pensávamos que era inimigo mas o avião trazia amarrado atrás um saco comprido que era para treinamento da guarnição do navio e também para tirar o sistema nervoso da tropa. O resto do dia e noite sem alterações.

Dia 9/7/1944 – domingo – Completava uma semana de viagem através dos mares, tomamos nosso café, que aliás era muito bom pois vinha todos os dias, leite, café, doce em conserva, um dia ovos, outro maçã, peras, pão americano, manteiga a vontade, etc. Passamos muito contentes. 4:30hs da tarde fomos jantar. Eu jantei como nunca desde que estava em viagem. Peixe em conserva, arroz, feijão, 2 salsichas, doce de pêssego, uma maçã, 2 tomates, pão com manteiga, café e bolachas. À noite antes de nos recolhermos ainda comemos uns pedaços de peru que estava muito gostoso.  Assim passamos a noite sem novidades; somente muito calor. Adiantamos  1/2h no relógio.

Dia 10/7/1944  segunda-feira – Quando acordamos todos estávamos ansiosos para subir ao convés na esperança de vermos terra. Estava um vento forte soprado do norte e um mar muito agitado. 1:40hs da tarde toca o alarme geral. Todos em seus postos com os salva-vidas no corpo, mas somente treinamento: que susto! Assim passou o resto da segunda-feira – mais ½ hora de adiantamento a meia noite.

Dia 11/7/1944 – terça-feira eram 7 horas da manhã quando ao sair ao convés do navio recebia em cheio aquela brisa fresca que vinha do além mar. Era uma verdadeira delícia parecia que começava a viver em outro mundo. 8:30hs da manhã já tornava a descer para o meu compartimento onde ia logo após para o rancho. 9:00hs da manhã já me encontrava dentro do rancho tomando meu café com leite habitual. Logo ao terminar o café subi novamente ao convés e ao ver bem longe no horizonte notava-se algumas barcaças a vela todas de pesca. Logo pensamos estarmos perto de alguma terra, mas passou o dia sem nada podermos ver. A meia noite mais 1/2hora de adiantamento nos relógios de bordo.

Dia 12/7/1944 – quarta-feira –  sem alterações durante todo o dia, mais 1 hora era adiantado em todos os relógios que existiam a bordo.

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Imagem Ilustrativa

Dia 13/7/1944 – quinta-feira – Levantei-me, tomei meu banho e fui logo tomar meu café. Tomado meu café subi ao convés e lá permaneci até tarde. Meu colega levou consigo um quadro de damas e estávamos fazendo uma disputa entre quatro colegas. Ali passamos muito tempo nos distraindo com dama. 1:20hs da tarde foi desviada nossa atenção para muitos  dos nossos colegas que olhavam para apreciar aquilo a que onze dias e meio não víamos, de fato era terra mesmo. Ficamos todos muito entusiasmados,  mas logo no alto-falante do navio nos esclarecia que terra era a nossa direita ou melhor a leste era a costa africana e a oeste ficava situado o maior forte de todos os tempos que pertencia até aquela data aos ingleses. Era o famoso forte de Gibraltar. 2:10hs da tarde passávamos pelo canal ou estreito de Gibraltar que contém 8km de largura passando assim a navegar em águas do Mediterrâneo.

O cruzador que fazia parte do  comboio, momentos após entrarmos no Mediterrâneo tomava outro rumo onde prestamos nossa despedida com a continência oficial e 3 urras em conjunto. Daí passamos a navegar comboiado por 4 destroyers.  Assim passamos a tarde toda muito alegres, afinal já eram 8:00hs e o sol aparecia no meio do céu. Eu pensava entre mim: “como é o mundo, aqui 8 horas é tão cedo, no Brasil eram somente 3hs da tarde e dizia, ainda faltam 2 horas para que meus manos deixem o serviço. Afinal anoiteceu e passamos a noite muito bem.

Dia 14/7/1944 – sexta-feira – tudo andou muito bem durante o dia, alguns  aviões ingleses e americanos sobrevoavam nas imediações mas somente reconhecimento. A noite era 11:30hs quando foi esclarecido alguns aviões inimigos, mas graças ao grande invento do radio foi avisado na base aérea mais perto e logo chegaram uns 40 ou 50 aviões ingleses que durante a noite toda nos acompanharam. Com a graça de Deus nada nos aconteceu até o clarear do dia.

Dia 15/7/1944 – sábado –  o dia inteiro passei observando as margens muito distantes do Mediterrâneo na qual somente via-se muitos postos bem guarnecidos e muitas montanhas, algumas altas. Passamos por Tuniz……., Bizerta e muitos outros postos. As 13:00hs estava eu cortando o cabelo de um colega quando sem esperar ouvimos diversos disparos de canhão 155mm e 105mm. Ficamos todos muito assustados pois foi sem esperar. Saímos todos para o convés com nossos salva-vidas no corpo para ver o que se passava. Observamos bem e vimos que muito longe notava-se que passava um avião, talvez fosse inimigo mas ninguém quis dizer se era. Chegou a hora do jantar; jantamos bem. O resto da tarde nada mais houve. A noite também passamos bem pois com muita tranquilidade.

Dia 16/7/1944 – domingo –  Eram 4hs da madrugada quando fomos tomar nosso café. Momentos mais tarde o navio parava perto de um porto. Ficamos parados mais ou menos 2 horas. Depois desse tempo parado começamos a navegar momentos depois ancoramos no porto de Nápoles. Daí descemos e pegamos um trem elétrico e fomos numa direção que não sei, pois viajamos por um túnel mais de 1 hora, depois descemos e fomos para um acampamento.

Situação dos italianos – era triste ver aqueles habitantes quando chegamos, vinham pedir cigarros e comida e tudo que lhes matasse a fome. Pudera, a cidade estava toda em ruínas, o porto dava até receio de chegar perto. Aquela população andava toda rota, aliás 80%. Em caminho para o acampamento encontrávamos aquelas moças, mulheres e crianças com cestinhas de frutas para trocar por cigarros. Dávamos 3 cigarros e elas nos davam 8 pêssegos, ameixas, peras e outras frutas mais. Acampamos a noite.

Dia 17/7/1944 – segunda-feira – Passamos a noite toda no acampamento. Logo de manhã recebíamos uma lata de conserva e uma de bolacha doce,  etc.

As 11:30hs era dado mais uma ração igual e de manhã. As 5;15hs recebíamos uma outra ração que era o jantar. Anoiteceu, fazia um pouco de frio, pois estávamos em uma cratera de vulcão a mais de 1.000 anos que não se punha em revolta.

Dia 18/7/1944 – terça-feira – Logo de manhã uma boa física e depois ficamos até as 11:15hs sem fazer mais nada. Estávamos descansando quando ouvimos a corneta tocar avançar para o rancho. Eu estava de ordem na Cia. 11:30hs avançamos para o  rancho. Durante o resto do dia passamos no acampamento dormindo sem ninguém nos amolar.

Dia 19/7/1944 – quarta-feira – Tivemos logo de manhã uma boa física das 7:15hs às 8:00hs. Logo depois do café, terminado tudo fomos até a hora do rancho sem fazer mais nada. 11:30hs avançamos para o rancho, a boia era melhor dos outros dias porque tínhamos um rancho novo tudo moderno. Passamos o resto do dia na melhor folga possível.

Dia 20/7/1944 – quinta-feira – Igual aos outros dias, fizemos nossa física, logo depois o almoço e descansamos o dia inteiro.

Dia 21/7/1944 – sexta-feira – Tomamos nosso café da manhã e depois fomos fazer uma pequena marcha de 8 km passando por aqueles bairros onde só se via miséria e nada mais. Aqueles italianos todos saiam para fora de suas casas, mas nas quais nem tinham telhado, tudo amassado pelas bombas inimigas. Passando por um italiano ele nos contou o seguinte: que ele se viu obrigado a perder a vergonha e sujar sua honra de família para poder matar a fome. Também pudera, coisa que os alemães fizeram é demais. Não respeitaram nada, desonrando moças, meninas de até 8 anos, matando sem piedade depois. Depois de vermos diversos efeitos de uma guerra, voltamos, almoçamos e descansamos um pouco. As 13 hs eu era convidado para dar um passeio por Nápoles as 2:30hs. Bem, chegando essa hora eu estava pronto para sair. Saímos e chegamos as 3:00hs o carro nos ficou a espera enquanto passeávamos. Tive oportunidade de ver  mais um pouco dos estragos e miséria em Nápoles. Voltamos e como já era um pouco tarde fomos para as barracas.

Dia 22/7/1944 – sábado – Nada tivemos durante o dia. Meus colegas todos saíram e eu fiquei,  pois me sentia um tanto triste e horrorizado com o que já tinha visto na sexta-feira.

Dia 23/7/1944 – domingo –  Já era o 2º domingo que passava no acampamento em Nápoles. Assim que me levantei tomei o café e fui à missa rezada no acampamento pelo nosso Capelão chefe que nos acompanhou em toda a viagem rezando a Deus Nosso Senhor para nos proteger. Depois da missa entrei em minha barraca e fiquei deitado esperando o almoço. Pouco depois avançava para o rancho, a boia era ótima. Tínhamos salsichas, feijão branco, carne, um pouco de arroz, café com leite, doces em conserva, pão com manteiga etc.  depois passamos o resto do dia descansando.

Dia 24/7/1944 – segunda-feira – tivemos o nosso café da manhã costumeiro, depois uma boa física. Terminado a física não tínhamos o banho porque a divisão tem muita gente e não era possível todos tomarem banho a uma só vez, além disso havia um só compartimento com 30 chuveiros. Ficamos sem o banho nesse dia. Hora do almoço fomos almoçar e um almoço reforçado. 13:00 hs estávamos em forma para recebermos uma teoria a respeito de ataques aéreos muito possível onde estávamos, pois vinte minutos de avião era a distancia nossa das bases inimigas. Depois dessa teoria nada mais tínhamos a fazer. “No momento que escrevo estas frases ouço perfeitamente a artilharia americana martelando as posições inimigas ao norte da Itália”. Estou nesse momento deitado em minha barraca a escrever esta lembrança para poder mostrar a todos se Deus Nosso Senhor me ajudar que eu volte. São apenas 2 horas aqui e são somente 10 horas no Brasil. Hoje sai de ordem na Cia e deitei-me. Eram apenas 9:30hs estava eu registrando umas partes de deserção quando surgiu um italiano muito menino ainda com umas frutas num saco e disse-me: Ei soldato se poi mi amico dame uma camiça e io dou questas frutas”. Fiquei com dó do rapaz mas não tinha roupa para dispor mas o Sargento Barreto também se compadeceu do rapaz e deu umas peças que não usava mais e ele nos deu umas frutas. Assim terminou o dia sem alterações. A noite tínhamos um “show” que era de costume três vezes por semana.

Dia 25/7/1944 – terça-feira – Amanheceu um dia muito bonito nem parecia estarmos em zona de guerra. Tomamos nosso café e logo após formamos como de costume para hasteamento do Pavilhão Nacional Brasileiro, depois nada mais tivemos. Às 11:30hs almoçamos um saboroso almoço, doces de sobremesa e tudo mais. Depois do almoço eram 13:00hs respondemos uma chamada todos uniformizados e equipados mas somente a 6ª Cia para prestar honras a um general americano. Isso foi para mim uma honra ainda maior porque do Regimento nossa companhia foi escolhida para essa honrosa tarefa. Depois disso nada mais fizemos até o fim do dia.

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Imagem arquivo Marcia Pavelosk

Dia 26/7/1944 – quarta-feira – Ao ouvir a alvorada levantei-me e desci para tomar café. Logo depois o Sargento mandou a Cia em forma para cantar o Hino Nacional para hastear a bandeira nacional. Isso 8 horas da manhã; às 9:00hs tivemos uma pequena teoria e só. 11:30hs desci novamente para o rancho para depois descansar mais um pouco. O resto da tarde passamos livres a jogar trilha, xadrez, damas, dominó e até baralho.

Dia 27/7/1944 – quinta-feira –  Tivemos logo após o café uma marcha de 12 km com disciplina rigorosa. Pois tanto o perigo era fora do acampamento como dentro, pois no acampamento precisamos andar com cuidado que até minas contra nós tinha enterrada na redondeza. O resto da tarde não fizemos mais nada além de escrever.

Dia 28/7/1944 – sexta-feira – Dia da minha promoção às 6:30hs da tarde.  Tivemos uma manhã muito bonita apesar de estarmos numa cratera de vulcão. Tomamos nosso café, logo mais tarde almoçamos e depois jogávamos damas, dominó, etc até chegar a hora do jantar, e como chegou depressa. A noite eram 3 horas da madrugada quando acordei assustado com todas as baterias antiáreas em pleno funcionamento que parecia na escuridão da noite uma cidade aérea toda iluminada. Durou seguramente uns 40minutos.

Dia 29/7/1944 – sábado – Era uma coisa louca ver que todos comentavam o acontecimento da noite  passada, mas foi tudo acalmado com o toque de “avançar para o café”. Depois tivemos uma pequena marcha de 18 km onde fomos ver a miséria reinante em toda aquela região de Nápoles. Voltamos, descansamos um pouco e logo veio a hora do almoço onde o efeito da marcha nos deu um apetite louco e a boia ajudava bastante pois estava boa. O resto do dia nada mais fizemos,  senão descansar até vir o jantar que não demorou a chegar. Nada mais fizemos senão dormir até amanhecer o dia.

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Imagem arquivo Marcia Pavelosk

Dia 30/7/1944 – domingo – Tomei o meu café e logo mais me aprontava para ir à missa que ia ser rezada no acampamento. Almoçamos, dormimos e nada mais durante o dia.

Dia 31/7/1944 – segunda-feira –  Logo de manhã tivemos a notícia de que seriamos deslocados para o norte de Roma no dia 2 de agosto. Mais tarde ouvíamos o toque do café, e mais tarde ainda avançamos para o almoço onde depois descansamos deitados à sombra de umas fruteiras. 5:30hs da tarde jantamos e depois  fomos dormir. Só.

Dia 01/8/1944 – terça-feira – passamos o dia todo comendo e dormindo até a noitinha.

Dia 2/8/1944 – quarta-feira – Alvorada para nós era tocada ás 3hs da madrugada, café às 4hs, embarque às 6:30hs da manhã na estação de Bagnoli subúrbio de Nápoles. Eram 8hs quando saímos em viagem onde viajamos 11 horas de trem até a estação de Litoria. Pelo caminho nada mais via-se do que destruição. Eram locomotivas elétricas e a carvão destruídas, estradas de ferro, pontes, cidades, portos, linhas elétricas e telefônicas, automóveis, tanques e muitas outras coisas mais. Desembarcamos em Litoria onde mais de 200 caminhões nos esperavam para nos levar até a cidade de Sevitavéquia. Pegamos o caminhão as 7:30hs e chegamos ao local as 3horas da madrugada.

Dia 3/8/1944 – quinta-feira – Quando amanheceu o dia eu acordei com um sol muito forte no rosto porque dormi no tempo e via que o lugar onde me achava muitos combates havia tido porque pelo chão notava-se os sinais de minas terrestres, balas de canhão e muita munição jogada. Eram 12hs quando fomos almoçar e eram 4hs da tarde quando acabava de arrumar minha barraca. Às 6 hs já tinha jantado e as 7:30hs já dormia.

Dia 4/8/1944 – sexta-feira – Era o 2º dia do novo acampamento que tão perto da linha de frente se achava, a menos de 15 minutos a aviação alemã nos poderia atacar. Nesse local corri algumas vezes aos moradores da redondeza onde todos me diziam a mesma coisa, que havia tido forte combate nessa região e que a aviação aliada não perdia sequer uma bomba pondo-as em cima dos ninhos de baterias antiaéreas. Afinal a hora do almoço chegou e depois de ter “manjado bene ” fui dormir até a hora do jantar, depois fui dormir para me preparar para o dia seguinte.

Dia 5/8/1944 – sábado – Sendo o primeiro dia que passava nesse lugar não quis sair para parte nenhuma. Passei o dia todo descansando e pensando em minha família que tão longe de mim estava. Cheguei a sonhar que a guerra tinha acabado e que eu estava em São Paulo junto dos meus pais e irmãos. Passou-se assim o dia todo.

Dia 6/8/1944 – domingo – levantei-me e logo de manhã fui à missa rezada no acampamento. Isto depois de tomar o café costumeiro. Mais tarde as 11:30hs almocei e depois fui escrever, onde mais tarde pegava num sono muito gostoso que só acordei com o toque de rancho. Terminava o domingo e nada mais aconteceu.

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Imagem arquivo Marcia Pavelosk

Dia 7/8/1944 – segunda-feira – Tínhamos sido avisados que esse dia tínhamos uma marcha de 24km, como de fato fizemos. Esse dia o almoço saiu as 3hs e depois de 2hs veio o jantar. Dormi muito porque ainda sentia muito a marcha.

Dia 8/8/1944 – terça-feira – Apesar do calor ser muito grande preparei-me para ir a uma instrução que ia ter pouco distante do acampamento. Pouco mais tarde voltamos para almoçar. Depois de dias com almoço ruim por causa da desorganização da mudança, tivemos um almoço bom. Mais tarde jantamos e depois fui ouvir umas músicas paraguaias tocada pelos soldados mato-grossenses.

Dia 9/8/1944 – quarta-feira –  Eram 4hs da madrugada quando acordei muito assustado com uns trovões muito fortes e logo após uma chuva com vento que foi de arrasar as estacas das barracas, saí para fora e vi que todos os meus colegas plantavam estacas que o vento arrancara sem piedade. Logo amanheceu o dia e ainda continuava a chover não muito forte. Logo que parou a chuva fomos ao rancho, mas também só deu tempo para mim pois passou o dia todo chovendo e eu dormindo como um urso branco dorme no inverno.

Dia 10/8/1944 – quinta-feira – sem condições de leitura

Dia 11/8/1944 – sexta-feira – Dia lindo, sol bem quente mas bom pois tivemos uma boa física que fiz com a maior vontade, aliás uma das minhas instruções prediletas.

Dia 12/8/1944 – sábado – Pouco amanhecia o dia e já tínhamos marchado uns 10km em direção ao mar. Chegado na praia tínhamos ordem de tomar banho pois  ……. divertíamos a valer, veio a maior tristeza. Um de nossos colegas acabava de se afogar no mar. No momento que vi meu colega afundar já era tarde para o salvamento………era a 3ª vez que ele descia. Viemos embora e lá ficou uma guarda para guardar o corpo do infeliz.

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Imagem arquivo Marcia Pavelosk

Dia 16/8/1944 –  quarta-feira – 6:30hs da manhã era tocado a alvorada, nunca desde que estava no exército tinha ouvido um toque de alvorada tão bem tocado e tão bonito como este dia. Levantei-me pensando muito em minha família, coisa que nunca tinha esquecido, mas esse dia pensava mais do que os outros. Dias atrás tinha recebido uma carta vinda de Bauru e dentro dela uma fotografia tão linda da mulher que sempre gostei e nunca pude esquecê-la. Passei o dia todo a apreciá-la junto a de minha família. Esse dia passou muito depressa para mim, veio o café  e o almoço e o jantar sem que eu esperasse.

Dia 17/8/1944 – quinta-feira –  Outro dia que acabava de surgir e se findar sem nem uma carta ou uma palavra de ninguém, de consolo. De minha família já fazia e meses e 2 dias que me achava na Itália e ainda não tinha notícias dos meus.

Dia 18/8/1944 – sexta-feira – Logo que tocou a alvorada veio um dos plantões nos acordar e dar uma ordem superior que era a seguinte: Do Cmt. da D.I.E. para os cmts. Subordinados, ordem para as 3:00hs levantar acampamento. Não tardou a chegar as 3:00hs. Esse dia entrei de cabo de dia no transporte de água para o acampamento. Estava meio desgostoso esse dia e fui junto com uns colegas levando comigo uma mouser e 48 tiros. Saí, fui andando quando meus colegas descobriram pelo volume que fazia a arma; logo perguntaram:  O Cabo, o que o senhor vai nos aprontar? Nesse instante parece-me que uma força maior apoderou-se de mim retifiquei o que ia fazer dizendo: tenho aqui uma lata e vamos gastar estes tiros treinando assim nossa pontaria. Todos ficaram muito contentes e continuamos palestrando até o local do treinamento. Gastamos todos os tiros e voltamos até uma casa onde fomos beber um vinho. Bebi tanto que não enxergava mais nada. Voltei até o acampamento dormi um pouco e era acordado pelo Sargento meu colega de barraca. Ele já tinha desarmado a barraca e eu dormia ainda. As 8 horas da noite partimos para destino ignorado. Nessa tarde chovia um pouco mas não impediu nossa partida, sei que viajamos a noite inteirinha. Vi 2 colegas morrerem esmagados ao virar um dos caminhões do comboio. Chegamos afinal. Já era 19/8.

19/8/1944 – sábado – Me achava num outro local onde o combate tinha sido feroz. Estava bem pois era só uva que se via. Armei minha barraca e dormi o resto do dia.

Dia 20/8/1944 – domingo – Primeiro domingo que passava no novo acampamento, mas que domingo mais divertido que passei. Saí logo  de manhã, fui a cidade onde lá encontrei uma família de italianos que tem um filho em São Paulo pois passei o dia até a noite na casa dessa gente que me trataram como um filho.

Dia 21/8/1944 – segunda-feira – Levantei-me com um pouco de dor de dente. Almocei e a dor continuava mais forte, pois cheguei a ponto de chorar porque  a dor era demais. Passou-se a hora do jantar e nem vi. A noite inteira doeu-me a ponto de ficar meio louco.

Dia 22/8/1944 – terça-feira –  Já me sentia bem melhor do dente, amanheci bem disposto para ir a uma demonstração na qual eu ia tomar parte como Cabo Cmt. do Grupo de Tiro. Fiz tudo muito bem onde fui elogiado pelo Cmt. da minha Cia. Nesse dia não fui mais a instrução, apenas descansei porque a  demonstração foi um tanto dura.

Dia 23/8/1944 – quarta-feira – Não fui a instrução pois me encontrava de serviço. A noite saí em companhia de um soldado passear. Encontramos uma casa de italianos, tomamos vinho em cia deles e voltamos para o acampamento.

Dia 24/8/1944 – Quinta-feira – Um dia muito quente que aliás era em geral todos os dias. Fui a uma instrução saindo às 7hs da manhã e voltando somente as 3 da madrugada.

Dia 25/8/1944 – Sexta-feira – Fiz a mesma demonstração do outro dia para o meu batalhão ver somente que em vez de voltar e descansar fiquei até as 1 hora da madrugada na instrução de tiro real.

Dia 26/8/1944 – sábado – Fui ao campo fazer instrução com muita dor de dente, fiquei até as 4 hs da tarde, pedi licença ao meu Cmt para voltar ao acampamento por motivo justificado.

27/8/1944 – domingo – Após meu café fui a missa rezada de fronte a minha Cia. Pedi a Deus que nos guardasse e que olhasse pelas nossas famílias que tão longe se encontravam. Terminada a missa esperei o almoço. Depois do almoço saí com meu colega  onde fomos visitar uma cidade com o nome de Rosignanos. Fiquei lá até cerca de 9 horas da noite e depois pegamos um carro e voltamos para o acampamento.

Dia 28/8/1944 – Segunda-feira – Levantei-me bem cedo mas não fui a instrução para poder ir ao dentista. Depois do almoço saí dar umas voltas e só voltei quando já eram 7:30 da noite.

29-08-1944 – terça-feira – Também não fui à instrução no período da manhã porque o dentista disse-me que voltasse novamente noutro turno. Na parte da tarde passei no acampamento sem fazer nada.

Dia 30-8-1944 – quarta-feira – Logo de manhã fui ao dentista. Mandei arrancar o dente no qual sofri muito porque de 6 injeções nenhuma pegou e mandei arrancar assim mesmo. Passei o dia inteiro desanimado com o corpo mole. Nesse dia esperava carta por ser quarta-feira. Passou-se sem eu saber notícias da minha casa, que aliás, faziam 2 meses e já havia escrito 4 cartas sendo 3 de Nápoles e uma de Tarquinia e nenhuma resposta.

Penso todos os dias: será que ninguém recebeu minhas cartas, ou se receberam, responderam e extraviaram-se.

Dia 31/8/1944 – Quinta-feira – Foi um dia péssimo para mim,  pois além da dor de dente que me aborrecia fiquei só no acampamento o dia inteiro. Esse dia para mim foi a maior agonia para chegar ao fim.

Dia 1/9/1944 – Sexta-feira –  Já estava bem melhor, tanto é que fui à instrução na qual saí às 7 horas da manhã e só regressei às 2:30hs da madrugada.

Dia 2/9/1944 – Sábado – De manhã dormi até as 9hs, pois levando em consideração a instrução anterior não tive o 1º expediente, somente o 2º. Fomos ao campo 2h e voltamos à 6 da tarde.

Dia 3/9/1944 – Domingo – Amanheci pensando muito em minha família, até parecia sonho, mas passei a mão por cima e logo tirei a dúvida pois encontrei o pano da barraca. A tarde saí em companhia de um 3º Sargento e fui direto a praia de Cecina onde encontrei o mar um tanto bravo com uma ventania terrível. Voltei tarde – 11:50 hs.

Dia 4/9/1944 – Segunda-feira – Nada tivemos. Descansamos o dia inteiro e pensei o dia todo também na minha família.

Dia 5/9/1944 – terça-feira – Logo de manhã após o nosso café fomos apanhar nossas armas e fazer uma limpeza para termos um estudo mais tarde. Depois do almoço descansamos. Jantamos e logo após arrumamos nosso material para uma instrução noturna. Saímos as 7 hs passamos a noite no mato. Só voltamos no outro dia as 12:30hs

Dia 6/9/1944 – quarta-feira – Voltamos do mato e fomos dormir por ordem do nosso Capitão Cmt. e por nos acharmos demais cansados passou o dia 7 /9 – dia da independência do Brasil tivemos uma missa em louvor a essa data. O resto do dia passei de  guarda

Dia 8/9/1944 – quinta-feira Saí de serviço as 4:30hs da tarde. Estava muito cansado mas não deixei de ir a uma procissão em comemoração a data natalina de N.S.Aparecida. Uma procissão muito bonita.

Dia 14/9/1944 – quarta-feira, achávamos em caminho do front, (marcha de aproximação) pela 1ª vez.

Dia 15/9/1944 – quinta-feira às 4 horas da madrugada acho que vamos a menos de 100 metros do (tedesco) alemão.

7 horas da manhã éramos iluminados pelo sol que apesar de muito cedo já era quente, e achávamos em lugar bastante visível para o inimigo, e começamos a receber os primeiros fogos de metralhadora, 3 horas da tarde o inimigo notou o nosso movimento e começou a nos bombardear com fogos de morteiro e artilharia.

Não recuamos durante o dia, mas as 7 horas da noite já era um pouco escuro e fomos obrigados a recuar devido o forte bombardeio sobre nossas posições. Passamos a noite em nova posição e ao amanhecer um comandante escalava-me para uma guarda com os soldados, todos sob meu comando para guardar uma estrada, (ordens, não deixar civis e viaturas passarem para as linhas inimigas). Desempenhei minha função da melhor maneira que pude.

Nessa guarda permaneci atento durante 6 dias, o qual durante esse período de tempo foram feitos 8 prisioneiros.

Dia 22/9/1944  – quinta-feira recebíamos ordens para avançarmos, 11 horas da manhã já tínhamos deslocado e ocupado novas posições

Dia 23/9/1944 – sexta-feira  novamente recebíamos ordens, não para avançarmos, só a mim para tomarmos a qualquer custo a cidade, Pescalia e  Piano, executamos tudo com a melhor maneira fazendo 2 prisioneiros, sendo um ferido e outro não.

Dia 1/10/1944 -novamente deslocávamos para ocupar um outro front no vale do Terquio, de entrada ocupamos Bologna e Barga com forte pressão inimiga.

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Imagem ilustrativa

Dia 6/10/1944 novamente deslocávamos para ocupar a cidade de Galicano, sob forte bombardeio de morteiro e artilharia o qual deteu-nos seguramente 5 horas, onde causou a perda de meu primeiro companheiro Romeu Cocco, companheiro de luta, ocupamos a cidade às 8 horas da noite sempre sendo bombardeada.

Dia 8/10/1944 , meu pelotão recebe ordens para fazer uma patrulha de reconhecimento. Saímos as 8 horas da manhã e começamos a subir morros. Logo mais adiante fomos descobertos e era só metralhadora que trabalhava auxiliada por morteiros. Retornamos a noite para melhor conservação dos homens sem perder nenhum soldado.

Dia 12/10/1944 novamente subíamos o morro para apoiar o recuo de uma patrulha da 1ª Cia comandada pelo tenente Barbosa o qual perdeu a vida junto de um seu sargento e muitos praças.

Dia 15/10/1944 subíamos o morro para ocupar a cidade de Molaçana e outras três vizinhas, ali permanecemos durante vários dias – sol forte, bombardeio, desta vez as bombas de canhão russo 210mm 50 kilos a granada.

Mudamos novamente de front e fomos substituir um batalhão de americanos que se encontrava em uma posição a esquerda de Bolonha no vale do Reno.

Na noite da substituição ainda cavamos o nosso Fox-oil  quando fomos surpreendidos por uma patrulha inimiga e fomos mais espertos e disparamos primeiro e todos ficaram no chão a menos de 10 mts. de nossas posições. No dia seguinte nós ainda não tínhamos bastante certeza se o inimigo estava ou não longe de nós e começamos a andar pela crista do morro em pleno dia, quando a tarde fomos surpreendidos, desta vez, por forte barragem de artilharia sobre nossas posições. Aguentamos firmes.

Navio volta 300x199 - Diário de Guerra de Ex-Combatente da Força Expedicionária Brasileira
Imagem arquivo Marcia Pavelosk

Dia 12/11/1944 um meu companheiro que se encontrava no hospital acabava de chegar às nossas posições. Fui buscá-lo no P.C. do Comandante, levei-o para cima, mas como o morro era bastante alto, ao chegar através de um barranco  paramos para descansar. Depois de termos descansado  fomos  para os Fox-oil. Lá paramos fora do buraco na seguinte posição: eu deitei-me apoiando-me pelo cotovelo no chão. Ele sentou-se ao meu lado meio obliquo a direita meu Sgto sentou-se a minha esquerda e conversávamos quando em dado momento senti um forte estalido e ao mesmo tempo um gemido: um projétil de fuzil acabava de passar pelo vão de meu braço e pegou meu companheiro que acabava de chegar do hospital. O projétil quebrara o braço e ao mesmo tempo o joelho da perna direita. Fora imediatamente para o hospital.

Dia 15/11/1944 acontece que quando amanhecia o dia, eram 6:30 da manhã, meu companheiro que estava de sentinela sai do Fox-oil de combate e vem para a retaguarda chamar o outro para entrar na hora, mas naturalmente o tedesco que o tinha visto ficou com seu fuzil marcando o ponto em que meu companheiro entrou. O outro “Ferrugem” levantou-se rápido mas quando meio corpo seu se achava fora do buraco, recebe um tiro pela costas onde poucos minutos mais tarde veio a falecer. Antes de falecer pediu-nos que tirasse do bolso de sua calça uma certa quantidade de liras e mandasse à sua mamãe e nos disse ainda: Meus companheiros, meu descanso já chegou eu bem sei, peço a vocês que ficam que N.S. Aparecida os proteja sempre, e já não teve forças para dizer mais nada. Morreu.

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Imagem Arquivo Marcia Pavelosk

Dia 20/11/1944 – 4 horas da madrugada acabávamos de ser substituídos por um batalhão do  1º RI e fomos para um descanso em uma cidade chamada Borgo-Capane  depois de três meses de combate. Ali ficamos 10 dias quando um dia recebemos ordem para ocupar uma outra cidade uns 5 kms mais adiante. Ocupamos.

 Dia 2/12/1944 uma madrugada fomos acordados para prepararmo-nos para partir imediatamente para apoiar um forte contra-ataque alemão. Chegamos ao destino 6 horas da manhã, ficamos dois dias nessa posição debaixo de forte fogo de metralhadora e artilharia e apesar de tudo um frio horroroso, uma neve que nos deixava com o corpo todo duro.

Dia 5/12/1944 já estávamos novamente na cidadezinha.

Dia 15/12/1944 me encaminharam para o hospital onde fui fazer um tratamento de começo de reumatismo. Fiquei 8 dias no hospital e no dia 23 de dezembro de 1944 tornava em minha companhia. Passei o dia de Natal no front com uma neve com mais de um metro da terra.

Dia 26/12/1944 sou avisado pelo Cmt que sou transferido de companhia e batalhão no mesmo dia apresento-me na nova companhia C.P.P.I. do 1º Batalhão. Nessa companhia permaneci 20 dias na S. de Cmt onde depois de estar em nova função fomos repousar 1 mês em Porreta-Terme.

Dia 24/01/1945 tiram-me da S. de Cmt. E me dão a função de Cabo de instrumento do Pelotão de Morteiro.

Dia 26/01/1945 encaminhamos para as mesmas posições em Riola-Vechia no Vale do Reno. Trabalhando em nova função sempre me saí bem, quando havia pedido de tiros de morteiro eu auxiliava em mandar para as linhas inimigas minhas 8 ou 10 granadas também. Nessa posição ficamos até março.

Dia 2/3/1945 saímos e viemos para a retaguarda em Sed Christo, ali ficamos a noite.

Dia 3/3/1945 recebíamos ordem para preparar que dia 4 iríamos atacar Doprassasso e Castel Nuovo

Dia 4/3/1945 saimos e as 9:30 hs da manhã depois de forte bombardeio de artilharia e aviação da F.A.B. iniciamos o ataque. Quando foi 9 hs da noite já era dada as posições como “conquistadas”.

A queda desse morro simplificou todo nosso movimento de transporte, porque Soprassosso era  um pico muito alto onde o inimigo tinha suas vistas sobre nós.

Revista Manchete marcha ao Vale do Panaro3 e1508513408416 300x129 - Diário de Guerra de Ex-Combatente da Força Expedicionária Brasileira
Imagem arquico Marcia Pavelosk

Dia 8/3/1945 deslocamos para uma nova posição Gagio Montano e Tem Belvedere nessa posição perdemos mais um de nossos elementos na  permanência de um mês e pouco. Daí deslocamos e fomos nos preparar para a grande ofensiva. Um mês de preparativos e quando foi em 12 de abril começamos a ofensiva em direção norte. Eu carregava comigo como instrumento um binóculo e um radio receptor e transmissor 310. Íamos sempre avante em nosso 1º objetivo marcado que era a cidade   de Zócca, ali ao aproximarmos da cidade fomos recebidos com forte resistência por parte dos alemães.  No dia seguinte avançamos e conquistamos a cidade depois de forte bombardeio dos tedescos. Pelo radio recebi a ordem de avançarmos até a cidade de Giulia e até lá fomos avançando sem resistência, dormimos e continuamos a avançar no dia seguinte, entramos e passamos o rio Panaro todo minado sem nada nos acontecer.

Voghera 24.05.1945 300x199 - Diário de Guerra de Ex-Combatente da Força Expedicionária Brasileira
Imagem arquico Marcia Pavelosk

Avançando sempre fomos em  prazo de poucos dias conquistando Modena, Regio Emília, Levisano e afinal chegamos em Colechio conquistamos e avançamos até Pontescodonha onde ouve encarniçados combates pelas ruas. O tedesco sempre recuando

1ª noite em Pontescodonha fizemos forte concentração de morteiros, tanques, artilharia etc.

O alemão não podia recuar devido ter por sua retaguarda a 10ª D.M. Americana e a cada flanco tropas brasileiras e pela sua frente o 1º do 6º R.I. que não dava um minuto de folga.

Na 2ª noite quando tardinha vimos lá um fundo da estrada 3 soldados com bandeira branca se aproximar de nossas linhas

Eram 3 parlamentares alemães que vinham tratar de uma rendição incondicional por parte deles. Logo mais tarde voltaram novamente pelo que parece nada tinham arranjado. No dia seguinte bem de manhã, ordem de cessar fogo em toda frente. 4:50 da tarde começava a passar pelas nossas linhas os primeiros elementos alemães feridos pela forte concentração de nossos fogos. Passaram somente feridos em número de 800 alemães e alguns civis. 3 dias seguidos dia e noite era só passar tedesco que não acabava mais. Para mim peguei um anel de prata com uma bonita pedra preta, uma pistola e mais algumas coisinhas.

Estava cessada as hostilidades nos campos de luta na Itália.

De Pontescodonha saímos e fomos sempre para frente, para a alta Itália. Chegamos  em Voghera onde permanecemos um mês e cinco dias, pois dessa cidade e fomos conhecer Bolonha, Genova, Veneza, Turim, Milão, Padua e até as primeiras cidades da França vizinhas da fronteira.  

Dia 7/5/1945 termina a guerra na Europa. Saímos de Voghera e voltamos para a  baixa Itália onde acampamos em um lugar chamado Francolisse a 56 kms de Nápoles. De Francolisse fui visitar Roma e também a cidade do Vaticano, a catedral de S.Pedro no Vaticano onde achei tudo muito bonito.

Fui a Nápoles, depois Pompeia visitar as ruínas feitas pela erupção do célebre Vesúvio mil anos antes de Cristo.

Esse diário você também encontra na Revista Segunda Guerra Brasil Nº03

Sobre Ricardo Lavecchia

Ricardo Lavecchia tem 35 anos, nascido no dia 22/01/1982. Natural de Santo André – SP Trabalha como vedendor, desenhista nas horas vagas, sempre procurou novas idéias em imagens de livros e jornais, e foi numa dessas buscas que descobriu outra paixão: A Segunda Guerra Mundial. Tinha, então, 18 anos e se deparou com o livro: "Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália" de Rubens Braga. Ao invés de apenas escolher uma imagem para desenhá-la, resolveu ler o livro. O fascínio pelo assunto o tomou por completo. Em suas pesquisas sobre o tema, descobriu não só relatos de guerra, mas amizades sinceras de veteranos, como o Sr. Antônio Cruchaki, veterano do 9º BEC e o falecido Capitão Rocha da Senta a Pua. E-mail: ricardo @ segundaguerra.net

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