Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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Crônicas de Guerra – Sozinho no Monte Castelo

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José Demuner

Minha lembrança de Monte Castelo foi a de um avião alemão que passou a pouco mais de 50 metros sobre minha cabeça, disparando quatro metralhadoras simultaneamente, contra os alvos: eu e a metralhadora Ponto 50 – que era minha especialidade. Estava guarnecendo a rota 64, que levava a Monte Castelo.

Essa infiltração aérea alemã custou a vida dos seis soldados que me acompanhavam. Como por milagre, sobrevivi, e hoje faço esta narrativa.

Em Monte Castelo, nós, da artilharia, apoiávamos a infantaria – 6º Batalhão de Infantaria da FEB -, e aquela unidade acabou sendo substituída pelo 11º Batalhão de Infantaria, composto totalmente por ex-combatentes do estado de Minas Gerais. Por sua vez, o exército alemão se aproveitava destas ocasiões, ao longo da batalha, com intensos tiroteios e ataques diversos, usando todo o arsenal disponível para eles, que não era pouco.

De repente, me dei conta de que o dia começava a raiar, pela tênue luz que se via ao largo, mesmo com o forte nevoeiro, formado de vapores, pólvora queimada e de incêndios diversos. A luz me deixou entrever um movimento de tropas numa curva do caminho adiante. Mantive a metralhadora, desta vez mirando o novo alvo. O ímpeto da defesa me fez reagir rápido, e me preparava para mandar uma rajada da Ponto 50, que equivale a 600 disparo por minuto. Numa emboscada, pode dizimar um batalhão em pouco tempo.

Uma dúvida me fez parar e examinar detidamente o ambiente.  Agarrei o binóculo, tenso, e identifiquei prontamente. Iria cometer um erro grosseiro, conhecido como fogo amigo. Lá estavam soldados brancos e negros lado a lado, visão impensável no ariano exército inimigo. Graças a Deus, este lampejo de intuição salvou vidas amigas e meu consciente. Imagine matar colegas que naquele momento se refugiavam, diante do implacável fogo inimigo, em debandada geral. Só eu fiquei naquele palco de guerra total, ficando para trás, tendo como companhia apenas a minha metralhadora Ponto 50. Meu desespero aumentava instantaneamente, ficando mais de dez horas sozinho em Monte Castelo. As coisas passaram como um filme na minha cabeça, mudando o fim da história, pelo menos naquele momento de reencontro.

A situação ficou tão tensa, como disse acima, que a unidade onde eu estava bateu em retirada, sob fogo cerrado do inimigo. As famílias italianas que moravam nas redondezas sentiram o calor da batalha, e a ameaça que rondava, também se retirando com os poucos pertences possíveis.

Eu havia tomado posição bem de frente ao palco de batalha, juntamente com quatro soldados, um cabo e um motorista. Todos ficavam no meu entorno, já que eu era especialista que comandava a metralhadora Ponto 50 e bazuca. Tudo isso sob um frio que variava de 15 a 25 graus abaixo de zero. Por volta da 1 hora da manhã eles comunicaram que desejavam um café quente. Fiquei supondo onde encontrariam tal bebida, visto que estávamos sozinhos naquela posição, ao que tudo indicava. Já não se ouviam nossas baterias por perto.

Em exemplo dos demais, os que me deixaram, não voltaram nas longas horas que se passaram, e, então, fiquei sozinho diante do inimigo, numa noite só clareada pelos canhões e outras armas de grosso calibre. Aviões com seus rasantes, bombardeio ensurdecedor, mantive ereto à posição, mesmo reconhecendo intimamente que me restavam poucas horas. É difícil para quem não viu a cena imaginar a minha aflição interior, isolado, alvo frágil diante da ferocidade do exército alemão. Só o tempo diz se você vai contar a história. A despeito do cenário, estou vivo.

Depois fiquei sabendo que minha vida foi salva pelo fracasso da estratégia alemã. Eles não avançaram pensando que poderiam cair em emboscada, num bolsão ao longo da íngreme região. Eles, os alemães, que estavam entrincheirados a 1.100 metros de altura em Monte Castelo, com vista privilegiada. Mesmo assim, essa privilegiada posição perdia com a tecnologia estadunidense: deformar a densa cerração com equipamentos de gerar fumaça.

A fortaleza alemã, com suas casamatas poderosas, com proteção contra o frio e outros confortos que conferiam aos alemães aparente supremacia. Mas, aos poucos A FEB, amparada pelo exército estadunidense, foi dominando o cenário, com verdadeiro cerco a Monte Castelo, comprimindo o inimigo no pequeno território em que se transformou o alto da montanha. Com boas roupas e comida, oferecida pelos estadunidenses, pudemos superar as mazelas do dia-a-dia de um clima inóspito, tão inimigo quanto as tropas que combatíamos.

Por fim, o 6º Batalhão voltou à cena, depois de ser substituído pelo 11º, e voltou com força total, no lugar do 11º, botando novamente as coisas no lugar, ou seja, as tropas foram reorganizadas. Isso facilitou o enfrentamento do inimigo, permitindo também maior tranqüilidade para mim.

Estes relatos são feitos para rememorar fatos que normalmente seriam ignorados, pura e simplesmente, e para que esta lembrança sirva de exemplo para novas gerações, para que sempre lembrem que a paz é a melhor solução.

Não faço os relatos pensando em promoção de qualquer espécie, e sim para que as pessoas entendam a dor de uma guerra para uma nação, para os povos, e para os militares envolvidos, inclusive eu.

*Por José Demuner

Sobre Ricardo Lavecchia

Ricardo Lavecchia tem 35 anos, nascido no dia 22/01/1982. Natural de Santo André – SP Trabalha como vedendor, desenhista nas horas vagas, sempre procurou novas idéias em imagens de livros e jornais, e foi numa dessas buscas que descobriu outra paixão: A Segunda Guerra Mundial. Tinha, então, 18 anos e se deparou com o livro: "Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália" de Rubens Braga. Ao invés de apenas escolher uma imagem para desenhá-la, resolveu ler o livro. O fascínio pelo assunto o tomou por completo. Em suas pesquisas sobre o tema, descobriu não só relatos de guerra, mas amizades sinceras de veteranos, como o Sr. Antônio Cruchaki, veterano do 9º BEC e o falecido Capitão Rocha da Senta a Pua. E-mail: ricardo @ segundaguerra.net

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3 comentários

  1. Nunca havia lido tal história.
    Sabe dizer se esse veterano ainda é vivo?
    Abs,

  2. É vivo sim, sou neto dele 🙂

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