Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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Crônicas de Guerra – Terceiro Sargento Paschoal Caputo

caputo Terceiro Sargento Paschoal Caputo – 6º RI

Natural de Cruzeiro, Estado de São Paulo, Filho do Sr. José Caputo. Pascoal tinha lá uma casa de comercio, lidava com ferro velho, fábrica de banha e muitos outros negócios.

Prisioneiros fáceis

Dezembro, 1944

O TERCEIRO-SARGENTO, Pascoal Caputo, nº3. 294 é um rapaz forte e bem apessoado, filho de Cruzeiro, Estado de São Paulo, onde vive (Rua Dr. Carlos Varela, 384) seu pai, Sr. José Caputo. Pascoal tinha lá uma casa de comercio, lidava com ferro velho, fábrica de banha e muitos outros negócios. Mas há dois anos deixou todos os negócios, vestiu uma farda- e hoje é um homem que já fez 23 prisioneiros nesta guerra.

Dos 23 prisioneiros de Caputo, 22 são italianos e um alemão. Mas vamos contar uma historia que aconteceu uma noite com ele. Foi na primeira quinzena de novembro. Assim pelas nove e meia da noite, sua companhia teve ordem de ir ocupar uma posição de onde iam sair soldados sul-africanos. Pascoal ficou comandando uns 17 homens de sua Seção de Morteiros. Quando chegaram à posição, os sul-africanos ainda estavam saindo, e demoraram um pouco a carregar suas coisas. Os soldados de Pascoal ficaram sentados numa calçada, fumando, enquanto o sargento resolvia o lugar exato onde devia passar a noite.

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Paschoal Caputo - Arquivo pessoal José Guilherme Caputo

No meio dos soldados brasileiros apareceu um sul-africano que a toda força queria conversar com nossos homens. Como ele não falava português, os pracinhas acharam que lê estava bêbado.

-Non capisco niente,anda lá , lá.

E um pracinha apontava para o grupo de sul-africanos que ia se retirando.O homem, porem, insistia com sua língua arrevesada. Afinal um pracinha disse:

-Esse camarada está de “cara cheia” e é capaz de ficar ai com a gente.

E segurou no braço do homem, empurrando-o para o lado dos sul-africanos e dizendo:

– Cui niente parlare inglese. Ven cua…

O homem foi então para onde estavam os sul-africanos e ficou por lá. O sargento Pascoal indagou  para um lado e outro, e acabou resolvendo passar a noite numa casinha que havia ali. Mandou que os homens fossem para lá e se arrumassem para passar a noite, recomendando que não fizesse muito barulho porque a linha alemã era muito próxima. Foi na escuridão até um lugar perto fazer ligação com o tenente. Quando voltou, encontrou o soldado Roberto Rauch, de sua seção que lhe disse:

– Sargento, eu acho que amanhã nos vamos ter que cavar uns foxholes. Os alemães estão deste lado. Num morro que tem aqui à esquerda está um pessoal nosso, mas os alemães têm uma metralhadora que não deixa ninguém passar ali…

O pracinha continuo a dar informes, e o sargento ficou admirado dele saber tanta coisa sobre a posição que acabavam de ocupar.

– Como é que você sabe disso?

– Foi um sul-africano que me explicou. Ele está ai dentro.

– Uai, você fala inglês?

– Não, mas ele fala alemão, e eu também. Ele me contou em alemão.

O sargento resolveu então ir ver o tal sul-africano para arranjar mais informações, levando o soldado Roberto como intérprete. Encontrou seus homens já instalados na casinha, e, sentado no meio deles, fumando um cigarro, o mesmo sujeito que antes estava na calçada. O sargento começou a interrogá-lo, e a certa altura, acendendo sua lanterna, achou alguma coisa esquisita no uniforme do homem.
– Do you speak inglish?

O homem respondeu que não.

– É um tedesco!

Era mesmo. O tedesco estava a três ou quatros horas querendo explicar que era tedesco e vinha se entregar e os sul-africanos achavam que ele era brasileiro, e os brasileiros achavam que ele era sul-africano, coisa muito natural naquele escuro.

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Plaqueta de Identificação de Paschoal Caputo

Quando eu vi que ele tinha uma águia no bibico – me conta o sargento – gritei que ele era tedesco. O homem continuou calmo. Botei um soldado tomando conta dele, porque estava muito tarde para mandar levar o homem. Isso já devia ser meia-noite. Tratamos de arrumar um jeito de dormir. Eu me arrumei embaixo da mesa. O alemão estendeu o capote num canto e deitou-se. Era um sujeito enorme, já meio velho e muito calmo. Disse que tinha vindo se entregar porque estava cansado da guerra. Imagina que tinha pegado a batalha de Stanligrado e de Kiev…

O sargento conta que ficou com pena vendo o homenzarrão com a cabeça no tijolo, e deu um capote para ele fazer de travesseiro. Alguns soldados deram-lhe pedaços de chocolate e cigarros.

– Baiano, você fica acordado e toma conta desse alemão.

Baiano – Florivaldo Alves do Nascimento, nº 1.326 – ficou acordado e os outros, inclusive o alemão, começaram a dormir.

De madrugada, o sargento acordou com um grito e um ruído de alguém que destravava a arma. Acendeu a lanterna e viu que o alemão estava em pé, e Baiano também se levantara, e apontava o fuzil para o tedesco, que estava perto da porta.

– Não sai não, que eu passo fogo!

Mas apesar da ameaça de Baiano, o alemão ia saindo. O sargento saiu de baixo da mesa e pulou para a porta, barrando a retirada do prisioneiro.

– Ele me pôs a mão no peito – conta o sargento – e eu pensei assim:

“Estou roubado com esse homem.” O senhor compreende, era um bruto homem, e se o soldado atorasse podia me pegar… Agarrei-o pela gola, e ele agarrou minhas mãos e fez soltar. O senhor precisava ver que mãos tinham aquele desgraçado: cada uma dava duas das minhas…

O sargento empurrou o alemão, e o soldado mudou de posição, encostando o fuzil no peito do homem.

Aí outros soldados haviam acordado com o rumor, todo mundo nervoso – menos o alemão. Depois de falar várias coisas que ninguém entendeu, fez um gesto que todos compreenderam. O tedesco queria ir lá fora – com licença da expressão – para fazer uma necessidade…

22 italianos presos

Esse tedesco foi o 23º prisioneiro do sargento.

– Os outros 22 foi naquele desgraçado lá em San Chirico… Foi quando nossos homens ainda estavam no vale do Serchio. O tenente Almenor Guimarães, de um pelotão de petrechos, mandou o sargento Caputo com quatro soldados procurar ligação com o capitão Aldenor Mais, comandante da companhia. O sargento saiu, mas voltou sem poder sem poder falar com o capitão, porque o caminho para o PC estava batido por duas metralhadoras nazistas. O sargento viu-se em situação apertada com seus homens, e quando quis voltar ao ponto de partida, viu que não podia. Resolveu então recuar pro outro lado, até duas casas que havia ali. Chegando lá, encontrou vários soldados que tinham descido da montanha. Eram uns 12 ou 15 homens.

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3º Sargento Paschoal Caputo - Arquivo pessoal José Guilherme Caputo

O sargento dispôs seus homens trás de uma casa enquanto resolvia o que fazer. Um dos soldados apareceu então, dizendo que vinham muitos alemães descendo o morro pelo lado da casa. O sargento mandou que seus homens esperassem o inimigo ali e foi sozinho pelo outro lado, com a intenção de ficar por trás dos alemães:

– Eu pensei assim: estamos desgraçados. Dei ordem aos homens de aguentarem ali. Eu ia passar pelo meio das duas casas, e quando os alemães viessem, eu ficaria atrás deles. Mesmo sendo eu sozinho, eles podiam pensar que era mais gente e tratariam de recuar, pensando que estavam cercados. Mas quando eu entrei no corredorzinho entre as duas casas, dei de cara com um soldado. Levei um susto desgraçado e na mesma hora apontei minha arma para atirar. Atrás dele tinha outro, também com o braço levantado, e trás mais outro – era uma fila que até o fim daquele corredor.

O sargento espiou e viu que os homens que estavam mais atrás não tinham levantado o braço, e receou que algum deles lhe desse um tiro lá de trás. Gritou que todos levantassem os braços, mas muitos continuaram como estavam.

– Então dei um tiro no chão, perto do pé de um italiano, e todos levantaram os braços e começaram a gritar que eu não atirasse. Aí eu gritei para os meus homens que estavam esperando o inimigo do outro lado de casa, e eles vieram. Saiu aquela fila de italianos, e eu fui contando: eram 22. Quando eles viram os soldados chegar correndo com fuzil na mão, ficaram com tanto medo que chegavam a tremer. E eu, para falar a verdade, também estava com medo, com aquela italianada na minha frente. Qual? Aqueles não queriam nada com a guerra…

Crônicas Da Guerra na Itália (Rubem Braga)

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Sobre Ricardo Lavecchia

Ricardo Lavecchia tem 35 anos, nascido no dia 22/01/1982. Natural de Santo André – SP Trabalha como vedendor, desenhista nas horas vagas, sempre procurou novas idéias em imagens de livros e jornais, e foi numa dessas buscas que descobriu outra paixão: A Segunda Guerra Mundial. Tinha, então, 18 anos e se deparou com o livro: "Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália" de Rubens Braga. Ao invés de apenas escolher uma imagem para desenhá-la, resolveu ler o livro. O fascínio pelo assunto o tomou por completo. Em suas pesquisas sobre o tema, descobriu não só relatos de guerra, mas amizades sinceras de veteranos, como o Sr. Antônio Cruchaki, veterano do 9º BEC e o falecido Capitão Rocha da Senta a Pua. E-mail: ricardo @ segundaguerra.net

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2 comentários

  1. José Guilherme Caputo

    Caro Ricardo,
    Obrigado mais uma vez pelo carinho e consideração para com meu pai.
    São muitas emoções. Mesmo!!
    Obraços

  2. Show! Meu avô paterno também se chamava Paschoal Caputo, não o tenente da matéria, mas com certeza parente dele, afinal sempre que eu visitava São Lourenço (MG), meus pais passavam por Cruzeiro e me mostrava na pracinha a estátua onde tinha o nome do Paschoal Caputo. Lembro eu moleque visitando alguns parentes de lá! Mas nunca mais tive notícias.

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