Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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A Luta pelo Domínio Ideológico Mundial pós Segunda Guerra – Parte I

O ano de 1945 ficou marcado na história pelo fim do maior confronto militar da humanidade, a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que nesta morreram 38 milhões de pessoas [1]. Durante os últimos meses que antecederam o final do conflito, as forças aliadas tinham a certeza que a Alemanha Nazista já agonizava no seu leito de morte e que o seu fim estava muito próximo. Cercada por grandes forças militares vindas do oeste e principalmente do leste, sofrendo bombardeios diários, com grande parte das suas indústrias destruídas e um exército exaurido que lutava desesperadamente para ao menos impedir que as forças estrangeiras ocupassem militarmente o território da pátria germânica, não era necessário ser um grande estrategista para prever qual seria o destino da Alemanha.

As boas notícias que chegavam diariamente do front, para os líderes americanos, ingleses e soviéticos, empenhados na luta contra os Países do Eixo, ao contrário do que normalmente se pensa , só aumentava a desconfiança mútua. De um lado, Franklin Roosevelt e Churchill observavam temerosos o avanço do maior exército do mundo vindo do leste, ocupando os países que no passado foram subjugados ao Nazismo e ameaçando inclusive a Europa Ocidental. Estima-se que em fevereiro de 1945, quase 8.000.000 de soldados soviéticos, marchavam para a fronteira alemã, empurrando o remanescente das forças militares que invadiram a URSS, no dia 22 de junho de 1941.

Por outro lado, o Generalíssimo Stalin temia que os Aliados Ocidentais firmassem um acordo em separado com o exército alemão. Este permitiria que os germânicos deslocassem suas tropas para o leste, impondo aos soviéticos uma guerra de resistência, forçando-os a uma negociação, com alguma vantagem, em contra ponto a uma derrota militar e principalmente evitando que a Europa Ocidental fosse ocupada pelos comunistas. No pior dos seus pesadelos, temia a possibilidade de uma aliança anglo-americano-alemã que pudesse iniciar um confronto militar com a Rússia, que em fevereiro de 1945 se encontrava a mais de 800 km de distância de suas principais fontes de suprimentos.

A possibilidade de um acordo em separado com a Alemanha foi uma dúvida que atormentou Stalin durante todo o conflito, principalmente após a URSS ser invadida em 1941. Suas desconfianças sempre aumentavam à medida que os Aliados adiavam a data do início da abertura de uma segunda frente, o que só aconteceu no dia 06 de junho de 1944 (Desembarque da Normandia) quase 11 meses antes do final da guerra na Europa. A tentativa de assassinar Adolf Hitler no dia 20 de julho de 1944, um mês após o dia D, alimentou ainda mais as suas suspeitas. Os Aliados estavam tramando um acordo com os generais alemães, e para isto era fundamental que Hitler estivesse morto! Tudo parecia fazer sentido na mente de Stalin.


Embora este fato nunca possa vir a ser esclarecido, sabe-se que Stalin tinha informações seguras obtidas do seu Serviço de Informação (NKVD), de que representantes do governo alemão, cientes do destino do seu país, tentaram uma aproximação para selar um acordo de rendição em separado com os anglo-americanos durante os meses que antecederam a derrota. As conversas ocorreram na Suíça e ao que tudo indica sem a autorização e o conhecimento de Hitler [2].





Franklin-Roosevelt
Franklin D. Roosevelt - Presidente Americano de 1933 - 1945









Stalin
Josef Stalin - Líder Soviético de 1922 - 1953





A ideia de estabelecer conferências entre americanos, ingleses e soviéticos surgiu de Roosevelt e Churchill, como uma forma de aproximar os lideres, diminuir as desconfianças mútuas, integrar os esforços para derrotar os Países do Eixo e principalmente discutir os interesses de cada país no pós-guerra. Inicialmente a dificuldade maior era estabelecer um local seguro e que fosse aceito pelos dois principais líderes. Stalin concordou com a proposta de realizá-las, mas diante dos problemas que a URSS passava sempre tinha dificuldades para se ausentar de Moscou. Fato curioso era o medo que tinha de viajar de avião, fazendo-o rejeitar, sempre que possíveis encontros em lugares distantes. Para a Conferência em Yalta, por exemplo, Roosevelt mesmo bastante doente e debilitado aceitou atravessar o Oceânico Atlântico, para se encontrar com o Líder Soviético.

Ao longo da guerra, Roosevelt e Stalin se encontraram apenas duas vezes. A primeira na Conferência de Teerã em 1943 e a outra em Yalta em fevereiro de 1945 [3]. Stalin não pôde comparecer na Conferência do Cairo em 1943 e em Potsdam, realizada em julho de 1945, Henry Truman já empossado como presidente dos EUA substitui Roosevelt que faleceu no dia 12 de abril do mesmo ano. Até então, a principal forma de comunicação entre Roosevelt e Stalin era o correio diplomático, que se utilizava de cartas e de uma linguagem padrão excessivamente formal. As conferências foram fundamentais para aproximar os dois líderes que se encontravam a milhares de distância um do outro e que naquele momento eram os principais responsáveis pelo destino de milhões de vidas.

Na época não existia recursos técnicos suficientes para se estabelecer um canal de comunicação direto, confiável e seguro de interceptação entre a Casa Branca e o Kremilim. Em se tratando da URSS a situação ainda era mais complexa, pois o gigante soviético se isolara do ocidente desde a revolução de 1917, sem esquecer que a tecnologia comunista era ímpar e não havia compatibilidade com os sistemas ocidentais. Qualquer tentativa de integração e cooperação tecnológica era sempre encarada, principalmente pelos soviéticos, com muita desconfiança.

Na guerra moderna e arquitetada sobre rodas o fator tempo passou a ter uma importância relevante, pois os cenários ao longo das batalhas mudam rapidamente e consequentemente as prioridades estratégicas e as táticas exigem novas revisões. A nova forma de combate introduziu mais uma dimensão no complexo cenário da guerra, a quarta dimensão ou o fator tempo, aumentando ainda mais a necessidade de políticos, generais e estrategistas reduzirem o tempo de tomada de decisões à medida que as tropas se confrontam no campo de batalha. Conforme a guerra avançava em sua complexidade, sugando em um turbilhão, um número cada vez maior de países, era evidente que Roosevelt e Stalin necessitavam de uma maior aproximação.

No aspecto da estratégia global da qual dependiam os esforços integrados dos países aliados para derrotar a máquina de guerra do eixo, as conferências realizadas tiveram um papel importante para definir as prioridades políticas, as áreas de influências e de interesse de cada país, as estratégias conjuntas, a divisão geopolítica do mundo pós-guerra, etc. Não seria exagero afirmar que, pelo menos naquele momento, o entendimento entre Roosevelt e Stalin foi significativo a ponto de ter evitado uma guerra quando os seus exércitos se encontraram em Berlim.





Hirohito
Michinomiya Hirohito - Imperador do Japão 1926 -1989









Hideki_Tojo
Hideki Tojo -Primeiro Ministro do Japão 1941 -1944





Hitler em seus intermináveis monólogos falava constantemente ao seu círculo mais íntimo que a aliança entre americanos, ingleses e soviéticos era suficientemente conflitante para se tornar instável a qualquer momento. Em parte ele tinha razão, pois ao longo da guerra ficou evidente que a cada dia que passava o entendimento entre os Aliados era cada vez mais difícil, pois os interesses e prioridades de cada nação divergiam para lados opostos, principalmente sobre: o destino da Polônia, a abertura de uma segunda frente por parte dos aliados, a política de empréstimo e arrendamento americano aos russos, o destino das colônias inglesas, o papel da França na Europa pós-guerra e a divisão da Alemanha.





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Tabela 1 |1|





 

Nos últimos dias que antecederam o fim do III Reich, Hitler acreditava que algo extraordinário aconteceria para reverter a situação drástica em que se encontrava as forças alemãs. Fato marcante foi que no dia da morte do Presidente Roosevelt, Hitler chegou a comemorar, e comentou com os presentes que afinal a providência tinha atendido aos seus pedidos. O fim da Aliança salvaria a Alemanha da derrota. Triste Ilusão. Obscurecido pela realidade dos fatos, Hitler parecia não querer acreditar no que os seus generais já sabiam há muito tempo, a Alemanha estava militarmente derrotada! E os Aliados há muito tempo já estavam discutindo como seria a partilha dos espólios da guerra.

Pode-se especular sem cometer erros graves que a descrença que Hitler tinha sobre o valor real dos resultados estratégicos discutidos nas conferências entre os líderes dos Países Aliados era consequência de sua personalidade ditatorial. É muito provável que fizesse seus julgamentos baseados na própria insignificância estratégica da aliança entre os Países do Eixo, pois ele mesmo via que esta era uma aliança muito mais simbólica do que real. Não raro, teve que socorrer Mussolini, que almejando as mesmas glórias do exército alemão no auge das vitórias, e que nos maiores delírios desejava ressuscitar o Império Romano, ordenou de forma unilateral o início de batalhas que culminaram em total fracasso. Ao se fazer um estudo das batalhas realizadas pelo exército italiano durante a Segunda Guerra verifica-se um histórico de retiradas e derrotas que não correspondiam ao sonho ambicioso do Duce.  Os oficiais graduados do exército alemão sempre delegavam aos italianos papeis secundários no campo de batalha, pois não acreditavam na sua força de combate e muito menos na competência dos seus generais.

Em relação ao Japão a aliança era ainda mais esdrúxula, haja vista, a total disparidade de interesses mútuos. Enquanto a Alemanha Nazista buscava a consolidação do Reich de mil anos nas terras do leste e em parte da Europa, o império japonês lutava para a conquista e consolidação das possessões no sudoeste asiático.  Do ponto de vista estratégico se tivesse ocorrido uma cooperação integrada entre Alemanha, Itália e o Japão, esta poderia ter trazido consequências muito mais dolorosas para a URSS e os EUA.

Os Países do Eixo estabeleceram uma aliança que do ponto de vista militar, estratégico e econômico, pouco contribui na conquista de resultados que lhes fossem favoráveis. Ao contrário dos Aliados a aliança dos Países do Eixo representava muito mais uma união simbólica entre nações que em comum compartilhavam os seus desafetos com a Ideologia Comunista.





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Embaixador Mushakoji e o Ministro alemão Ribbentrop Assinatura do pacto Anti Komintern 1936









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Propaganda japonesa celebrando o Pacto do Eixo assinado em 1940





Para se ter uma ideia das oportunidades perdidas pelos Países do Eixo por não discutirem uma estratégia conjunta de cooperação, pode-se indagar: Quais as consequências para a Rússia se o Japão a tivesse invadido no extremo leste após 1941? E se o Japão tivesse adiado o ataque a Pearl Harbor em alguns meses, a Inglaterra teria resistido aos bombardeios alemães, diante do isolacionismo americano? E se o Ditador Francisco Franco, da Espanha, tivesse concedido à Alemanha o direito de controlar a passagem pelo estreito de Gilbratar fechando a entrada do mar mediterrâneo aos Aliados? E se Mussolini não tivesse atacado a Grécia, tendo depois que solicitar ajuda de Hitler que desviou esforços do exército alemão atrasando em meses a invasão da Rússia? Estas e outras indagações nunca serão plenamente respondidas e permanecerão para sempre no campo da especulação. Entretanto, se para as questões acima, houvesse respostas diferentes do que a história revelou é muito provável que as dificuldades que os Países Aliados teriam para derrotar os Países do Eixo seriam muito maiores e até mesmo pode-se questionar se a aliança Berlim-Roma-Tóquio não seria vitoriosa.





franco
Francisco Franco - Generalíssimo da Espanha de 1939 -1973









mussolini
Benito Mussolini - Duce da Itália de 1922 -1943






Citações

[1] Europa na Guerra -1939-1945 – Norman Davies – Editora Record – 1º Edição 2009; [2] Almirante Canaris – Misterioso Espião de Hitler – Richard Bassett – Editora Nova Fronteira – 1º edição 2007; [3] Os Três Grandes – Churchill, Roosevelt e Stalin – Ganharam uma Guerra e Começaram outra – Jonathan Fenby – Editora Nova Fronteira – 1 º edição 2009;


Sobre Ricardo Lavecchia

Ricardo Lavecchia tem 35 anos, nascido no dia 22/01/1982. Natural de Santo André – SP Trabalha como vedendor, desenhista nas horas vagas, sempre procurou novas idéias em imagens de livros e jornais, e foi numa dessas buscas que descobriu outra paixão: A Segunda Guerra Mundial. Tinha, então, 18 anos e se deparou com o livro: "Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália" de Rubens Braga. Ao invés de apenas escolher uma imagem para desenhá-la, resolveu ler o livro. O fascínio pelo assunto o tomou por completo. Em suas pesquisas sobre o tema, descobriu não só relatos de guerra, mas amizades sinceras de veteranos, como o Sr. Antônio Cruchaki, veterano do 9º BEC e o falecido Capitão Rocha da Senta a Pua. E-mail: ricardo @ segundaguerra.net

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