Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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AT04 - A Campanha do Atlântico Sul - Os Estados Unidos em Nosso Quintal – Parte I
Um PBY-5 do VP-52 é lavado na Rampa, em Natal, após regressar de missão em 1942 (Foto: U.S. Navy)

A Campanha do Atlântico Sul – Os Estados Unidos em Nosso Quintal – Parte I

                                           Por Graco Magalhães Alves

Eu pensava, dentro da minha ignorância, saber tudo dos fatos heróicos e grandiosos da 2ª Guerra Mundial vividos em grande parte em Natal. O meu estimado amigo Coronel-Aviador Aparecido Camazano Alamino, um estudioso historiador da Aviação brasileira, me emprestou o livro “Galloping Ghosts in the Brazilian  Coast”, de autoria de Allan G. Carey. Confesso que, já tendo lido muito sobre o assunto, me surpreendi com o tamanho da Campanha.

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Por isto este artigo.  Será para lembrar o poderio da Marinha Americana e da sua Força Aérea bem assim como do esforço da nossa jovem Força Aérea Brasileira (FAB), desprovida de material moderno, mas com pilotos dotados do sentimento de cumprimento do dever a toda prova.

Quando o Japão atacou Pearl Harbour em 7 de dezembro de 1941, os norte-americanos declararam guerra ao Japão e, consequentemente, à Alemanha e à Itália, obrigando-os à tomada de inúmeras providências para a segurança de seu território, bem como da América Central, Caribe e América do Sul. Os pontos mais vulneráveis, segundo os seus estrategistas, eram o Canal do Panamá e o saliente do Continente Sul Americano, coincidente com o Nordeste Brasileiro.

Nesse cenário, em 11 de dezembro de 1941, chegam à Rampa, em Natal – RN, uma Esquadrilha do VP-52, constituída com seis aparelhos PBY-5 Catalina (hidros), que vieram da Ala Aérea 3, cuja sede era no Panamá. Esses aviões foram apoiados pelos navios tênders USS Greene (AVD-13) e USS Thrush (AVP-3), começando as patrulhas no Atlântico Sul, desde Natal, inaugurando, assim, as operações em águas brasileiras.

O VP-52 permaneceu em Natal até 7 de abril de 1942, quando foi substituído pelo VP-83, subordinado à Ala Aérea 11 e dotado com 12 aviões PBY-5A (anfíbio), que ficou baseado em Parnamirim Field. Em Parnamirim, onde havia poucas instalações e as existentes eram muito modestas, que foram construídas pela Air France e pela Lati. A missão principal desses Esquadrões era a realização de ações de patrulhamento e antissubmarino.

A IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA DO NORDESTE BRASILEIRO E A CONSTRUÇÃO DE PISTAS

O Nordeste brasileiro é o saliente do continente sul-americano mais próximo dos continentes africano e europeu, sendo de vital importância para o apoio às linhas marítimas e aéreas que ligam o nosso continente à Europa e à África.

Durante a 2ª Guerra Mundial, tal importância foi acentuada, tendo em vista que os aviões militares e comerciais utilizados à época não tinham autonomia para fazer uma travessia segura pelo hemisfério norte para os teatros de guerra no Sul da Europa. Nesse cenário, as bases aéreas construídas no Nordeste foram de suma importância para a travessia de aeronaves, assim como para o combate aos submarinos do Eixo que procuravam debilitar os corredores de suprimentos e de matéria-prima do Brasil para os Estados Unidos.

Com a finalidade de estabelecer uma rota aérea que passasse pelo Norte e Nordeste do Brasil e possibilitasse alcançar a África pela menor distância entre os dois continentes, os governos do Brasil e dos Estados Unidos firmaram um acordo para que tal corredor fosse efetivado.

Assim, em 25 de julho de 1941, pelo Decreto-lei nº 3.462 o Governo Brasileiro autoriza a empresa Panair do Brasil S. A. a construir, melhorar e aparelhar os aeroportos nas cidades de Amapá, Belém, São Luiz, Fortaleza, Natal, Recife, Maceió e Salvador, para permitir a sua utilização por aeronaves de grande porte mediante as seguintes condições:

Realizar, com o seu financiamento, benfeitorias nos aeroportos dos locais acima indicados, nos seguintes termos: Ampliação das pistas, além de mil metros e preparo do piso de modo a suportar o peso de grandes aeronaves, instalação de farol rotativo, luzes para assinalar os limites dos aeroportos, luzes de balizamento de pistas, luzes para assinalar os obstáculos nas aproximações dos aeroportos, holofotes para iluminar as pistas e usinas de emergência para energia elétrica;

Construir em Natal, além das benfeitorias do aeroporto de Parnamirim e anexo ao terminal marítimo, conhecido como Rampa, mais o seguinte: um pátio para estacionamento de hidroaviões, com vinte e quatro mil e quinhentos metros quadrados de piso, depósitos subterrâneos de combustível, bombas para reabastecimento rápido com as respectivas mangueiras e exaustores, bem como a rampa para encalhe de aeronaves;

Parnamirim Field em construção em 1941. Hangar da Air France em 1º plano (Foto: Arquivos BANT)
Parnamirim Field em construção em 1941. Hangar da Air France em 1º plano (Foto: Arquivos BANT)

Assim, sob a responsabilidade e o encargo da Pan American Airways, de quem a Panair do Brasil era afiliada, foi criada a ADP (Airport Development Program) para a construção das pistas de pouso, instalações militares e de apoio em toda a faixa referida. Tal iniciativa foi de grande importância, tendo em vista que a infraestrutura existente nessa faixa não atendia a demanda e o movimento das grandes aeronaves militares ou comerciais.

O prazo para término de todas as obras foi estabelecido em dois anos, a contar da data do referido decreto-lei, sendo que, com incrível velocidade e competência, a ADP foi concluindo as pistas e as instalações em todas as capitais da faixa litorânea do Norte e Nordeste brasileiros, sendo que, em muitas localidades, bem antes dos prazos estabelecidos.

Com a entrada dos norte-americanos na guerra em dezembro de 1941, o cenário mudou e as obras, já iniciadas, foram de grande relevância para o esforço de guerra, com a utilização do novo corredor de suprimentos e de pessoal, que foi batizado de “Corredor da Vitória” e Natal, pela sua importância estratégica e privilegiado posicionamento geográfico de “O Trampolim da Vitória”.

Impressionante vista da Base Americana em Natal em 1944 (Foto: BANT)
Impressionante vista da Base Americana em Natal em 1944 (Foto: BANT)

Para coordenar e controlar todas as operações dos Esquadrões da U. S. Navy e outras aeronaves designadas para o serviço da 4ª Frota no litoral brasileiro foi criada a 16ª Ala Aérea, que foi ativada em 16 de fevereiro de 1943, sendo sediada, inicialmente, em Natal, onde foi efetivada em 13 de abril de 1943. Posteriormente, sua sede foi transferida para Recife, que era a sede da 4ª Frota da U. S. Navy. Tal Ala Aérea operou até 29 de junho de 1945, quando foi desativada.

Cabe ser destacado que na organização da Aviação Naval Americana na época, uma grande unidade era uma Fleet Air Wing.   Em tradução livre, Fleet é uma esquadra, composta de diversos vasos de guerra daí a Pacific Fleet, Mediterranean Fleet, North Atlantic Fleet entre outras. Uma Air Fleet poderia ter um número variável de Esquadrões e estes Esquadrões um número variável de aviões, conforme fosse o seu emprego. Para facilitar a compreensão em português, uma Air Wing foi traduzida por Ala Aérea. Na Campanha do Atlântico Sul a Marinha Americana usou duas Esquadras, a Fleet Air Wing 4 e Fleet Air Wing 16, sendo a abreviatura FAW seguida do número. A principal unidade naval americana da Campanha foi a Fleet Air Wing 16. Esta unidade, FAW 16, teve sob o seu comando os seguintes esquadrões durante a Guerra:

ESQUADRÕES DA U. S. NAVY QUE OPERARAM NO NORDESTE NA 2ª GUERRA MUNDIAL

A vinda das unidades aéreas norte-americanas para o Brasil foi de suma importância para que a soberania e a integridade de nosso país fossem mantidas e preservadas em um período tão crítico para a humanidade. Assim, será abordada a atuação dos Esquadrões da U. S. Navy que operaram em Natal e no Brasil durante a 2ª Guerra Mundial, sendo apresentados na ordem crescente do número do respectivo Esquadrão:

VP-52 – Natal – RN (Rampa) 11/12/1941 a 07/04/1942 – com PBY-5 Catalina (hidro).

Um PBY-5 do VP-52 é lavado na Rampa, em Natal, após regressar de missão em 1942 (Foto: U.S. Navy)
Um PBY-5 do VP-52 é lavado na Rampa, em Natal, após regressar de missão em 1942 (Foto: U.S. Navy)

VP-74 – Natal – RN (Rampa) 18/12/1942 a 28/04/1943 – com PBM-3C Mariner.

Manteve aeronaves destacadas em Salvador – BA (Aratu), Galeão (RJ) e Belém.

Afundou os submarinos alemães U-513 (19/7/1943) e U-161 (27/9/1943).

Localizou o submarino e iniciou o combate que resultou no afundamento do

U-199 pelo Catalina “2” da FAB em 31de julho de 1943 ao largo de Cabo Frio, RJ.

PBM-3C Mariner do VP-74 estacionado na Rampa, em Natal, em 1943 (Foto: U.S. Navy)
PBM-3C Mariner do VP-74 estacionado na Rampa, em Natal, em 1943 (Foto: U.S. Navy)

VP-83 – Natal – RN (Parnamirim Field) 7/4/1942 a 1°/5/1943 – com PBY-5A Catalina.

Afundou os submarinos alemães U-164 (6/01/1943) e U-507 (13/01/1943) e o

submarino italiano Archimede (15/4/1943).

VP-94 – Natal – RN (Parnamirim Field) 21/01/1943 a 18/7/1943 – com PBY-5A Catalina.

Manteve aeronaves destacadas no Rio de Janeiro (Santos-Dumont), Belém,

Fortaleza, Recife, Salvador, São Luis, Fernando de Noronha, Maceió, Caravelas (BA) e Santa Cruz.

Afundou os submarinos alemães U-590 (09/07/1943) e U-662 (21/7/1943).

PBY-5A Catalina do VP-94 operando em Fernando de Noronha em 1943 (Foto: U.S. Navy)
PBY-5A Catalina do VP-94 operando em Fernando de Noronha em 1943 (Foto: U.S. Navy)

VB-107 – Natal – RN (Parnamirim Field) 15/6/1943 a 10/01/1945 – com PB4Y-1 Liberator.

Este Esquadrão é a transformação do VP-83, agora dotado com os PB4Y-1.

Afundou os seguintes submarinos alemães: U-598 (23/07/1943), U-848 (05/11/1943), U-849 (25/11/1943), U-177 (06/2/1944) e U-863 (29/9/1944).

Pelos excelentes serviços prestados na guerra, recebeu a Presidential Unit Citation.

VPB-125 – Natal – RN (Parnamirim Field) 18/3/1945 a 30/4/1945 – com PV-1 Ventura.

Manteve aeronaves destacadas em Fortaleza e Fernando de Noronha.

VPB-126 – Natal – RN (Parnamirim Field) 18/01/1945 a 21/5/1945 – com PV-1 Ventura.

Manteve aeronaves destacadas em Fortaleza.

VB-127 – Natal – RN (Parnamirim Field) 14/5/1943 a 02/9/1943 – com PV-1 Ventura.

Manteve aeronaves destacadas em Fortaleza.

Afundou o submarino alemão U-591 (31/7/1943).

Um PB4Y-1 do VB-107 realiza patrulhamento no Atlântico Sul em 1944 (Foto: U.S. Navy)
Um PB4Y-1 do VB-107 realiza patrulhamento no Atlântico Sul em 1944 (Foto: U.S. Navy)

VB-129 – Natal – RN (Parnamirim Field) 30/5/1943 a 15/6/1943 – com PV-1 Ventura.

Manteve aeronaves destacadas em Recife e Salvador (Ipitanga)

Participou do afundamento do submarino alemão U-604 (30/7/1943).

VP-143 – Natal – RN (Parnamirim Field) 16/9/1943 a 28/01/1944 – com PV-1 Ventura.

Manteve aeronaves destacadas em Salvador (Ipitanga).

Foi substituído pelo 2º Grupo de Bombardeio Médio da FAB, que ficou baseado em Salvador, BA.

VB-145 – Natal – RN (Parnamirim Field) 16/9/1943 a 01/2/1945 – com PV-1 Ventura.

Manteve aeronaves destacadas em Fernando de Noronha, Ilha de Ascensão e Salvador (Ipitanga).

Ministrou o curso do USBATU para o pessoal da FAB em Natal.

A atuação dos PV-1 Venturas foi primordial para afugentar os submarinos do Eixo (Foto: U.S. Navy)
A atuação dos PV-1 Venturas foi primordial para afugentar os submarinos do Eixo (Foto: U.S. Navy)

VP-203 – Salvador – BA (Aratu) 4/10/1943 a 23/01/1944 – com PBM-3S Mariner.

Manteve aeronaves destacadas em Natal – RN (Rampa), Florianópolis – SC, Galeão

(RJ) e Salvador (Aratu).

VP-211 – Salvador (Aratu) 16/10/1943 a 12/11/1943 – com PBM-3C Mariner.

Manteve aeronaves destacadas no Galeão (RJ) e Natal (Rampa).

Emblema do VP-211 – Salvador, 1943 (Arquivos Camazano)
Emblema do VP-211 – Salvador, 1943 (Arquivos Camazano)

Cabe aqui uma observação: quando o VP-83 chegou a Natal não havia ainda acomodações e todos os tripulantes tiveram que ficar em barracas.  Os primeiros oficiais aqui chegaram em aviões da Pan American, em Douglas DC-3 ou nos hidroaviões Sikorsky. Em 1943, todas as bases do litoral já tinham pistas asfaltadas com mais de mil metros, acomodações e todas as instalações para auxilio a navegação aérea. No livro “Galloping Ghosts in the Brazilian Coast” na pagina 16 pode-se ver uma foto, muito pouco nítida, de 30 barracas de lona, que eram utilizadas como alojamento temporário para os oficiais e os subalternos. Alguém nesta época escreveu uns versos humorísticos que registro abaixo:

                                   Natal is a land where we take our last stand

                                   The climate is simply just grand

                                   We live in a stable

                                   And fly when we are able

                                   To dig our planes out of the sand.

                               Versos humorísticos que ouso traduzir:

                                   Natal é a nossa última trincheira

                                   Onde o clima é sempre aprazível

                                   Vivemos numa cocheira

                                   Voamos quando é possível

                                   Cavar nossos aviões fora da areia

 

Por sua vez, a FAB com apenas dois anos de existência, inteiramente despreparada para uma guerra moderna, criou em 4 de fevereiro de 1942 em Fortaleza – CE um Agrupamento de Aviões de Adaptação, onde era realizada a adaptação dos pilotos da FAB em aparelhos modernos fornecidos pelos norte-americanos como os caças Curtiss P-36A e Curtiss P-40E e os bombardeiros North American B-25B Mitchell e Lockheed      A-28A Hudson, gabaritando-os a operarem tais aeronaves nas bases brasileiras que estavam em construção no Nordeste.

As bases desse novo cenário estratégico estavam dotadas com os seguintes aviões obsoletos para a guerra que o Brasil estava enfrentando:

Base Aérea

Aeronave Operada

Belém – PA

Consolidated Comodore

Vought Corsair V-65

North American NA-72

Waco CPF-5 e EGC-7

Natal – RN

Curtiss P-36A e Curtiss P-40E

Waco CSO e CPF-5

North American AT-6B

Recife

Vought Corsair V-65

North American NA-72

Curtiss P-36A

Vultee V-11 GB2 (desdobrados)

 

 Continua…

 

Sobre Ricardo Lavecchia

Ricardo Lavecchia tem 35 anos, nascido no dia 22/01/1982. Natural de Santo André – SP Trabalha como vedendor, desenhista nas horas vagas, sempre procurou novas idéias em imagens de livros e jornais, e foi numa dessas buscas que descobriu outra paixão: A Segunda Guerra Mundial. Tinha, então, 18 anos e se deparou com o livro: "Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália" de Rubens Braga. Ao invés de apenas escolher uma imagem para desenhá-la, resolveu ler o livro. O fascínio pelo assunto o tomou por completo. Em suas pesquisas sobre o tema, descobriu não só relatos de guerra, mas amizades sinceras de veteranos, como o Sr. Antônio Cruchaki, veterano do 9º BEC e o falecido Capitão Rocha da Senta a Pua. E-mail: ricardo @ segundaguerra.net

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