Ecos da Segunda Guerra

 

1939 - 1945

 

Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça."

Segunda Guerra Mundial
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A Batalha de Moscou – Ilya Vinitsky em O Preço do Terror

Quando a Alemanha invadiu a União Soviética, no dia 22 de junho de 1941, Ilya Vinitsky era estudante do Instituto de Aviação de Moscou (IAM) e tinha começado um estágio de verão numa fábrica no Volga. Criado numa família judia em Kiev, ainda na escola secundária, ele tinha sido treinado como franco-atirador. Portanto, estava pronto – e ansioso – para se oferecer como voluntário ao serviço militar quando estourou a guerra e foi correndo para Moscou na manhã seguinte. O comitê regional do partido indicou-o para o Primeiro Batalhão Comunista Especial de Moscou, uma unidade de 307 homens composta de outros estudantes do iam, além de engenheiros mais experientes e contramestres de fábrica, alguns dos quais tiveram experiência de combate na Guerra Civil Espanhola.

Na primeira reunião de instruções do novo batalhão naquela mesma noite, três oficiais do partido vestindo roupas civis chegaram e, depois de dizerem ao instrutor militar para sair do recinto, informaram aos voluntá­rios que uma missão especial lhes era confiada naquele momento. Explica­ram que, como muitos soldados soviéticos fugiam dos atacantes alemães, a tarefa deles seria fazê-los parar. Admitiram que na região do Báltico muitos soldados se livravam das suas armas, despiam as fardas e cruzavam nadando um rio para fugir; muitos outros simplesmente esperavam para se render. A missão do novo batalhão, continuaram, era impor novamente a disciplina e dar fim àquele comportamento. “O Comitê Central autoriza vocês a tomar qualquer medida necessária, até mesmo a execução”, declararam.

Já octogenário, ao relembrar aquelas palavras, Vinitsky se viu lutando contra as lágrimas. Poucas lembranças são tão dolorosas para os veteranos da Grande Guerra Patriótica, a designação oficial da Segunda Guerra Mundial na Rússia, como as dos soldados soviéticos matando seus próprios homens. Até hoje, muitos veteranos suprimiram tudo relacionado com essas lembranças em particular – ou pelo menos evitam falar dela. Mas a prática se iniciou bem no início da guerra e se tornou assustadoramente comum. Desde o princípio, Stalin agiu com base na sua convicção profunda, quef0; evidente durante toda a duração do seu reinado, de que precisava lutar uma guerra em duas frentes: uma contra o invasor estrangeiro e a outra contra aqueles que ele e seus exércitos de carrascos voluntários chamavam de traidores ou inimigos internos.

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Tropas Soviéticas em Moscou em 1941

O terror do período de paz da década de 1930 transformou-se rapida­mente na nova campanha de terror do período de guerra. E a maioria dos que foram à guerra em 1941 reconheceram, ou logo passaram a reconhecer, que não eram apenas os alemães que ameaçavam suas vidas; havia também seus próprios companheiros, oficiais superiores e agentes da NKVD. Nem mesmo o soldado mais leal podia ter certeza de que não cairia em desgraça, às vezes em total ignorância, com algum companheiro do seu lado no cam­po de batalha ou fora dele.

Como um jovem que havia acabado de vestir a farda, Vinitsky não foi enganado pelas instruções que sua unidade acabara de receber, muito pelo contrário. “Estávamos orgulhosos por termos recebido aquela missão espe­cial”, lembrou. A missão significava também que estavam equipados com fuzis e granadas, ao contrário de muitas outras unidades, que receberam apenas suprimentos mínimos. E, como eram voluntários que não passaram pelo departamento de mobilização, seus documentos eram diferentes dos da maioria dos outros recrutas. Por causa desse descuido, eles puderam guardar seus passaportes internos, o documento de identificação que todos os civis eram obrigados a carregar em todas as ocasiões, em vez de trota por cartões de identificação militares. Essa confusão burocrática pouco pois quase custou a vida de Vinitsky.

Mas primeiro, com a sua unidade, ele teve de ser transportado para o «rpm. Um dos seus instrutores militares lhes tinha informado sobre o solo da Prússia Oriental, explicando por que seria difícil cavar trincheiras, como se tosse possível que eles logo se encontrassem tão longe a oeste depois de em­purrar os alemães para o seu próprio território. Pelo contrário, embarcaram num trem para o oeste que só chegou a Velikiye Luki, uma cidade a 450 km de Moscou. “Só até lá. Não havia nenhuma forca soviética além dali.”

A cidade e tudo nela foram abandonados pelas tropas soviéticas, embora também não houvesse alemães ali. Os desvios da ferrovia estavam travados. Gora a ajuda de um maquinista local, eles conseguiram destravá-los e sair à noite, mas se viram sob ataque dos aviões alemães na manhã seguinte. Vinitsky e alguns companheiros conseguiram descer do trem, mas cerca de 50 foram mortos ou feridos antes de chegarem à proteção de uma floresta próxima. *Pela primeira vez, vi o que significava um pouco de sangue*”, disse ele, referindo-se à manifestação orgulhosa das autoridades soviéticas antes da guerra, de que iam derrotar qualquer inimigo no seu próprio ter­ritório perdendo apenas “um pouco de sangue” russo. Os mortos e feridos estavam espalhados por toda parte. Um fragmento de bomba havia aberto a cabeça de um dos seus amigos, matando-o instantaneamente, mas seus olhos ainda estavam abertos e pareciam fitar Vinitsky e os outros sobrevi­ventes “como se os censurasse”. Do trem só sobrou uma ruína inútil.

Com ordens de voltar à tarefa principal de encontrar unidades em retira­da para forçá-las a voltar à batalha, os sobreviventes se dispersaram na flores­ta, geralmente aos pares. Vinitsky logo se viu sozinho, pois seu companheiro desapareceu durante a noite. Depois de andar por várias horas, ele encontrou um grupo de 60 ou 70 soldados soviéticos sentados em volta de uma foguei­ra. Tudo na aparência deles indicava que já tinham desistido da luta. Dois oficiais superiores, que poderiam ser identificados pelas insígnias que tinham arrancado da farda, claramente se preparavam para se render aos alemães. Sentados indiferentes em volta, seus homens estavam prontos para seguir o comando deles. Alguns já tinham queimado seus documentos pessoais.

Enfrentando-os sozinho, Vinitsky perguntou quem era o responsável pela unidade. Ninguém respondeu. “Em forma!”, ele ordenou e os ho­mens obedeceram. Ele lhes disse que tinha completa autorização do comitê central para assumir o comando e que também estava autorizado a fuzilar qualquer covarde. Então, ele os instruiu a segui-lo e, mais uma vez obedeceram. “Estavam felizes por alguém assumir qualquer tipo de responsabilidade”, contou. “Os homens recuperaram a coragem por acreditai que eu tinha confiança no que fazia,”    

Isso não chegava a ser surpreendente, pois muitos dos soldados só conheciam oficiais incompetentes. Vinitsky contou aos dois oficiais o seu plano de conduzir os soldados de volta à sua unidade, para que se recompusessem como unidade de luta. Mas quando examinou com eles um mapa para descobrir a rota a ser tomada, percebeu que aqueles oficiais políticos não sabiam ler mapas. A razão, Vinitsky explicou, era que menos de um ano antes os oficiais superiores daquela unidade tinham sido expurgados e no lugar deles tinham assumido elementos leais que só sabiam os slogans de partido.

batalha moscou - A Batalha de Moscou - Ilya Vinitsky em O Preço do Terror
Mulheres soviéticas cavam trincheiras e armadilhas para tanques em Moscou em outubro/novembro de 1941

Apesar de poder tê-los executado, ele não fuzilou nem os oficiais nem ninguém mais. Reconheceu que ficou tentado, particularmente quando viu que os oficiais tinham destruído suas insígnias. Mas quando fez aqueles homens marcharem até a unidade principal, ouviu que as coisas tinham se passado de outra maneira em outras partes. Alguns dos seus camaradas admitiram tranquilamente ter executado soldados para afirmar sua autoridade. A unidade especial tinha reunido cerca de 1.500 soldados no total, mas Vinitsky não sabia quantos foram mortos no processo.

O batalhão de Vinitsky não hesitou em fazer o que fosse necessário paia sobreviver, não importando o preço a ser pago. Tomavam cavalos, grãos, ou­tros alimentos que encontravam nas aldeias que ainda não estavam ocupa­das pelos alemães. Vinitsky afirmou que seus homens emitiam recibos por tudo que tomavam, mas os camponeses sabiam que eles não tinham valor. “Vocês estão nos abandonando aos alemães e roubando de nós, malditos ‘defensores”‘, gritavam para os soldados.

Em certo ponto, a unidade de Vinitsky descobriu um automóvel alemão e o emboscaram. Dentro havia um general alemão, uma enfermeira russa e um motorista. “Matamos todos. Tivemos de matar também a enfermeira. Não tínhamos meios de tomá-los prisioneiros. Não era prático. Mal conseguíamos encontrar alimentos só para nós.” E acrescentou: A enfermeira tinha desertado. Você não acredita quantos traidores havia”. Muitos dos homens já tinham testemunhado a destruição executada pelas vezes nas suas cidades natais, contra suas famílias e vizinhos. Por isso, concluiu Vinitsky, “estávamos furiosos e éramos impiedosos”.

Ironicamente, os que estavam encarregados de caçar “traidores’ e soldados prontos a se render, às vezes também caíam vítimas de outros encarregados da mesma missão, o que também era comum no sistema de Stalin. Os caçadores podiam, e o que acontecia com frequência, de repente se transformar em caça.

Perto do fim do verão, Vinitsky recebeu ordens de voltar para leste até Rzhev, uma cidade violentamente disputada a noroeste de Moscou. Ele de­via ajudar a manter os aviões soviéticos baseados na cidade. No caminho, ele ficou com um dia livre enquanto esperava a conexão com um trem numa cidadezinha. “Minhas pernas doíam, eu estava com fome, não tinha dinheiro e não podia comprar comida”, lembrou. Então ele decidiu ir a um lago próximo, tirar as botas e molhar os pés na água, desfrutando a rara paisagem pacífica num dia quente de verão. Vestia farda suja e levava unia metralhadora e binóculos alemães que tinha tomado numa batalha. Mas, o pior é que ele ainda levava seu passaporte interno, que normalmente in­dicaria que ele não era na verdade um soldado soviético, que devia portar somente cartões ou medalhas de identificação militar. “Eu era um presente para o serviço de contra inteligência”, disse sarcasticamente, “Naquela épo­ca, a caçada de espiões corria a pleno vapor. ”

De repente, ele ouviu a ordem: “levante-se! Mãos para o alto! Não se mexa! ” Uma patrulha de três homens tinha se aproximado em silêncio, todas com as armas apontadas para Vinitsky. “Documentos! ”, exigiram. Quando Vinitsky puxou seu passaporte interno e seu cartão de identidade estudantil, eles o empurraram no chão e amarraram suas mãos nas costas. Apesar de ter um documento designando seu batalhão, eles estavam con­vencidos de que aquilo era uma falsificação alemã. Estavam convencidos de que tinham prendido um espião alemão.

A patrulha voltou marchando com Vinitsky para o escritório da NKVD na cidade, onde três outros homens começaram a interrogá-lo e logo descar­taram sua história, tomando-a como uma fraude evidente. Um dos homens começou a torturá-lo, batendo-lhe no rosto, mas te: uma pausa quando Vinitskv cuspiu alguns dentes da frente. O preso ainda teve a presença de espírito de lançar mais uma defesa, dizendo que era judeu. Seu torturador fê-lo despir-se para provar que era circuncidado. Mas isso só convenceu o trio de que ele era “um espião muito bem camuflado”. A pancadaria continuou até o oficial da NKVD se cansar. Ele, então, propôs matar Vinitskv ali mesmo.

Mas um dos outros homens, o secretário local do partido, tinha continuado a examinar seus documentos e concluiu que não eram forçados o que só poderia significar que ele era um espião ainda mais importante do que tinham imaginado, e devia ser enviado para a sede local da NKVD na cidade de Kalinin, onde “eles fariam esse palhaço dizer a verdade”. Três homens armados o escoltaram na viagem de trem até Kalinin, e lá ele foi atirado no chão de cimento de uma cela sem janelas da sede da NKVD, com as mãos ainda amarradas e a boca sangrando.

Vinitsky não sabia, mas teve sorte de estar lá. Seu novo interrogador, um jovem agente da NKVD vestindo roupas civis, anotou tudo que ele disse, inclusive a afirmativa que não tinha sido culpa sua ele não ter um cartão de identificação militar. Para surpresa de Vinitsky, o interrogador ouviu suas alegações e chamou o diretor do iam, que comprovou a veracidade da histó­ria de que ele era um estudante que tinha se apresentado como voluntário para o serviço militar. O interrogador fez várias perguntas detalhadas sobre o iam, onde estava instalado o Instituto de Aviação em Moscou e onde ficavam as salas de aula. Quando Vinitsky respondeu a tudo com precisão, ele ordenou ao guarda que o desamarrasse, permitiu que ele se lavasse e lhe ofereceu chá e pão seco. Vinitsky só conseguiu tomar o chá, já que, em virtude dos espancamentos, ele não conseguia mastigar.

O interrogador libertou Vinitsky, que voltou à manutenção de aviões, mas não em Rzhev. As instalações daquela cidade já tinham sido destruídas na luta. Mais tarde Vinitsky seria informado do destino do restante da sua unidade. Dos 307 homens, 32 sobreviveram. Ele estava entre esses poucos afortunados e, o que não chegou a ser incomum, seus próximos encontros com a morte aconteceram quando ele era prisioneiro no seu próprio lado.

Fonte: NAGORSKI, Andrew. O Preço do Terror. In: NAGORSKI, Andrew. A Batalha de Moscou1ª. ed. [S.l.]: Editora Contexto, 2013. p. 77-82.
http://editoracontexto.com.br/a-batalha-de-moscou.html

Sobre André Luiz!

André Luiz, natural de Osasco, ex-militar do Exército, estudou letras em São Paulo, graduando em Psicologia e fascinado pelos fatos que envolvem a Segunda Guerra Mundial. Idealizador e criador do site Ecos da Segunda Guerra, - antigo Segunda Guerra.org - escreve sob a expectativa de contribuir com a memória deste trágico conflito e demonstrar mesmo nos acontecimentos mais terríveis é possível observar detalhes interessantes.

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