Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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A Luta pelo Domínio Ideológico Mundial pós Segunda Guerra – Parte II

Roosevelt tinha plena confiança que a capacidade econômica e militar dos Aliados era mais que suficiente para derrotar os Países do Eixo e ao longo de toda a guerra jamais duvidou da vitória. Dentre os principais protagonistas, entendeu de forma mais clara as transformações do mundo que iria nascer após o fim do confronto. Compreendeu que a forma de domínio que as grandes potências deveriam exercer não poderia ser inspirado no modelo do colonialismo inglês das décadas passadas e muito menos no isolacionismo soviético. Previu que o fim do império Britânico geraria uma lacuna de poder nas colônias que deveria ser preenchido principalmente pelos EUA e URSS. Na sua visão de domínio e hegemonia esta divisão de poder deveria ser regulada por um órgão internacional que supervisionaria e controlaria as nações, evitando confrontos futuros, e tendo os EUA, a URSS, a Inglaterra e a China com poderes de veto. Até o dia da sua morte lutou por esta causa. Com muita habilidade e astúcia costurou uma aliança que em 1º de janeiro de 1942, contava com o apoio de 26 países em favor da causa aliada, que ficou conhecida como a Carta Atlântica [4]. Com palavras firmes e ideias claras paulatinamente conquistou a confiança e o carisma de Stalin em torno do seu ideal.

As decisões de Winston Churchill ao longo da guerra foram determinantes para o destino da Inglaterra. Muito antes de Hitler assumir o poder, Churchill alertou o mundo sobre o perigo de uma Alemanha Nazista fortemente militarizada, principalmente em relação à ameaça da hegemonia inglesa sobre a Europa Ocidental. Não se pode esquecer também a forma inteligente como arquitetou a aproximação e o namoro com Roosevelt até o dia em que este resolveu declarar guerra ao eixo, após os EUA sofrerem o ataque na base de Pearl Harbor. Como escreveu em suas memórias, àqueles foram os meses mais difíceis da guerra.

Este período de isolamento corresponde ao intervalo de tempo entre a retirada vergonhosa das tropas britânicas e francesas em Dunquerque, ocorrido em maio de 1940 até dezembro de 1941, quando os EUA abandonaram a neutralidade. Neste intervalo, Churchill arquitetou também uma falsa aproximação com a Alemanha Nazista, o que contribuiu para que Hitler alimentasse e executasse o seu verdadeiro desejo. Invadir e derrotar a URSS. [5]

Durante estes anos sombrios a Inglaterra caminhou sozinha em uma corda sobre um precipício e por muito pouco não teve que amargar uma derrota militar perante a Alemanha. Ofuscado pelos velhos conceitos e movido pelo seu ódio incondicional a Alemanha, Churchill não conseguiu enxergar as transformações que viriam no pós-guerra, jamais aceitaria uma conformação de poder com a Alemanha, independente de quem a governasse. A sua vida foi baseada no tradicionalismo inglês e no modelo de colonização que tornou a Grã Bretanha uma nação detentora de 51 colônias espalhadas pelo globo. No final da guerra, os ingleses viram o seu império se desmanchar como um castelo de cartas. E a insatisfação se fez sentir nas urnas. Churchill teve que suportar a humilhação de ser derrotado e ser substituído por Clement Attlee, tendo inclusive que abandonar prematuramente a Conferência de Potsdam, realizada em 1945.

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Winston Churchill em Potsdam Durante a Conferência foi substituído pelo sucessor Attlee

 A Inglaterra saíra derrotada da Segunda Guerra, após alguns poucos anos de confronto com a Alemanha, em uma luta pelo domínio da Europa Ocidental. Por mais paradoxal que pareça o preço que pagaram pelo apoio dos EUA foi incontestavelmente muito alto. Churchill aceitou pagar este preço a ter que dividir ou a se submeter ao poderio de uma Alemanha dominando a Europa. Haveria outro caminho? Desde então a poderosa Inglaterra de outrora, deixou de ser a Prima Dona no cenário mundial e assumiu o seu papel de coadjuvante em um roteiro escrito pelos EUA. Não seria exagero afirmar que do ponto de vista político e econômico, terminado a guerra, a Inglaterra foi o Aliado mais prejudicado. Em apenas seis anos de guerra contra a Alemanha Nazista, o maior império ultramar que levou centenas de anos para ser construído simplesmente desapareceu!

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Winston Churchill -Primeiro Ministro Inglês de 1940 -1945
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Clement Attlee – Primeiro Ministro Inglês de 1945 -1951

Stalin era um homem de personalidade misteriosa quase sem vida pessoal. O que se podia ler de sua mente era a sua determinação e fidelidade incondicional aos interesses de sua segunda mãe, a URSS. Mesmo que para isto fosse necessário ordenar expurgos internos e a morte de milhões! A sua vida foi um exemplo de devoção em favor da pátria comunista e pela concentração de poder, não enxergava nada a não ser a grandeza da URSS.

Josef Stalin tinha a consciência que a garantia da paz no futuro só seria possível se os interesses dos EUA e da URSS fossem mutuamente atendidos. Apesar de seus anseios imperialistas e a sua fome incontrolável por ocupações territoriais, tinha plena convicção que o início de um confronto imediato com os EUA seria inviável, haja vista, o poder industrial, financeiro e militar dos EUA em contraste ao estado em que a URSS e o exército vermelho estariam após a guerra. Na luta para expulsar os invasores, a URSS sangrou quase até a morte e grandes extensões de suas terras, como por exemplo, a saliência do Kursk, foram severamente devastada, necessitando de quase dez anos para serem recuperadas [6].

Durante as Conferências, Stalin nunca aumentava o tom de voz e junto com o seu ministro do exterior, Viatcheslav Mikhailovitch Molotov, formaram uma dupla imbatível durante as negociações para assegurar os interesses soviéticos e garantir as novas possessões conquistadas pelo exército vermelho [3]. Governos comunistas foram implantados em países ocupados para seguir a cartilha de Moscou, mesmo antes da guerraacabar, gerando muitas reclamações por parte de Roosevelt e Churchill. À medida que a mãe russa sacrificava seus filhos aos milhares para derrotar o exército alemão, Stalin tornava-se cada vez mais exigente em suas negociações.

A guerra avançava e o movimento das tropas ao longo do tabuleiro exigia revisões e novos planos. Inicialmente o objetivo maior das forças aliadas convergia para um único ponto, mesmo que este pudesse ser alcançado por caminhos diferentes. Os encontros realizados nas conferências foram fundamentais para orientar a estratégia das forças militares conjuntas em torno do principal objetivo: derrotar o eixo.  Tudo parecia bastante claro até o dia que Hitler se matou e a Alemanha Nazista foi derrotada. O maior inimigo comum deixou de existir e os Aliados de antigamente passaram a expor de forma cada vez mais clara os seus reais interesses de domínio para o mundo pós-guerra.

Em face das contradições ideológicas e dos interesses de dominação em áreas de influência cada vez maior sobre o planeta, os líderes Aliados paulatinamente plantaram as sementes das discórdias, e nenhum estava disposto a ceder as suas conquistas militares. Era cada vez maior o interesse sobre os espólios dos impérios derrotados, principalmente do Império Britânico. Era a germinação das sementes da Guerra Fria.

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Conferência de Teerã 1943 Stalin, Roosevelt e Churchill

 

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Conferência de Potsdam 1945 Attlee, Harry Truman e Stalin

Roosevelt defendia uma ocupação dos países derrotados baseado em governos pró-americanos, eleitos pela população local. Tinha a consciência que a capacidade financeira dos EUA em emprestar dinheiro e ajudar na reestruturação destes países seria a maior arma para colocá-los à mercê dos interesses dos EUA. Por outro lado, argumentando a necessidade de criar um cinturão de proteção em torno da URSS, Stalin parecia não saciar a fome em ocupar territórios e subjugá-los aos interesses do governo soviético.

Fazendo uma análise global, sem discutir o peso e a contribuição de cada líder nos resultados diretos do pós- guerra, a ausência de Roosevelt e de Churchill na Conferência de Potsdam, de certa forma, fortaleceu a imagem de Stalin perante Truman e Attlee, recentemente empossados. Stalin foi único líder entre os presentes que combateu o exército nazista, durante toda a guerra, e foi o responsável por deter todo o impacto inicial da surpreendente e poderosa máquina militar alemã. Conheceu também a tenacidade da resistência quando os empurrou de volta até as portas de Berlim. Nos últimos meses da guerra quando a vitória das Forças Comunistas sobre o Nazismo era inevitável, o líder soviético tinha plena consciência do papel que exercera e principalmente o poder que a URSS teria sobre o destino de milhões sobre o planeta.

Stalin estava disposto a consolidar e ampliar suas conquistas militares. Solicitou indenização de 10 bilhões de dólares da Alemanha, para ajudar a reconstruir a URSS e a todo instante suas reivindicações aumentavam surpreendendo ingleses e americanos. Parecia que o sofrimento do povo russo só seria aplacado em detrimento do sofrimento de outros povos!

A ausência de Churchill permitiu que as negociações entre os principais protagonistas avançassem sem o clima de impasse que imperou nas outras conferências, onde o líder britânico, não aceitava as imposições soviéticas e sempre assumia retóricas intermináveis. Attlee era mais moderado e parecia compreender o real papel dos ingleses depois da guerra, tinha consciência que os soviéticos não recuariam nas suas conquistas e afinal reconheceu , assim como Truman, que era preciso definir regras entre os dois poderosos blocos que dominariam o planeta e que o pior poderia acontecer se não houvesse algum entendimento após o encontro.

Truman não se intimidou em nenhum momento com as crescentes exigências de Stalin. Era muito pragmático e a sua maior preocupação era proteger a Europa Ocidental de uma provável ocupação comunista. Não demonstrou nenhum interesse em relação aos países periféricos que estivessem fora da esfera de influência americana, principalmente os países do leste europeu e não hesitou em sacrificá-los para saciar a fome de Stalin!

Na visão de Truman o importante era que houvesse um entendimento entre EUA e URSS e que este fosse firmado o mais rápido possível. Ao contrário de Roosevelt não se esforçou para conquistar a confiança e a simpatia de Stalin e parecia não nutrir esperanças de paz entre americanos e soviéticos no futuro. Muitas vezes se mostrava entediado com os longos discursos de Stalin, chegando a escrever para a sua mãe, sobre a árdua tarefa de dirigir as discussões: “É tão difícil como presidir o Senado. E Stálin só fica grunhindo, mas a gente sabe o que ele quer dizer.”

 

Citações

[3] Os Três Grandes – Churchill, Roosevelt e Stalin – Ganharam uma Guerra e Começaram outra – Jonathan Fenby – Editora Nova Fronteira – 1 º edição 2009;

[4] ;

[5] A Farsa de Churchill – Louis Kilzer – Editora Biblioteca do Exército, 1º Edição 1997;

[6] Confronto de Titãs – Como o Exército Vermelho derrotou Hitler- C&R Editorial – Glantz, David M. e House, Jonathan M. – 1 º edição 2009;

Sobre Ricardo Lavecchia

Ricardo Lavecchia tem 35 anos, nascido no dia 22/01/1982. Natural de Santo André – SP Trabalha como vedendor, desenhista nas horas vagas, sempre procurou novas idéias em imagens de livros e jornais, e foi numa dessas buscas que descobriu outra paixão: A Segunda Guerra Mundial. Tinha, então, 18 anos e se deparou com o livro: "Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália" de Rubens Braga. Ao invés de apenas escolher uma imagem para desenhá-la, resolveu ler o livro. O fascínio pelo assunto o tomou por completo. Em suas pesquisas sobre o tema, descobriu não só relatos de guerra, mas amizades sinceras de veteranos, como o Sr. Antônio Cruchaki, veterano do 9º BEC e o falecido Capitão Rocha da Senta a Pua. E-mail: ricardo @ segundaguerra.net

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