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1939 - 1945

 

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A Conquista da Cidade Histórica de St. Malo pelos Aliados, Necessidade ou Erro Tático?

A cidade de St. Malo, foi bombardeada e diversos tesouros históricos foram destruídos. 

Um dos principais objetivos na Normandia era conquistar portos de grande capacidade que abastecessem as tropas, que avançariam por toda França e à Alemanha.

Como os locais definidos para o desembarque foram na Normandia, os únicos portos que atenderiam inicialmente essa demanda, eram o de Chebourg e o de Brest, sendo o primeiro conquistado em 30 de junho 1944.

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Desembarque aliado na Normandia no dia 06 de junho de 1944.

No caminho de Brest está situada a cidade porto de St. Malo, no qual acabou sendo palco de uma batalha acirrada e pouco relatada atualmente.

A sua destruição e os acontecimentos ocorridos antes e durante a batalha ainda são cheias de controvérsias. Esse baluarte desde a era medieval se destacara como uma verdadeira fortaleza, com valiosas relíquias, imensas muralhas de rochas, barreiras naturais e fossos instransponíveis.

Como também integrava a muralha do atlântico acabou sendo mais ainda fortificada pela organização Todt por um período de mais de dois anos antes do Dia D, integrando agora canhões que dominavam o mar e casamatas de aço maciço com bunkers e galerias subterrâneas.

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vista érea da cidade em agosto de 1944.

Como era projetada para o mar, os alemães tiveram pouco mais de algumas semanas para direcionar suas forças para a ameaça vinda do Leste. Uma grande parcela das tropas alemãs que fugiam para oeste da Normadia e de Chebourg acabaram encontrando refúgio em St. Malo.

Os aliados já sabendo do nível de fortificação da cidade por reconhecimento aéreo resolveram simplesmente contorna-la, conquistando quase sem resistência as cidades a caminho de Brest como Morlaix, Dol-de-Bretagne, Paimpol, St. Brieuc e St. Michel-en-Grève.

George Patton e mais tarde Omar Bradley, no entanto, não viam com bons olhos ignorar essa cidade, pois próximo dela atravessava a ferrovia Brest-Rennes, onde perante eles, os alemães vindos de St. Malo poderiam demolir pontes vitais afetando o escoamento de materiais, portanto era imprescindível sua captura.

St. Malo era o porto de partida para abastecer as tropas alemãs situadas nas ilhas britânicas ocupadas do canal: Jersey, Guernsey, e Alderney e foi contemplada pela Diretiva de Hitler de 19 de janeiro de 1944 de ser transformada em uma fortaleza, com a missão de atrasar ou rechaçar os ataques inimigos.

O Comandante  fiel a Hitler

Essa política se tornou comum em cidades do front oriental, tais como em Kustrin, Konigsberg, Poznan e Breslau. No entanto tudo nasceu um ano antes, em Stalingrado, local aonde se destacou o veterano agraciado Coronel Von Aulock, no qual lutara com distinção, nessa em que pode ser considerada a “primeira grande cidade fortaleza”. Ele foi designado comandante da guarnição de St. Malo.

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Andreas von Aulock

Apesar de ter declarado que era um oficial para ações ofensivas, jurou a Hitler que defenderia a cidade até o último homem e até a última pedra. Essa convicção custou caro aos americanos. Aulock era bem visto pela população francesa, que o respeitara, devido suas ações pacíficas para proteger civis durante a ocupação e bombardeios, evitando saques e mantendo a ordem.

Os americanos eram comandados pelos Generais Macon e Middleton, oficiais desconhecidos até então. A inteligência Aliada estimara inicialmente a existência de 3 mil soldados, o seu número real chegou a 12 mil, incluindo ex-prisioneiros soviéticos e poloneses que não tinham motivos para se render, pois sabiam que seriam fuzilados assim que retornassem aos seus respectivos países.

Na primeira ação em 02 de agosto na vila de Châteauneuf, ao sul da cidade, elementos da 83ª divisão de infantaria americana foram recebidos por uma barreira de fogo de metralhadoras, canhões costeiros e de embarcações que atiravam a longa distância. Urgentemente, a 83ª divisão solicitou ajuda a 6ª divisão blindada, no qual viera junto com a 330ª divisão de infantaria.

No dia 5 de agosto, Coronel Von Aulock permitiu a população civil abandonar a cidade, contudo muitos ainda hesitaram de partir. Somente em 6 de agosto os americanos asseguraram a conquista da vila de Châteauneuf e iniciaram o avanço rumo ao norte. Os alemães iniciaram, então, uma série de demolições que destruíram com toda infraestrutura do porto, precavendo a iminente captura.

O cerco da Cidade

Conforme se aproximavam do centro de St. Malo, a batalha se acirrava. Os poucos franceses que permaneceram na cidade solicitaram que Von Aulock se rendesse, visto a importância da cidade histórica, ele contatou o Marechal Gunther Von Kluge – comandante geral das forças alemãs na Bretanha – e ao consultar Hitler, este respondeu: “na guerra não existe essa questão de cidade histórica. Você deve lutar até o último homem”. Aulock “explicou” a população que não poderia declarar a cidade aberta, pois ela abrigava diversas embarcações militares.

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Soldados aliados patrulhando a cidade.

Conforme a batalha se aproximava dos castelos próximos a costa, os americanos compreenderam que os canhões de 75 mm de seus tanques e os de artilharia 105 mm e 155 mm da não eram páreos para as defesas maciças.

Os alemães bloqueavam todas as vias com blocos de cimento e árvores. Minavam pontos chaves e os sondavam com ninhos de metralhadora. A batalha prosseguira, agora com os americanos utilizando canhões de 203 mm e dois grupamentos de caças bombardeiros P38, onde afim de evitar o menor número de baixas, conduziu uma lenta batalha de saturação, utilizando cargas de demolição para abrir caminho, martelando com artilharia as posições fortificadas e as áreas urbanas, evitando assim “outra Stalingrado”.

Nos bolsões de combate os americanos utilizavam largamente lança-chamas e através do uso de mediadores franceses, induziam os alemães a se renderem. Esses muitas vezes sem munição e água (cortada pelos americanos) acabaram por capitulando as centenas.

Em 8 de agosto membros da 121ª divisão de infantaria começaram a avançar pela porção esquerda do canal em Dinard. Eles foram surpreendidos por um contra-ataque alemão que acabou cercando parte da divisão. Após quase dois dias três aviões vieram em apoio aos cercados mas acabaram sendo abatidos matando todos os tripulantes. Apesar das inúmeras tentativas os americanos não conseguiram libertar os soldados cercados.

O principal responsável pela resistência em Dinard fora o Coronel Bacherer, onde após sustentar pesados combates com forças americanas que o cercaram na península de Contentin, ele junto com o que restara da sua antiga 77º divisão de infantaria e alguns tanques, furou o cerco e ainda capturou 250 soldados americanos. Estes quase que triplicaram suas forças em Dinard e renovaram o ataque.

Em 12 de agosto conseguiram fazer contato com as tropas cercadas da 121ª divisão. A situação se tornou insustentável para os alemães no qual Bacherrer junto com outros 4 mil soldados acabaram se rendendo, junto com quase toda porção esquerda de Dinard no dia 13 de agosto.

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Soldados aliados patrulhando a cidade.

Na porção direita do canal, a batalha prosseguia. Agora atingindo diretamente os fortes e castelos que contornavam a costa, iniciando diversas operações de cerco. Para complicar ainda mais aos aliados, a Ilha de Cezembre que fica a 8 km de St. Malo disparava seus canhões sobre as posições americanas na margem e a artilharia americana não conseguia alvejar a ilha. Os americanos prosseguiram os ataques sobe colunas de fumaça e demolições.

Nos pés desses fortes tanques M10 disparavam centenas de vezes seus canhões contra casamatas de aço e concreto rígido visando desalojar alemães que teimavam em deixar seus postos. Em 13 de agosto um incêndio assolou toda a cidade e uma breve trégua foi acordada para que os civis remanescentes pudessem sair.

Todas fortificações caíram com exceção do castelo de St. Malo permanecia intacto devido suas paredes anti-fogo. No entanto no dia seguinte em um ataque conjunto da artilharia contra o castelo e da infantaria oculta por granadas de fumaça se sobressaíram. 150 alemães já desmoralizados se renderem.

Paralelamente os americanos se voltavam ao último forte alemão no continente em St. Malo, último forte Cidadela, QG do Coronel Von Aulock.

Os canhões de 203 mm foram trazidos para golpear, através de fogo direto. Esta cidadela, apesar de não possuir muitos canhões (apenas algumas peças de 105 mm), era um verdadeiro refúgio de pedras, concreto e aço; imune a ataques aéreos ou artilharia. Possuía periscópios em seu telhado para reconhecimento, sistema de ventilação/aquecimento, vasto armazenamento de munição, reservatório de água, comida, um sistema ferroviário de transporte de munição entre diversos outros elementos que pudessem sustentar um cerco. 

Em seus pés era rodeado com emaranhados de arames farpados, fossas antitanque e trilhos de aço fincados contra o solo. Uma considerável porção de prédios da vila de St. Servan fora derrubada, com exceção da Igreja do Século XII, afim de ampliar seu campo de fogo.

General Middleton solicitou um ataque maciço através de quadrimotores B17, contudo o QG de Eisenhower negou. Canhões recém-chegados de 240 mm junto com ataques aéreos dos P38 foram primeiramente empregados, mas sem efeito.

Tentativa de Negociação

Os americanos sabendo da dificuldade, se focaram na negociação, primeiro usando um alto falante com um perito em guerra psicológica persuadindo os alemães a baixarem as armas, depois enviando um capelão alemão que havia sido capturado no qual retornou com a seguinte mensagem de Von Aulock: “Eu sou um soldado alemão, e soldados alemães não se rendem” e por último através de uma ligação da vila de St. Servan de uma colega francesa do coronel, no qual o persistente informou apenas que tinha outros planos em mente. 

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Vista da cidade parcialmente destruída.

Engenheiros procuraram acessos subterrâneos que pudessem colocar cargas explosiva, mas sem sucesso. Segundo soldados da guarnição, o único que insistira em manter o forte era o próprio Aulock que depositava esperança de um contra-ataque das divisões panzer, vindo de Avranches, no qual libertaria a cidade. Informou que todos depositassem esperança nessa possibilidade e que qualquer um que se rendesse é um “cachorro”.

Depois, por rádio, o coronel ficou sabendo que o contra-ataque alemão fracassou, mesmo assim permaneceu se apegando a falsas esperanças.

Em 11 de agosto, os americanos decidiram iniciar assalto com a infantaria. Atacaram de diversas posições, abriram caminho pelas diversas barreiras com torpedos bangalores e um bravo grupo de engenheiros e franceses, conseguiram escalar e acessar o pátio do forte e ficaram estarrecidos em atestarem nenhum efeito da artilharia e dos ataques aéreos. Jogaram cargas explosivas pelas aberturas dos abrigos e no sistema de ventilação sem sucesso.

Salvas de tiros da ilha de Cézembre e um contra-ataque alemão obrigaram esses incursores a abandonarem o forte e recuar. O primeiro assalto falhara por completo.

Outro assalto foi conduzido entre os dias 13 e 15, agora com diversas unidades especiais de demolição junto com tanques M10 mirando especificamente os pontos chaves do forte (no qual em um período de 24 horas despejaram mais de 4 mil projeteis de 75 mm).

A rendição Alemã

Caças bombardeiros P38 novamente participaram da ação. Quando a infantaria chegou próximo dos muros foram barradas pelo fogo das metralhadoras, frustrando novamente o ataque americano, com as tropas agora já desmoralizadas. General Maicon só agora percebera que a conquista do Forte pela infantaria era impossível, nas reais circunstâncias. A munição de seus canhões já estava no fim. Ele aproximou então duas recém-chegadas companhias de morteiros de 100 mm armados com munição de fósforo branco altos explosivos e os P38 foram ordenados se equiparem com uma das mais recentes inovações da guerra, a Napalm, com ataque programado para o dia 17 de agosto.

Pouco antes do início da empreitada a bandeira branca tremulava no forte com centenas de soldados alemães abandonando suas posições, com alguns cantando canções de despedida ao seu coronel e o insolente Von Aulock, abandonara sua toca subterrânea.

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Andreas von Aulock durante sua rendição.

Ao ser questionado acerca dos motivos da rendição, respondera ainda com seus homens ao lado e com munição no bolso, que a moral das tropas estava baixa devido a sensação de estarem cercados, a do fracasso do contra-ataque alemão em Avranches e o fato de algumas de suas peças de artilharia junto com casamatas de metralhadoras fundamentais terem sido inabilitadas pelos canhões de 203 mm.

A teimosa ilha de Cézembre se rendera apenas em 2 de setembro de 1944 após ação da Marinha Britânica e dos P38 com as Napalms, em sua primeira ação da guerra e que assolariam o Vietnam 25 anos depois.

Era preciso conquistar St. Malo?

A maior vítima desse embate fora a própria cidade histórica. A falha da inteligência americana em prever números exatos, acabou por transformar a cidade em um emaranhado de escombros, destruindo artefatos antigos (alguns datados do início do milênio) como mobílias, porcelanas e uma biblioteca com mais de 30 mil livros e manuscritos de séculos passados, que viraram cinzas sobe as águas do atlântico.

Dos 182 de 865 edifícios, que ainda permaneceram de pé, estavam seriamente avariados. A possibilidade de cerco foi simplesmente ignorada pelo alto comando.  Até hoje é motivo de controvérsia a necessidade de sua captura, já que a mesma possuía uma capacidade portuária muito limitada. Navios grandes não podiam operar em seu estuário e o argumento de Patton de que os alemães poderiam sair de St. Malo e sabotar as pontes da ferrovia é duvidosa, já que a distância entre ambas é de 70 km.

A resistência alemã fora tão obstinada que parte das tropas aliadas que estavam a caminho de Brest acabaram sendo dispostas nessa batalha, atrasando a conquista do objetivo principal.

O total de baixas americanas são desconhecidas, algumas fontes citam entre 5 a 8 mil homens entre mortos, feridos, capturados e desaparecidos.

 A reconstrução da cidade só fora concluída na década de 60, até hoje permanecem por toda sua extensão as marcas dessa batalha pouco comentada.

 

REFERÊNCIAS

BLLUMENSON, Martin: United States Army in World War II European Theater of Operations. Breakout and Pursuit. Publicado em 1961.

MAULDIN, Bill: Reporting World War II, Part One and Two. Siege of Saint Malo. Breakout and Pursuit. Publicado em 1995.

MITCHAM, Samuel W Jr: Rommel’s Last Battle: The Desert Fox and the Normandy Campaign. Jove Books. Publicado em 1991,

SCHERMAN, David E: Lee Miller’s War. Publicado em 1992.

TRUEMAN, Chris: The Battle For Brittany. Breakout and Pursuit. Publicado em 2000. http://www.historylearningsite.co.uk. Acesso em 10 mai. 2016

Enviado por: Ricardo Queiroga

Gestor da Qualidade na Zilmer Ineltec Transformadores, Técnologo em Gestão da Qualidade e cursando terceiro ano da Graduação de Engenharia da Produção Universidade Anhembi Morumbi – São Paulo. Hobby e Leitor assíduo sobre história da Segunda Guerra mundial com foco na guerra na Europa. Frequentador de diversos grupos sobre o assunto e sendo membro há quase 10 anos no grupo grandes guerras.

 

Sobre Ricardo Lavecchia

Ricardo Lavecchia tem 35 anos, nascido no dia 22/01/1982. Natural de Santo André – SP Trabalha como vedendor, desenhista nas horas vagas, sempre procurou novas idéias em imagens de livros e jornais, e foi numa dessas buscas que descobriu outra paixão: A Segunda Guerra Mundial. Tinha, então, 18 anos e se deparou com o livro: "Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália" de Rubens Braga. Ao invés de apenas escolher uma imagem para desenhá-la, resolveu ler o livro. O fascínio pelo assunto o tomou por completo. Em suas pesquisas sobre o tema, descobriu não só relatos de guerra, mas amizades sinceras de veteranos, como o Sr. Antônio Cruchaki, veterano do 9º BEC e o falecido Capitão Rocha da Senta a Pua. E-mail: ricardo @ segundaguerra.net

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