Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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A Vida em Tempos de Guerra

O surreal cotidiano da França ocupada

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Rua de Rivoli com as bandeiras do regime nazista.

De inicio, os alemães tentaram estimular os franceses a manter sua rotina. Com o recrudescimento da guerra, a população foi duplamente afetada: pelos bombardeios dos Aliados e pela crueldade dos invasores.

Em 1940, a ordem na Franca era a retomada da vida normal, embora isso soasse como um escárnio em um país com dois terços de seu território ocupados pelos alemães. A sede do regime colaboracionista – ou seja, que aceitou se submeterão regime nazista – era o pequeno “reino de Vichy”, instalado na cidade de mesmo nome, a sudeste de Paris.

Os refugiados retornavam pouco a pouco para a zona ocupada, onde os alemães facilitavam a retomada da vida econômica e cultural – rentável para eles dos pontos de vista político e econômico.

Graças ao marco alemão sobrevalorizado, eles esvaziavam as lojas de lingerie, de artigos finos vindos de Paris e de perfumes. Os espetáculos foram retomados antes mesmo do inicio da temporada: em 31 de julho de 1940, o ator e cineasta Sacha Guitry reabriu o teatro da Madeleine, onde apresentou Pasteur.

Obras importantes foram produzidas no período, como entre quatro paredes, de Jean-Paul Sartre, ou Sapato de cetim, de Paul Claudel. O cinema francês vivia então uma época de ouro, a qualidade dos filmes – 05 visitantes da noite, de Marcel Carne, ou Anjos do pecado, de Robert Bresson – atraia os espectadores tanto quanto o aquecimento da sala de cinema e a necessidade de escapar de uma realidade sombria.

As casas de tolerância recebiam alguns fieis franceses, mas viviam, sobretudo da clientela alemã. A gastronomia seguia pela mesma linha, e restaurantes como o Maxim’sou oTour d’Argent não ficavam vazios. Os cabarés traduziam os programas para o alemão.

A elegância das mulheres foi registrada por Andre Zucca, fotografo que mostrou a imagem deformada e amável de uma Paris frívola, aparentemente inalterada. Os estilistas apresentaram regularmente suas coleções. Mais magra, com vestido curto e meias soquete, durante a guerra a francesa apresentava um aspecto juvenil.

Nada, porem, revelava melhor a vontade de reviver que a mudança brusca da taxa de nascimentos de bebes, deficiente havia mais de um século, A partir de 1942, a natalidade foi retomada, e essa situação perduraria ate o começo dos anos 1970.

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Os deslocamentos, porem, diminuíram. A linha de demarcação entre a Franca autônoma e a Franca sob ocupação nazista bloqueou o comercio, a correspondência e o movimento de pessoas durante dois anos, ate a ocupação da zona livre em novembro de 1942.

Para atravessar essa barreira, era necessária a autorização dos alemães ou passar clandestinamente, correndo riscos. O combustível era reservado para médicos, alguns comerciantes e funcionários públicos em missão, o que sobrecarregou o transporte publico. Era, portanto, necessário andar muito ou usar uma bicicleta – bem tão precioso a ponto de ser objeto de vários roubos.

Arruinada pelos impostos cobrados pelos alemães e pelo embargo econ6mico, logo a França ocupada experimentou a penúria. O carvão não vinha mais da Inglaterra. E as gorduras e óleos não mais chegavam das colônias.

O Ministério do Abastecimento dirigia a produção e comprava a maior parte da colheita agrícola, que era estocada e redistribuída aos consumidores. A intenção era garantir a cada Frances um mínimo de 1 200 calorias diárias a preço razoável. Sem essa decisão, os mais ricos teriam ficado com todos os bens de consumo, levando os preços ás alturas.

O sistema tinha defeitos evidentes, entre os quais o desperdício e a burocracia, mas visava certa justiça social e pelo menos evitava a fome. Os franceses passaram por crescentes privações (ver quadro). A alimentação era uma obsessão cotidiana das famílias 70% do orçamento dos trabalhadores iam para a compra de viveres.

COMER QUANTO? O GOVERNO DECIDIA, POR MEIO DE TÍQUETES

O Ministério do Abastecimento era encarregado da produção agrícola e da distribuição de produtos, para garantir que os franceses recebessem o mínimo para a sobrevivência. A partir d setembro de 1940, cada francês recebia um cartão em seu nome para o abastecimento. Havia cartão para o pão, carne e as gorduras; outros para tecidos ou carvão. Todo mês as famílias retiravam, na prefeitura, talões compostos por números e letras para o consumo diário, que eram entregues aos comerciantes para comprar a mercadoria.

Os consumidores tinham direito a uma quantidade de alimentos fixada pelo governo de acordo com os estoques disponíveis e correspondendo a suas necessidades estimadas. Havia oito categorias, com níveis diferentes de calorias: menores de 3 anos, de 3 a 6 anos, 6 a 12 anos, 12 a 21 anos e grávidas, de 21 a 70 anos para trabalhadores braçais; de 12 anos realizando trabalhos agrícolas; e mais de 70 anos.

Havia fraudes no sistema, já que circulavam 2 milhões de cartões a mais do que o numero de consumidores. O meio mais simples era declarar a perda do talão ou comprar cupons falsificados no mercado negro.

Os sacrifícios dos pais permitiram a sobrevivência das crianças, que sofriam, entretanto. atraso no crescimento. A situação era dramática nos orfanatos e nos asilos, a mortalidade explodiu. Os escoteiros cortavam lenha para os idosos. Os restaurantes comunitários ofereciam, para os pobres, refeições quentes a preços acessíveis. Diferentes gerações se juntavam para viver de modo mais econômico e solidário.

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Era preciso recuperar tudo – casas e restos viravam comida para os animais; pedaços de lençóis, fraldas e restos de tecidos eram usados em remendos, As solas de sapato de madeira substituíam as de couro.

Em 1941, a temperatura ficou negativa por 28 dias. Para dormir, muitos se juntavam em cômodos aquecidos precariamente.

Os invernos eram excepcionalmente frios na França naquela época. Em janeiro de 1941, temperatura ficou abaixo de zero durante 28 dias, chegando a 15ºC negativos em alguns períodos. O aquecimento central a carvão desligado nos prédios.

Famílias passaram a se refugiar em um único cômodo, aquecido por uma salamandra (pequeno fogão) principalmente nas cidades. O melhor era dormir cedo. Pois o toque, recolher proibia as saídas. De manhã era preciso quebrar o gelo da bacia de água para realizar uma higiene sumaria antes de enfrentar a rua, com as extremidades do corpo inchadas de frio, dificultando a locomoção.

Os efeitos morais da ocupação alemã pesavam. Todos se sentiam humilhados em seu sentimento patriótico. A maioria suportava a ocupação em silêncio e pacientemente. Mas a juventude e alguns mais exigentes se revoltavam.

Estudantes fizeram uma manifestação no Arco do Triunfo, em Paris, em 11 de novembro de 1940, o que levou ao fechamento das universidades por dois meses. Pichações feitas a giz, apagadas diariamente pela policia, panfletos e em seguida jornais clandestinos tentavam levar a população a revolta. .

Em 1940, 1,6 milhão de franceses – dos quais a metade era casada e um quarto, arrimo de família – tornaram se prisioneiros de guerra, em stalags (campos alemães para não oficiais) ou oflags (para oficiais). Apesar de algumas libertações, 1 milhão permaneceria preso ate 1945.

As esposas de prisioneiros sofriam privações financeiras, mas principalmente de solidão e angustia. Elas escutavam emocionadas as canções J´attendrai ton retour (Esperarei seu retorno).

A partir de 1941, a população ficou indignada com as execuções de reféns. As prisões de patriotas se multiplicavam. Os alemães deportavam homens e mulheres – e suas famílias jamais receberiam noticias. Contam se 140 mil deportados civis, metade dos quais pelas questões “raciais” da ideologia nazista. As crianças judias foram escondidas por famílias que modificavam sua identidade, para tentar salva-las. Com a volta da paz muitas dessas pequenas vítimas não reencontraram os pais biológicos.

A partir de 1942, a mão de obra francesa foi requisitada para trabalhar na Alemanha. Em fevereiro de 1943, todos os jovens foram obrigados a fazer o STO (Serviço de Trabalho Obrigatório). Alguns se recusaram e se esconderam, mas 667.367 acabaram do outro lado do rio, expostos aos bombardeios da guerra. Os civis franceses eram cada vez menos protegidos no conflito mundial. Eles poderiam ser presos como reféns e fuzilados pelos ocupantes alemães ou morrer pelas bombas dos países que lutavam contra o nazismo.

A partir de 1941, a Batalha do Atlântico levou os ingleses a bombardear as bases de submarinos e as usinas que forneciam produtos estratégicos aos alemães. As cidades de Creusot, Lyon e a região de Paris foram atingidas. As estações e os canais de comunicação destruídos. Bombardeios aéreos atingiam as casas de civis muito alem de objetivos estratégicos: as cidades de Nantes, Saint-Nazaire, Le Havre e Rouen ficaram em chamas. Esses ataques causaram dezenas de milhares de mortos.

Como se não bastasse, alemães e integrantes de milícias promoviam represálias aos habitantes atacados pelos Aliados. Assim morreram outras centenas de franceses.

Os prisioneiros e o pequeno número de deportados que voltaram em 1945 reencontraram uma França arruinada, rios sem pontes, rede ferroviária desmantelada, vilarejos em ruínas e uma população exaurida.

Fonte: Revista Historia Viva – Por Michele Cointet

Veja algumas imagens de Paris sob ocupação nazista

Sobre Ricardo Lavecchia

Ricardo Lavecchia tem 35 anos, nascido no dia 22/01/1982. Natural de Santo André – SP Trabalha como vedendor, desenhista nas horas vagas, sempre procurou novas idéias em imagens de livros e jornais, e foi numa dessas buscas que descobriu outra paixão: A Segunda Guerra Mundial. Tinha, então, 18 anos e se deparou com o livro: "Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália" de Rubens Braga. Ao invés de apenas escolher uma imagem para desenhá-la, resolveu ler o livro. O fascínio pelo assunto o tomou por completo. Em suas pesquisas sobre o tema, descobriu não só relatos de guerra, mas amizades sinceras de veteranos, como o Sr. Antônio Cruchaki, veterano do 9º BEC e o falecido Capitão Rocha da Senta a Pua. E-mail: ricardo @ segundaguerra.net

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1 comentário

  1. Parabéns pelo artigo.

    Muito bom e escrito de maneira clara e objetiva.
    Estou escrevendo sobre o assunto, mas tenho uma linha diferente. Tiro dos fatos históricos argumentos e crio personagens ficticios dando uma pincelada de humor.
    Nada profissional quanto o seu artigo.
    abraço

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