Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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A Luta pelo Domínio Ideológico Mundial pós Segunda Guerra – Parte III

É consenso entre os historiadores que na Conferência de Potsdam a diplomacia inaugurou a sua modalidade mais perigosa: a diplomacia atômica. Um dia antes do início do encontro os americanos testaram no Novo México, a primeira bomba atômica. A capacidade destrutiva do novo artefato deixou de ser uma especulação teórica. A realidade revelada na primeira explosão assustou até mesmo os principais cientistas que participaram do Projeto Manhattam. Não havia mais dúvidas sobre o poder que esta nova arma traria para os EUA.

Durante o encontro, após o fim de uma sessão plenária às 19h30 do dia 24 de julho, de forma casual, Truman comunicou a Stalin que os EUA tinham desenvolvido uma nova bomba de grande poder destrutivo, não entrando nos detalhes sobre a questão da tecnologia nuclear.  Stalin pareceu não dar muita importância e conforme relatos dos que presenciaram a cena, comentou: “Será uma ótima oportunidade para os EUA a usarem contra os seus inimigos e por fim a guerra.” [7] Stalin já sabia da bomba muito antes do próprio Truman assumir a presidência dos EUA.

É fato esclarecido que o físico alemão Klaus Fuchs membro participante do Projeto Manhattam, comunicou aos soviéticos detalhes do desenvolvimento da bomba e da realização do teste. Havia também muitos outros informantes. Na verdade, há tempo que o Generalíssimo já tinha total conhecimento da vantagem tecnológica do EUA em relação a URSS no desenvolvimento da tecnologia nuclear. A primeira bomba soviética só seria testada quatro anos mais tarde, em setembro de 1949 [7].




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Cientistas e operários preparam o teste da primeira bomba atômica em julho de 1945 |1|







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O cientista Oppenheimer e o General Groves analisam os destroços após os testes




Para Stalin, o fato de Truman ter-lhe falado a respeito do novo artefato soou muito mais como uma ameaça do que a confidência de um amigo aliado e em grande parte o entendimento do georgiano, não estava totalmente errado. É muito provável que o presidente americano avaliou a oportunidade de dar um recado a Stalin de que os EUA dispunham de forças persuasivas capazes de conter as ambições imperialistas soviéticas na Europa e na Ásia além do que já estava sendo acordado, sem precisar recorrer a uma guerra convencional.

*****

Em 1945, a URSS não representava uma ameaça militar imediata ao bloco encabeçado pelos americanos. Mesmo se não tivessem uma arma nuclear, os EUA naquele momento, dispunham da metade do PIB mundial, 2/3 das reservas mundiais de ouro, 60% da capacidade industrial do mundo, 67% da capacidade produtora de petróleo, além da maior marinha e da maior força aérea que existia. Seus exércitos intactos ocupavam metade ocidental da Europa e do Japão, algumas das zonas mais ricas e industrializadas do mundo antes da guerra. Também ocupavam parte do sudeste asiático, especificamente metade da Península da Coréia e grande parte das ilhas do pacífico. Força econômica e militar mais que suficiente para deter qualquer ambição soviética que ameaçasse os interesses americanos e europeus em qualquer parte do planeta.

Por sua vez a União Soviética ocupava a metade Oriental da Europa, e na Ásia, uma parte da Manchúria e da Coréia, regiões tradicionalmente agrícolas e pobres. O próprio território soviético havia sido palco das maiores batalhas da II Guerra Mundial, contra as mais importantes divisões alemãs. O resultado é que em 1945 os Estados Unidos contabilizavam cerca de 143 mil mortos na guerra europeia, contra cerca de 11 milhões de militares soviéticos mortos. Centenas de cidades soviéticas estavam completamente destruídas em 1945. A maior parte das indústrias, da capacidade produtiva agrícola e da infraestrutura de transportes, energia e comunicações estava destruídas ou seriamente comprometidas. E a maior parte da mão-de-obra disponível que não tivesse a serviço do exército vermelho era composta de adultos feridos, velhos, mulheres e crianças.




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Tabela 2 |1|




 

A maior arma que Truman lançou sobre a URSS em 1945, imobilizando-a e atrasando o seu desenvolvimento durante anos, foi negar a ajuda financeira que Stalin havia solicitado a Roosevelt, e que este havia concordado, para ajudar na reestruturação do país destruído pela guerra. É inegável que a URSS se tornou uma grande força militar logo no final da guerra, mas não se pode esquecer que, com exceção dos EUA, os outros países industrializados, envolvidos no conflito, estavam arruinados economicamente e militarmente. A ajuda financeira negada aos soviéticos em 1945 foi disponibilizada para reestruturar a Europa Ocidental. O Plano Marshall foi um aprofundamento da Doutrina Truman e permaneceu em operação por quatro anos fiscais a partir de julho de 1947. Durante esse período, algo em torno de US$ 13 bilhões de assistência técnica e econômica — equivalente a cerca de US$ 130 bilhões em 2006, ajustado pela inflação — foram entregues para ajudar na recuperação dos países europeus que se juntaram à Organização Europeia para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

Perdas Pessoal do Exército Vermelho, 22 de Junho de 1941 – 9 de Maio de 1945




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Tabela 3 |6|




 

Quando o plano foi completado, a economia de cada país participante, com a exceção da Alemanha, tinha crescido consideravelmente acima dos níveis pré-guerra. Pelas próximas duas décadas a Europa Ocidental iria gozar de prosperidade e crescimento. O Plano Marshall também é visto como um dos primeiros elementos da integração europeia já que anulou barreiras comerciais e criou instituições para coordenar a economia em nível continental, fortalecendo ainda mais o poder do dólar americano. Foi também uma blindagem ao crescimento de ideologias comunistas e radicais nacionalistas na Europa Ocidental. Uma consequência intencional foi a adoção sistemática de técnicas administrativas norte-americanas.

O dinheiro foi oferecido a todo e qualquer país envolvido no conflito mundial inclusive à URSS se ela assim quisesse. Para obter acesso aos recursos era preciso apresentar uma lista dos estragos sofridos e uma estimativa do quanto era preciso para se reestruturar. Stalin não aceitou qualquer dinheiro americano e denunciou o Plano Marshall como uma declaração de guerra econômica à URSS. Não só isso. Proibiu que qualquer país ocupado pela URSS (Polônia, Países Bálticos, Tchecoslováquia, Romênia, Hungria, Bulgária e Alemanha Oriental), fizesse sequer menção de aceitá-lo. Em protesto, ordenou o bloqueio por terra a Berlim ocidental. Além das razões ideológicas, afinal receber auxílio norte-americano em tempo de paz iria parecer sinal de fraqueza, a URSS receava que o Ocidente tomasse conhecimento da assombrosa dimensão da destruição que sofrera com a ocupação nazista e o esforço que seria necessário para recuperá-la.




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O Plano Marshall favoreceu a reconstrução da Europa




 

Passados dois anos do fim da guerra a pátria soviética ainda sangrava e os seus filhos que sofreram demasiado, agora iriam ter que trabalhar arduamente para reerguer a nação. A fome, as doenças, as habitações precárias, a falta de infraestrutura, tudo eram obstáculos demasiados, para uma nação que lutara para não ser aniquilada pelos nazistas. O governo do Kremilim ampliou o controle do Estado sobre os indivíduos como uma forma de conter as rebeliões e revoltas. A opressão e a escravidão também foram ampliadas aos países periféricos ocupados pela URSS, como uma forma de gerar a riqueza que a nação necessitava. Diante de tantos obstáculos a URSS ainda necessitava investir somas fabulosas para desenvolver o seu programa nuclear. Agravando ainda mais a sua situação econômica. Nas palavras de Stalin, a bomba era essencial para garantir a sobrevivência da pátria contra a ameaça do capitalismo [7]. Anos mais tarde, quando a URSS desenvolveu sua própria bomba, iniciou com os EUA, uma nova corrida, desta vez para conquistar o espaço.




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Sputnik - Primeiro satélite artificial da terra Lançado pela União Soviética em 4 de outubro de 1957.







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Yuri Gagarin, o primeiro humano no espaço.




Assim, quando se iniciou a Guerra Fria, em 1945, os EUA não enfrentavam nenhuma ameaça concreta à sua soberania, e a segunda maior potência do mundo, a URSS estava devastada e levaria anos para se reerguer. Tanto que foi muito difícil para o governo americano conseguir recriar a imagem de uma União Soviética ameaçadora logo em 1945, algo que levou alguns anos para acontecer. Afinal, durante toda a guerra os governos aliados divulgaram para o mundo a imagem de uma união de nações que juntas, incluindo os temíveis comunistas, combateriam a tirania dos países opressores, libertando assim todo o planeta de uma ameaça maligna. Unidos e desprendidos de qualquer ambição mesquinha e imperialista os cavaleiros da esperança lutariam também para garantir a paz mundial do pós-guerra.

A imagem ameaçadora que os americanos plantaram no mundo sobre o regime comunista se tornou cada vez mais agressiva quando os militares comunistas testaram a sua primeira arma nuclear. O artefato militar garantiu aos soviéticos um grande salto para desequilibrar a vantagem militar dos EUA. Alguns militares americanos comentaram, anos mais tarde, que perderam uma grande oportunidade de enquadrar a URSS, logo após o fim da guerra. Na verdade, as alas mais conservadoras das forças militares americana jamais reconheceram que os comunistas foram os verdadeiros responsáveis pela derrota do Nazi-fascismo e jamais aceitaram que os EUA, a nação mais poderosa do mundo, econômica e militarmente, convivesse dividindo o espaço pelo domínio mundial com os soviéticos após a Grande Guerra.

Dada a impossibilidade da resolução do confronto no plano estratégico, pela via tradicional da guerra aberta e direta as duas superpotências passaram a disputar poder de influência política, econômica e ideológica em todo o mundo. A era moderna inauguraria uma nova vertente de conflito entre nações: a guerra ideológica. Para isto os meios de comunicação de massa, passaram a ser a arma mais ameaçadora e nações e povos periféricos foram manobrados de forma inescrupulosa em prol das duas ideologias, sem nenhuma responsabilidade diante das consequências. Fato marcante foi a Crise dos mísseis em Cuba em 1962.




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Kruschev e Kennedy em Viena 1961




 




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Primeiro encontro entre Kruschev e Fidel




 

Guerras e pequenos conflitos germinaram em todo o planeta, governos fantoches foram semeados em vários países e os blocos ideológicos firmaram acordos militares que ampliaram as ameaças, aumentando ainda mais a tensão diante de uma malha complexa de alianças e pactos militares. Pequenos países passaram a atuar como meros detonadores que diante de conflitos regionais poderiam colaborar para iniciar um conflito de ordem mundial. Os principais blocos militares, OTAN e o Pacto de Varsóvia, semearam uma corrida armamentista que consumiu recursos econômicos inimagináveis e que ocasionou a falência de muitos países que não tinham suporte industrial e econômico para manter tamanha demanda. Anos mais tarde a própria URSS reconheceu que a corrida armamentista desenfreada foi uma das principais causas que colaborou para o fim do regime. Não havia possibilidade de concorrer com os EUA que tinham um parque tecnológico industrial muito mais estruturado e desenvolvido, além de uma economia de mercado estruturada e acesso a matérias-primas em quase todo o planeta.

A União Soviética, desde o início dos anos 70, passava por grande fragilidade econômica. A alta nos preços do petróleo no período 1973-1979 e a nova alta de 1979-1985, deram uma sobrevida temporária a um sistema econômico que já estava bastante fragilizado. A crise econômica mundial dos anos 1980, a escassez de moedas fortes e a queda no preço das commodites exportadas pela URSS (petróleo e cereais) aprofundaram a crise do seu sistema econômico.




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Com o agravamento das crises internas a URSS se aproximou do Ocidente. Não havia mais possibilidades de manter a política isolacionista e belicista.




A economia de mercado dos EUA era muito mais competitiva e permitia o repasse acelerado de tecnologias militares e aeroespaciais de ponta para o setor civil. Na URSS tudo que seria produzido era previamente planejado nos Planos Quinquenais. A burocracia dificultava qualquer transferência de tecnologia sensível para o setor produtivo civil e toda a produção agrícola era milimetricamente planejada. Quando ocorreu o acidente nuclear de Chernobyl em 1986, toda a produção agrícola daquele ano foi perdida, os gastos inesperados foram enormes e o Estado que havia planejado exportar uma safra recorde de grãos, teve que importar comida. Rapidamente começava a faltar até mesmo pão no país que havia sido o maior produtor mundial de trigo. Somando-se aos custos do envolvimento de meio milhão de homens no Afeganistão durante os anos 1980, mais os gastos militares da corrida armamentista a enorme economia engessada colapsou.

O ano de 1989 viu as primeiras eleições livres no mundo socialista, com vários candidatos e com a mídia livre para discutir. Ainda que muitos partidos comunistas tivessem tentado impedir as mudanças, a Perestroika e a Glasnost de Gorbachev tiveram grande efeito na sociedade. Assim, os regimes comunistas, país após país, começaram a cair. A Polônia e a Hungria negociaram eleições livres (com destaque para a vitória do Partido Solidariedade na Polônia), e a Tchecoslováquia, a Bulgária, a Romênia e a Alemanha Oriental tiveram revoltas em massa, que pediam o fim do regime comunista. O ponto culminante foi a queda do Muro de Berlim em 9 de Novembro de 1989, que pôs fim à Cortina de Ferro e consequentemente à Guerra Fria.  Finalmente, no dia 31 de Dezembro de 1991, Gorbachev anunciou o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Citações

[1] Europa na Guerra -1939-1945 – Norman Davies – Editora Record – 1º Edição 2009; [6] Confronto de Titãs – Como o Exército Vermelho derrotou Hitler- C&R Editorial – Glantz, David M. e House, Jonathan M. – 1 º edição 2009; [7] Stalin e a Bomba – Editora Record -David Holloway – 1 º edição 2009;

Sobre Ricardo Lavecchia

Ricardo Lavecchia tem 35 anos, nascido no dia 22/01/1982. Natural de Santo André – SP Trabalha como vedendor, desenhista nas horas vagas, sempre procurou novas idéias em imagens de livros e jornais, e foi numa dessas buscas que descobriu outra paixão: A Segunda Guerra Mundial. Tinha, então, 18 anos e se deparou com o livro: "Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália" de Rubens Braga. Ao invés de apenas escolher uma imagem para desenhá-la, resolveu ler o livro. O fascínio pelo assunto o tomou por completo. Em suas pesquisas sobre o tema, descobriu não só relatos de guerra, mas amizades sinceras de veteranos, como o Sr. Antônio Cruchaki, veterano do 9º BEC e o falecido Capitão Rocha da Senta a Pua. E-mail: ricardo @ segundaguerra.net

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