Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

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Segunda Guerra Mundial
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A Batalha de Stalingrado – Gralhas do Volga

Os marinheiros da flotilha do Volga eram também conhecidos por gralhas negras do Volga, por usarem um uniforme azul escuro, quase preto. Além de prestar suporte nos deslocamentos fluviais, protegendo as embarcações que atravessam o rio, desafiando constantes ataques aéreos, eles mantiveram a linha de abastecimento. Esses valentes soldados foram empregados como infantaria em diversos combates as margens do rio.  Alguns desses guerreiros se destacaram durante a luta, como o marinheiro Leonid Parikara que destruíra 3 tanques alemães em 15 de outubro, sendo que ao atacar o terceiro carro de combate, já lhe faltava metade do pé esquerdo. Os marinheiros Alexsey Turtikov e Nicos Lobanov lançaram um ataque suicida com granadas a dois canhões autopropulsados StuG III. O tenente Georgij Moshin defendeu o cais de Stalingrado com pouco mais de 30 soldados, seu destacamento segurou a posição, mesmo sofrendo cinco fortes ataques. Todo o pelotão acabou sendo dizimado pelo inimigo, mas eles não cederam a posição.

Mas além dos marinheiros soviéticos, Stalingrado também recebia a visita de outras gralhas do Volga. Durante semanas milhares de corpos estavam espalhados, pela cidade, o mau cheiro tornava Stalingrado uma desolação. Era comum encontrar animais devorando os cadáveres a céu aberto. Cães, ratos e gatos, os bichos não faziam dissensão de uniformes, russos e alemães eram devorados da mesma maneira.  Era terrível se deparar com tal cena, companheiros de armas mutilados por ação de animais que viviam entre os escombros da cidade. De todos os predadores, o mais terrível era o corvo, ele mutilava o rosto dos combatentes, principalmente os olhos. O sargento Friederich Nordmann teve um colapso nervoso ao encontrar o irmão sem a órbita dos olhos num dos becos de Stalingrado. O tenente Aleksej Kniazev descarregou seu PPSH-41 contra as aves carniceiras depois de encontrar um de seus grupos de combate sendo devorado pelos bichos.

O grunhido dos corvos soava como mal agourou a todo combatente de Stalingrado. Vez por outra soldados alemães arremessavam granadas contra grupos de gralhas que teimava em “segui-los”. Mas por mais que eliminavam as penosas intrusas, mais aves surgiam pelos bairros da cidade, ao amanhecer ou ao final da tarde era possível observar revoadas de corvos vindos da margem oriental do Volga. As revoadas também causaram quedas das aeronaves dos litigiantes. Pelo menos em duas ocasiões aviões soviéticos e alemães caíram em virtude do choque com bandos de corvos.

stalingrado - A Batalha de Stalingrado - Gralhas do Volga

Mas a batalha de Stalingrado era uma luta sem quartel. Violentos combates de rua tornavam-se cada vez mais intensos na medida em que as forças alemãs avançavam para o interior da cidade. Os cidadãos aderiram a luta, milhares aderiram aos alemães, porém a grande maioria dos habitantes colaborou com o Exército Vermelho, alimentando-os, passando informações ou servindo nas milícias que operavam por trás das linhas inimigas. Tal como os corvos os civis começaram a mutilar os corpos dos soldados alemães. O nível de hostilidade contra mortos e feridos tornou-se um assombro ao General von Paulus. Ele relatou a sua esposa em carta datada de 20 de outubro, que “… a situação em Stalingrado alcançara as raias da loucura, nossos próprios feridos tiveram que ser colocados em transportes blindados e guardados, caso contrário, os encontrávamos espancados ou esfaqueados até a morte…”. Era comum encontrar soldados alemães sem a cabeça. A fadiga e o terror do combate resultaram numa completa desordem moral as forças alemãs. Soldados fuzilavam sem nenhuma clemência, civis que supunham estar hostilizando as forças alemãs. Entre 15 de outubro e 19 de novembro, a batalha deixara de ser um conflito de dois exércitos para ser uma luta entre predadores. O sadismo se fez presente. O Exército Alemão outrora disciplinado tornara-se uma horda de bárbaros sedentos por sangue. A natureza selvagem da luta fez com que a Wehrmacht esquecesse as regras da guerra. Os oficiais superiores tinham dificuldades em manter a ordem e disciplina entre os homens. Paulus, como juiz supremo do 6º Exército, foi obrigado a proferir centenas de sentenças de morte. Por outro lado os russos instigados pelos comissários políticos a impor uma resistência fanática, lutavam com mais ódio, cada vez que conquistavam alguma posição alemã, os corpos dos invasores eram espetados por dezenas de baionetas, seus crânios eram esmagados a golpes de coronha e suas tripas arrancadas. A luta tornara-se uma carnificina terrível. Além disso, o frio começou a tornar a vida dos combatentes alemães um verdadeiro inferno.

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Vastas nuvens de fumaça queimam em Stalingrado, enquanto a Luftwaffe reduz a cidade a escombros.

Em meados de outubro, foram feitas várias alterações nos dispositivos de defesa da cidade, as posições soviéticas foram divididas em quatro cabeças de ponte rasa, com linhas de obstáculos a apenas 600 metros da margem do rio. Yeremenko e Kruschev começaram a apertar o comando e infundir entre os comandantes soviéticos maior fidelidade e fanatismo. A 187ª Divisão de Fuzileiros ocupou uma fábrica às margens do rio, e recebeu ordens para defender o setor a qualquer custo. Em três dias, 90 por cento da divisão fora eliminada. Os russos lutavam até a ultima gota de sangue. Nessa época raramente os alemães faziam prisioneiros.

Mas em outubro de 1942, o 6º Exército tinha atingido seu objetivo conforme estabelecido por Hitler no início do ano. O Volga fora alcançado e metade da cidade estava em mãos alemãs, enquanto o resto poderia ser arrasado por bombardeio aéreo. Hitler sempre esteve preocupado com desperdício de seus soldados em combate urbano. Mas agora, com a vitória tão perto, ele estava determinado a mostrar o valor de seu Exército a Stalin.

As duas maiores gralhas do Volga encontravam-se aninhadas em Berlim e Moscou. Stalin determinara que Stalingrado fosse a sepultura do Exército Alemão. Em julho ele emitira a ordem 227 que sumariamente dizia que o Exército Vermelho não deveria dar “nenhum passo para trás!”: Anexada a diretriz vinha uma ordem draconiana de que qualquer um, homem, comandante, regimento ou divisão que cedesse terreno ao inimigo deveria ser fuzilado por traição. As autoridades locais receberam ordens para aplicar os mais severos castigos aos traidores da União Soviética. Chuikov declarou que “… em uma cidade de linha de frente não é possível suportar a covardia, aqui não há lugar para covardes, não há espaço para eles. Aqueles que não suportam a batalha em todos os sentidos, e não suportam a ordem e disciplina, são traidores e devem ser executados sem piedade.” Devido a isso, os soldados soviéticos defenderam suas posições com um fanatismo quase religioso. Quando vacilavam, eram atingidos por tiros certeiros, disparados dos revólveres de seus comissários políticos, ou pelos destacamentos da NKVD. Stalin e seu aparato de repressão serviram como predadores de milhares de tropas soviéticas. O regime stalinista era quase tão cruel para os seus próprios soldados quanto para o inimigo, como evidenciado pelo número total de 13.500 execuções sumárias entre setembro e outubro de 1942.

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O Exército Vermelho transporta homens e suprimentos através do rio Volga que foram continuamente bombardeados pela Luftwaffe.

Por outro lado o líder nazista no afã de derrotar o czar vermelho declarou que a campanha “seria decidida em Stalingrado”, com isso ele também provocou a morte de milhares de soldados alemães. Os germânicos foram enganados particularmente em suas convicções políticas e patrióticas, milhares deles ainda acreditavam que sua luta era travada para defender a Europa contra o bolchevismo. Suas crenças políticas os conduziram a uma estrada sem volta, cujo destino era a morte.

Mas a batalha pela posse de Stalingrado não diminuía. Soldados obstinados de ambos os lados lutavam como feras pela conquista da cidade. Na madrugada de 25 de outubro, barcos e barcaças de transporte, cobertos pela escuridão atravessaram milhares de tropas sob o Volga. Nas primeiras horas da manhã milhares de soldados soviéticos lançaram-se sobre as posições inimigas de norte a sul. Mas os soviéticos foram submetidos ao fogo de morteiros, metralhadoras, canhões, granadas e disparos de tanques. Mas mesmo caindo aos milhares os russos continuaram avançando. Os comissários estimulavam seus batalhões aos gritos, conduzindo milhares de jovens ao gigantesco moedor de carne que tinha se tornado aquele combate urbano.

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Soldados do Exército Vermelho do 62º Exército em trincheiras na margem do Rio Volga em 1942.

Por volta de dez horas da manhã as primeiras ondas de ataque entraram em colapso. Quem não morreu cambaleou, arrastou ou tropeçou de volta para as barrancas do Volga. Os regimentos soviéticos tinham sofrido uma forte erosão, companhias haviam sido reduzidas a menos de 40 homens, batalhões em média de 120 e regimentos com menos de 400 soldados. O ataque do 62º Exército resultou num custo humano enorme. À tarde, outro ataque foi desfechado sobre as linhas alemãs. Dessa vez a infantaria foi escoltada por tanques T-34, o comando havia distribuído farta ração de vodka aos soldados soviéticos que avançaram mais uma vez contra as posições nazistas. Mas se a bebida tornava o combatente mais valente em contrapartida lhe entorpecia os sentidos, portanto os pobres diabos marcharam mais uma vez para a morte certa. Os carros de combate foram sendo atingidos pela artilharia antitanque e acabaram imobilizados um após o outro. No final do dia pelo menos cinco divisões de fuzileiros haviam sido destroçadas. Com o resultado da batalha Paulus e seu Estado-Maior ficaram confiantes em capturar toda a cidade até 10 de novembro. Ele resolveu empregar todos os batalhões que não estavam envolvidos diretamente no combate, redirecionando divisões para o norte a fim de derrotar os últimos defensores. Os corvos continuariam a comer. As gralhas do Volga em sinistra vigília continuariam a observar os beligerantes sangrando e morrendo por algumas dezenas de edifícios degradados da cidade.

Fonte:  Bráulio Flores

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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