Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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Crônicas de Guerra – Ações na Terra de Ninguém

Durante o período em que o I/11º RI defendeu o Quarteirão de Iola, lançou inúmeras patrulhas de reconhecimento e emboscada, em que se procurava delinear as posições ocupadas pelo inimigo e as unidades que as mantinham, o que procurava grande reação por parte dos alemães, constituindo-se na zona mais batida de toda a FEB, como bem assinalavam os boletins de informações da 1º DIE.

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Vale do Rio Panaro

A posição por nós ora ocupada dominava inteiramente o vale do Rio Panaro, descortinando novos horizontes, tal côo ocorrera com os alemães, em relação ao Rio Reno, durante o tempo que dominaram essas mesmas alturas.

Entre os fatos marcantes de nossa permanência no Quarteirão de Iola teve destaque especial a descoberta, por parte de nossas patrulhas um grande deposito de munições deixado pelos alemães quando  da ofensiva aliada que os desalojou das alturas daquele divisor de águas. Tal depósito, de difícil acesso por nosso lado, encontrava-se localizado agora na “terra de ninguém’, a sudoeste de Montese e próximo as atuais linhas inimigas, protegido assim por sua vigilância e tiros.

A descoberta desse grande depósito de munição de artilharia de morteiro 88 mm, que os alemães deviam estar planejando recuperar, levando-o de volta ao interior de suas linhas, fez com que o Major Lisboa deliberasse ser de capital importância sua destruição, o mais rápido possível, embora não fosse nada fácil sua execução.

Tal destruição exigia homens calmos, inteligentes e especializados, pois não se tratava de uma missão de patrulha – pois bons patrulheiros o Batalhão estava cheio – mas de empreendimento que, alem das qualidades necessárias ao bom patrulhador, demandava uma grande dose de conhecimentos técnicos sobre explosivos. Não foi difícil achar quem iria dirigir tão perigosa incursão pela “terra de ninguém”, pois apesar daquele Tenente ter chegado ao batalhão a pouco tempo, já havia conquistado a amizade, o respeito e a admiração de todos nos, pois alem de seu modo respeitoso e simpático de a todos tratar, vinha demonstrando coragem, calma e sangue frio no cumprimento de sua difícil função – oficial responsável pela colocação e retirada de minas e armadilhas. O Ten. Adhemar de Lima Andrade havia concluído, com ótimo aproveitamento, um curso onde aprendera todos os segredos sobre minas e explosivos.

Eu já me entendia muito bem com aquele baiano, sereno, sem arrogância, disciplinado, leal, senhor dos seus nervos, que tão bem se amoldara ao ótimo ambiente reinante entre os oficiais do Estado Maior do I/11º RI. Como fui um dos poucos, a saber, que lhe coubera, pude sentir ao mesmo tempo em que pedia a Deus pelo seu sucesso, toda a sua serenidade e determinação. Ao vê-lo, reunindo e instruindo seus homens, dava-me a impressão de que ia executar o mais comum e rotineira das operações.

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Ten. Adhemar de Lima Andrade, a esq. e Ten. Adhemar Rivermar de Almeida (autor do texto)

Numa noite intensa escuridão lá vai o Adhemar e seus homens. Ultrapassaram Iola, II Truffi e Bicocchi, Entram em contato com os nossos postos mais avançados e, cautelosos, silenciosos e determinados, sobem a primeira cota gêmea, que vasculham com cuidado, de modo a não serem percebidos pelo inimigo tão próximo. De repente, na contra-encosta, um sorriso de satisfação – lá estava o depósito.

Calmo, como que estivesse articulando uma simples brincadeira com o Yvon ou o Quintiliano, ele estudou a situação do depósito, investigou, calculou, prendeu cargas e detonadores com retardo e, terminada a missão, voltou ao PC, cansado, mas feliz, onde se apresentou ao Major Lisboa, simplesmente, sem jactância ou basófia:

– Pronto, Major, missão cumprida!

Nada vimos ou ouvimos até então, pelo que permaneci ansioso, na expectativa de um não desejado fracasso – os segundos parecendo horas – e nada, de explosão.

Mas, minutos após, tremenda explosão é ouvida, alertando brasileiros e alemães. De dentro do meu peito, liberto, rugiu todo o meu entusiasmo: Eta! Baianinho bom!

Os nossos telefones começam a chamar insistentemente, todos querem saber o que aconteceu, principalmente o E/2 da Divisão:

– Que houve na frente do Batalhão?

O Major Lisboa, calmo, o Deschamps, mais calmo ainda, mas tremendamente orgulhosos pela façanha, vão respondendo:

– Não foi nada. Os alemães acabam de ficar com o seu estoque de munição ainda mais diminuído.

O bravo baiano, antes de ir dormir e sem dar o devido valor à grandeza do ato que praticara, mas tremendamente senhor de si, ainda brinca com o Yvon:

– Viu Doutor, como é perigoso entrar em local cercado por tiras brancas.

Fonte:
Montese – Marco Glorioso de uma Trajetória
Coronel Adhemar Rivermar de Almeida
Editora: Bibliex
Pag:130, 131 e 133

Sobre Ricardo Lavecchia

Ricardo Lavecchia tem 35 anos, nascido no dia 22/01/1982. Natural de Santo André – SP Trabalha como vedendor, desenhista nas horas vagas, sempre procurou novas idéias em imagens de livros e jornais, e foi numa dessas buscas que descobriu outra paixão: A Segunda Guerra Mundial. Tinha, então, 18 anos e se deparou com o livro: "Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália" de Rubens Braga. Ao invés de apenas escolher uma imagem para desenhá-la, resolveu ler o livro. O fascínio pelo assunto o tomou por completo. Em suas pesquisas sobre o tema, descobriu não só relatos de guerra, mas amizades sinceras de veteranos, como o Sr. Antônio Cruchaki, veterano do 9º BEC e o falecido Capitão Rocha da Senta a Pua. E-mail: ricardo @ segundaguerra.net

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1 comentário

  1. estou interesado

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