Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial

A Batalha do Rio da Prata

A Batalha do Rio da Prata – A última viagem do Admiral Graf Spee.

Dezembro de 1939. A guerra na Europa estava em curso a pouco mais de três meses. França e Inglaterra haviam declarado guerra contra a Alemanha. A Polônia fora derrotada apenas três semanas e nessa altura a guerra estava numa fase de espera. A França tentou uma ofensiva contra a Alemanha, e como fracassaram, os aliados aguardavam a resposta alemã.

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No mar a Marinha Real Britânica e a Marinha Francesa eram muito superiores a Marinha Alemã, porém essa possuía alguns navios de primeira linha, e entre eles estava o Admiral Graf Spee, “Panzershiffe”, classe Deutschland. Popularmente chamado de “Encouraçado de Bolso”. Devido o Tratado de Versalhes que proibiu as forças alemãs produzirem navios de grande porte, então foram criados esses encouraçados menores. A primeira série de navios que utilizavam placas soldadas eletricamente. Com uma propulsão com oito motores a diesel, sua blindagem era de 40 a 80 mm na lateral, 40 mm no convés, 125 mm nas torres, 150 mm nas barbetas e 140 mm na torre de comando. O armamento principal era composto por seis canhões de 280 mm da Krupp, e oito canhões de 150 mm.  Seu armamento antiaéreo era seis canhões de 105 mm, cinco canhões 88 mm e oito canhões de 37 mm, além de oito tubos de torpedo. Tinham ainda dois aviões Arado Ar 196 lançados com catapulta. Sua tripulação era de 926 oficiais e marinheiros.

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Os “Encouraçados de Bolso” receberam ordens de ataque a locais inesperados, para assim manter a frota aliada dispersa. O  Graf Spee operava no Atlântico Sul. Seu comandante, Capitão Hans Langsdorf, atacava navios mercantes e após cada ataque, navegava milhares de milhas para despistar seus perseguidores.

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Capitão Hans Langsdorf

No dia 30 de setembro de 1939, o Graf Spee afundou o cargueiro Clement, próximo a Pernambuco, no Brasil. Enquanto os aliados se organizaram em cinco grupos de caça para varrer o Atlântico, o Graf Spee capturou o Newton Beech, afundou o Huntsman, o Trevanion e o petroleiro Africa Shell, na costa de Lourenço Marques. Continuando com sua tarefa, afundou os navios Doric Star e Tairoa, próximo a Santa Helena. Após o encontro com o seu navio de reabastecimento (o Altmark), o Graf Spee seguiu para o Rio da Prata, onde fez outra vítima, o Streonshalh.

A marinha inglesa tinha conhecimento de que o Graf Spee intentaria contra o grande número de navios mercantes que partiam do centro comercial do Rio da Prata.  Desta forma, a “Força G”, comandada pelo Comodoro Harwood que era composta de 3 cruzadores: o Ajax, o Achilles e o Exeter, ficando ainda o Cumberland como reserva nas Malvinas (Falklands), se deslocou para o Rio Prata. O Exeter era o único cruzador pesado, da classe York, tendo como armamento principal seis canhões de 203 mm e secundário de oito canhões de 102 mm, seu armamento antiaéreo era 4 canhões Bofors de 40 mm e oito de 20 mm, tinha ainda um hidroavião e sua tripulação variava entre 630 a 850 oficiais e marinheiros.

Como a “Força G” era formada apenas por cruzadores e dois destes cruzadores eram leves com canhões de 152 mm; Harwood sabia que seria difícil causar danos a superestrutura de um encouraçado, então sua estratégia seria dividir a atenção do Graf Spee. O Ájax e o Achilles iriam por um lado e o Exeter atacaria por outro, dificultando a concentração dos alemães, em responder ao ataque.

No dia 13 de dezembro, o Graf Spee foi visto pelos cruzadores ingleses. A batalha iniciou e a estratégia de Harwood foi posta em prática, mas o Graf Spee atacou pesadamente o Exeter que rapidamente foi posto fora de ação. Vendo a situação difícil do seu cruzador pesado, Harwood ordenou o ataque a todo vapor dos dois outros cruzadores, que diminuíram a distância que os separavam do inimigo. Quando se aproximaram, seus tiros tiveram efeito sobre o Graf Spee que precisou diminuir o fogo. O Exeter que apesar de muito atingido ainda navegava, recuou e seguiu para as Malvinas para reparo. Ainda que os tiros dos cruzadores leves não tenham danificado a estrutura do Graf Spee; causaram alguns estragos e os alemães perderam 36 homens. Sendo alvos de todo poder de fogo do navio alemão, Harwood ordenou o fim do engajamento e a volta a uma distância segura. O capitão Langsdorf que se viu em apuros por ter que enfrentar três cruzadores, rumou para o continente, sendo sempre perseguido pelos ingleses. Harwood não queria perder o navio alemão, ainda achava ter chance de derrotá-lo, mas para sua surpresa, este seguiu para o porto uruguaio de Montevidéu, na foz do Rio da Prata. Terminava assim a primeira fase da batalha.

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Detalhe do dano ao Casco do Graf Spee

Por se tratar de um porto neutro, o Graf Spee tinha apenas 24 horas de estadia de acordo com a lei internacional, caso contrário seria internado. Entretanto, foi ele necessitava de alguns reparos, pois suas cozinhas haviam sido destruídas entre outras coisas. O governo uruguaio concedeu um prazo de 72 horas que encerrava no domingo dia 17 de dezembro as 18h00min. Fato que gerou uma grande disputa política, pois inicialmente o governo inglês e francês queria que o governo uruguaio exigisse a saída do navio alemão. O governo uruguaio manteve o prazo.

Por sua vez, os navios ingleses fizeram os reparos possíveis e reforçados com o Cumberland que chegara para ajudar, patrulhavam as águas próximas da foz para evitar a fuga do navio alemão. Langsdorf seguia numa frenética rotina para consertar o seu navio e após várias comunicações com Berlin, recebeu suas ordens: Era impossível fugir e uma luta seria inevitável.

Durante a sua curta estadia naquela escala, o Graf Spee torna-se o fascínio entre a população local e rapidamente uma multidão se reúne no porto de Montevidéu para admirar a moderna máquina de guerra. Curiosamente, no meio da multidão, estava Mike Fowler, um jornalista estadunidense que se encarregou de cobrir a história para um jornal dos Estados Unidos. À medida que o tempo esvaía, os serviços de notícias da rádio e imprensa deram a impressão, errada, de que a segunda esquadra já se achava próxima ao porto.

Finalmente no dia 17 às 17h30min, o Capitão Langsdorff embarcou com uma tripulação reduzida ao mínimo e o Graf Spee içou âncora envergando bandeiras de combate em ambos os mastros. O navio possuía ainda munições suficientes e canhões em bom estado. Crendo que a força naval britânica era muito maior, Langsdorff querendo evitar uma batalha sem sentido e um banho de sangue previsível, preparou seu navio para afundar. Para isso colocou toda a munição pronta para explodir com a detonação dos torpedos que tinham dispositivos de tempo. O Capitão e toda a tripulação se retiraram e em seguida fortes explosões partem o casco em dois, encalhando-o no lamacento fundo do estuário do Rio da Prata, que separa o Uruguai da Argentina. Em terra, milhares de espectadores atentos testemunham o naufrágio do navio.

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Admiral Graf Spee Naufragando em chamas

A tripulação do Graf Spee junto com seu comandante foi enviada por barco a Buenos Aires. Três dias depois, Langsdorf se enrolou na bandeira da Marinha Imperial Alemã, sob a qual lutara na Primeira Guerra Mundial e suicidou-se com um tiro. Terminava assim a última viagem do Graf Spee.

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Enterro do Capitão Hans Langsdorff
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Túmulo do Capitão Hans Langsdorff em Buenos Aires

MAIS IMAGENS DO GRAF SPEE POUCO ANTES DE SER AFUNDADO

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial.

Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, – antigo Segunda Guerra.org – escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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5 comentários

  1. Sérgio Augusto Patané

    na minha opinião: o navio Admiral Graff Spee, fabricado com alta tecnologia, transformou-o em um vaso de guerra altamente ¨LETAL e a frente de seu tempo ¨Na verdade ele sofreu uma ¨emboscada Naval¨ porque quatro vasos de guerra contra um é ¨Covardia ¨portanto: avariado e encurralado pelos seus ¨Algoses ¨ele ficou encurralado no porto de Montevidéu, só saindo de lá, para ser ¨implodido, para não cair nas mãos do inimigo; portanto: um navio (vaso de guerra) tão ¨glorioso ¨teve um final ¨inglório, junto com seu Comandante Hans Langsdorff ¨.

  2. Não vejo nenhuma glória na atitude de atacar navios mercantes desarmados e sem chance de defesa.
    Quantos marinheiros morreram somente por tripularem um navio que tinha a bandeira de uma nação oficialmente não inimiga! Onde está a Glória para a simples pirataria?
    E acaso não foram “algozes” (grafia correta) de suas indefesas vítimas?
    Se isto não é covardia, então não sei mais o que é!

  3. Obrigado por postar,muito interessante!

  4. O Comandante Langsdorf era um cavalheiro e humanista .
    Nos afundamentos inimigos contra navios mercantes nao causou uma so morte de amigo ou inimigo ,se preocupando com a total retirada da tripulacao e de seus pertences e mesmo ao requinte da retirada da alimentacao que estava acostumada ,transferindo estes p/ navios de suprimento .
    Entao independente de qualquer ideologio so devemos lamentar de nas guerras nao existirem mais homens honrados como o Cmte. Langsdorf .
    Um viva a ele !

  5. Excelente artigo. Vale lembrar que na guerra sempre se busca a superioridade de homens e meios. A igualdade não é o ideal do campo de batalha, sendo somente aceitável numa visão romantizada da guerra, o que é muito distante do mundo real. Os ingleses mostraram além de superioridade de meios argúcia na tática e na diplomacia, mas isso não exime-me de elogiar o caráter do comandante alemão, pena que tenha optado pelo suícidio.

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